«Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés», 2025, realizado pelo seu filho adoptivo, Fabien Pisani. O filme dá-nos uma visão multifacetada do cantor, compositor e guitarrista cubano Pablo Milanés (1943-2022) cuja vida sintetizou de algum modo as voltas e reviravoltas que o seu país observou antes e, sobretudo, após a revolução que culminou com a deposição do ditador Fulgêncio Baptista (homem de mão do capitalismo e imperialismo americanos) graças ao movimento guerrilheiro liderado por Fidel Castro e corporizado pelos demais companheiros do Movimento 26 de Julho.
Desde 1 de Janeiro de 1959, aquela ilha das Caraíbas passou a ser um dos locais para onde os olhos do mundo progressista se voltaram na esperança de encontrar o portal para um mundo novo onde novas políticas dessem corpo a um desejo de ampla igualdade e fraternidade e que, no campo das artes e letras, permitisse uma sonhada explosão de criatividade. Testemunha disso mesmo, o jovem Pablo Milanés, que já possuía experiência no campo musical, soube desde cedo valorizar o sentimento romântico de algumas das suas letras (aquelas que mais ecoam na nossa memória) onde o amor não aparece apenas como um mero conceito mergulhado num melaço enjoativo, mas sim como a afirmação material e moral da relação entre dois seres (o plano individual), assim como dos homens, das mulheres (e naturalmente dos amantes) com o meio social e familiar em que se inseriam (o plano mais vasto do colectivo). Neste processo iminentemente cultural, Pablo Milanés soube entrelaçar estas duas componentes numa outra ainda mais forte que era o da celebração de uma inegável, diria mesmo, inevitável, nova liberdade de costumes que a revolução cubana implicitamente admitia, liberdade que contrastava com décadas de subordinação a estratégias mafiosas que fizeram de Cuba o bordel da América Latina.

Mas o documentário não se reduz a uma acumulação contínua de factos e figuras do passado, aliás, começa por nos dar conta de um velho mas não acabado Pablo Milanés que se instalara em Madrid (saberemos mais adiante contra a sua profunda vontade, porque a ausência de Cuba não o consolava) devido a uma doença cujo acompanhamento necessitava de cuidados médicos e medicamentos que alegadamente não seriam possíveis obter no seu país.
Na verdade, Pablo e Cuba, Cuba e Pablo constituem os dados de uma equação indissociável da autêntica alma do intérprete que nos anos sessenta do século XX lançou as raízes de um movimento designado Nueva Trova Cubana. E será nesta “plataforma” de actualidade (a mesma que pouco a pouco introduz os numerosos membros do seu clã e familiares mais próximos) que a montagem se alicerça para a partir dela combinar e integrar na estrutura final o fluxo de materiais de arquivo que nos darão a conhecer os momentos de fulgor e impacto militante sempre que Pablo Milanés se apresentava diante de largas centenas, a maioria das vezes, milhares de pessoas que habitualmente assistiam aos seus concertos.

Por outro lado, não se escamoteiam as questões mais controversas, como o uso da sua liberdade de expressão que o levou a defender posições que não se alinhavam com uma certa normalização das originais premissas revolucionárias. Também não se ocultam situações mais complicadas como foi o da mobilização para as UMAP (Unidades Militares de Ayuda a la Producción), na província de Camaguey. Entretanto, noutro patamar da realidade, revelam-se episódios mais ou menos delicados da sua vida íntima e dos sobressaltos (encarados hoje com um sorriso) do que foram os seus diversos casamentos, nomeadamente aquele cuja memória ficou registada na canção, mil vezes ouvida e repetida, “Yolanda” (nome da segunda mulher). Recordemos os derradeiros versos: “Si alguna vez me siento derrotado / Renuncio a ver el sol cada mañana / Rezando el credo que me has enseñado / Miro tu cara y digo en la ventana / Yolanda, Yolanda / Eternamente Yolanda”.
Dos que dele falam e ajudam a contextualizar o que se ouve e vê, ficam aqui os nomes mais salientes: Silvio Rodríguez, Joan Manuel Serrat, Chucho Valdés, Chico Buarque, Omara Portuondo, Harry Belafonte, Xiomara Laugart, Fito Páez, Leonardo Acosta, Rosa Marquetti, entre outros, que acrescentam uma dose suplementar de emoção ao que ouvimos da própria boca de Pablo Milanés.
Em suma, para quem já o conheça ou para os que agora chegam ao seu universo musical, “Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés”, que o IndieLisboa irá exibir na secção Indie Music, constitui uma abordagem segura e sincera da sua intimidade e do seu pensamento, sendo uma excelente oportunidade para viajarmos ao encontro da ampla e merecida carreira de um nome emblemático da canção popular latino-americana.
Título orignal: Para Vivir: El Implacable Tiempo de Pablo Milanés
Realização: Fabien Pisani
Documentário
Duração: 106 min.
México/EUA, 2025
03 Maio 2026, Domingo, 21:00 (107′)
Culturgest, Auditório Emílio Rui Vilar



