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O Dia da Revelação

«O Dia da Revelação» é daqueles filmes que chegam com ares de blockbuster de Verão e acabam por entrar pela sala de cinema a dentro como se trouxessem debaixo do braço o Antigo Testamento, Carl Sagan, «Ficheiros Secretos», três relatórios do Pentágono, uma partitura de John Williams e uma pergunta que já devia estar inscrita na testa da humanidade: e se não estivermos sozinhos, quem é que tem o direito de nos contar? Steven Spielberg regressa aos extraterrestres, mas não vem fazer turismo nostálgico ao planeta «E.T.» nem repetir a missa luminosa de «Encontros Imediatos do Terceiro Grau». Vem filmar o nosso tempo, que é muito menos inocente, muito mais histérico e infinitamente mais disponível para transformar qualquer revelação cósmica num podcast, numa guerra cultural, numa criptomoeda e, claro, numa comissão parlamentar de inquérito.

A premissa é simples e por isso mesmo terrível: há provas de vida extraterrestre, há quem as queira revelar e há quem as queira enterrar debaixo de camadas de segurança nacional, interesses privados, tecnologia militar e paternalismo institucional. Josh O’Connor é o denunciante, essa figura tão contemporânea como desconfortável: o homem que sabe demais e percebe tarde demais que a verdade não é uma luz pura, mas um explosivo com wi-fi. Emily Blunt interpreta uma meteorologista de televisão, e a escolha é quase cruel de tão perfeita: uma mulher habituada a explicar nuvens, vento e aguaceiros vê-se subitamente diante de um céu que deixou de ser previsão para passar a ser revelação. Blunt é o centro emocional do filme, e Spielberg sabe filmá-la como poucos: não como heroína de ficção científica musculada, mas como alguém atravessado por uma coisa demasiado grande para caber no corpo.

Colin Firth, por sua vez, surge como a elegância gelada do controlo. Não precisa de gritar. Basta falar com aquela compostura britânica que transforma censura em prudência e medo em responsabilidade institucional. É aqui que «O Dia da Revelação» se torna mais interessante: os extraterrestres assustam menos do que os humanos encarregados de decidir o que podemos saber sobre eles. Colman Domingo traz a urgência moral, quase profética, de quem percebe que esconder a verdade também é uma forma de violência. E, no meio disto tudo, Spielberg faz aquilo que ainda sabe fazer melhor do que quase todos: transforma uma ideia gigantesca numa experiência humana, física, emocional.

O filme é magnífico porque percebe que a grande questão já não é saber se os alienígenas existem. Isso, hoje, quase parece modesto. A questão é perceber como reagiria uma civilização que não consegue gerir uma greve, uma pandemia, uma eleição ou uma caixa de comentários sem entrar em combustão espontânea. No primeiro dia da revelação, alguém fundaria uma igreja alienígena, outro venderia retiros de respiração pleiadiana no deserto de Mojave, outro juraria que tudo não passa de uma manobra da esquerda globalista para acabar com os lugares de estacionamento. Spielberg sabe isto. Ri-se disso. Mas, ao contrário de tantos cineastas contemporâneos, não se rende ao cinismo.

«O Dia da Revelação» é, por isso, um grande filme do momento: fala de ovnis, mas fala sobretudo de confiança, segredo, manipulação, fé, tecnologia, poder e da nossa incapacidade quase infantil de aceitar que talvez não sejamos o centro da sala. É uma mistura improvável e fascinante entre os Génesis do Antigo Testamento, «Cosmos», thriller político dos anos 70 e espectáculo popular em estado puro. Tecnicamente, é Spielberg em grande forma: a escala não esmaga as personagens, a emoção não é empurrada à força e o assombro ainda nasce de uma luz, de um rosto, de uma pausa, de uma nota musical.

No fundo, «O Dia da Revelação» não nos diz apenas que a verdade está lá fora. Diz-nos que, quando ela chegar, não virá limpa, ordeira e com legendas simpáticas. Virá tremida, disputada, monetizada e imediatamente sequestrada pelo departamento de comunicação ou segurança. Ainda assim, Spielberg insiste em olhar para cima. E obriga-nos a fazer o mesmo. Num mundo tão pequeno, tão vaidoso e tão barulhento, isso talvez já seja uma forma de milagre.

Título Original: Disclosure Day
Realização: Steven Spielberg
Com: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Eve Hewson, Wyatt Russell
Origem: EUA
Duração: 145 minutos
Ano: 2026


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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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