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13 Dias, 13 Noites – Roschdy Zem

Cabul, 15 de agosto de 2021. As tropas americanas preparam-se para retirar do Afeganistão, enquanto os talibãs marcham sobre a capital para tomar o poder. Responsável pela segurança da embaixada francesa, a última missão diplomática ocidental a permanecer no país, Mohamed Bida tem de garantir a chegada ao aeroporto de algumas centenas de pessoas, para fugir do inferno de Cabul.

Mohamed Bida escreveu um livro sobre esta sua experiência, agora transposta para cinema, em «13 Dias, 13 Noites». No filme, é interpretado por Roschdy Zem, um imenso ator, capaz de interpretar filmes de grande espetáculo e dramas mais íntimos. Ambos se cruzam neste título e este “bom gigante” do cinema francês abre o seu coração à METROPOLIS.

Este filme corresponde aos seus sonhos enquanto ator?

Roschdy Zem: Na verdade, os meus sonhos enquanto ator, não saberia defini-los. Disponibilizo-me e gosto de me deixar surpreender. Este filme e o papel que me propuseram surpreenderam-me. E é isso a que hoje aspiro, com o percurso e o passado que tenho. Coloco-me à disposição dos realizadores, porque muitas vezes as propostas são mais interessantes do que os meus próprios sonhos.

Falando de sonhos, ser ator sempre foi o que quis ser?

Roschdy Zem: O meu grande sonho quando era mais novo não era dominar o mundo, era ter uma loja de roupa. Sempre fui bastante modesto nas minhas ambições. E, no fim de contas, a oferta foi mais generosa do que aquilo que eu imaginava.

O Roschdy é um actor com uma enorme presença física, mas que dá sempre uma enorme humanidade às suas personagens. Num filme como este, o que fez para manter essa humanidade?

Roschdy Zem: Ela já existia no argumento. O verdadeiro Mohamed Bida, quando o conheci, já tinha muito isso nele: muita humildade. E trazia sempre esta aventura para uma escala humana. E já não é um jovem. Como é mostrado no filme, estava a quinze dias da reforma. Acrescentámos os tremores nas mãos, as dúvidas, os medos, o isolamento. Para torná-lo mais frágil, mais vulnerável. E pareceu-nos que isso o tornava ainda mais humano. O ato em si é muito heroico, mas era importante essa dimensão humana.

Há um momento no filme em que se percebe que a sua personagem se entregou totalmente ao trabalho, em detrimento da vida privada. Alguma vez sentiu que deixava uma parte da sua vida pessoal para trás?

Roschdy Zem: Nem sequer me faço essa pergunta, porque é uma evidência absoluta. Eu tinha um acordo tácito com a mãe dos meus filhos e com os meus filhos. Dei prioridade ao meu trabalho. Mas penso que isso acabou por beneficiar toda a gente. Porque também é uma responsabilidade pesada para a família ver-nos abdicar de algo que nos faz profundamente felizes. Mas isso não acontece sem consequências. Isola-nos. E isso é algo muito difícil de partilhar com alguém.  E acabamos sozinhos com a nossa ambição.

Arrepende-se de alguma decisão que tomou?

Roschdy Zem: Sentir arrependimento é legítimo. Temos sempre a sensação de ter falhado alguma coisa. Mas não tenho arrependimento. E penso que o homem que eu interpreto,  se pudesse voltar atrás, faria exatamente a mesma coisa.

Com tantas guerras à nossa volta, parece que nos esquecemos um pouco do Afeganistão. Fazer um filme sobre esta situação parece-lhe importante?

Roschdy Zem: Claro que sim. Quando vemos aquelas imagens temos a impressão de estar a ver imagens de outra época. Mas a evacuação da embaixada aconteceu em 2021, é muito recente. Quando filmámos, a atualidade no Afeganistão era aterradora. Para as mulheres, para os artistas, para todos os que procuram liberdade. O filme também ecoa essa realidade. A situação atual é ainda mais catastrófica. Conseguimos evacuar uma centena de pessoas daquele país, mas ficaram milhões para trás.

O Mohamed Bida nasceu na Argélia francesa e viu-se no Afeganistão a salvar cidadãos franceses. Nunca questionou a sua legitimidade para interpretar esta figura?

Roschdy Zem: Sinceramente não. Eu trabalhei em todo o mundo, nos Estados Unidos, na Coreia. E, talvez pelo meu trabalho, sinto-me em casa em qualquer lugar. Nunca senti essa sensação de não ser aceite. Há uma espécie de analogia com a minha personagem, no sentido de criar a sua própria casa através da cultura do país onde vive. Não tenho qualquer problema com isso. É algo muito natural para mim. Mas sinto-me um privilegiado.

Em que sentido?

Roschdy Zem: Para ser sincero, acho que o meu trabalho ajuda muito. Fui aceite em todo o lado, mas enquanto ator. Não é exatamente a mesma coisa. Hoje fala-se muito de xenofobia, dos Emigrantes, e é um verdadeiro caos. Por isso, quando digo que me sinto em casa em qualquer lugar, também é porque tenho o estatuto de alguém privilegiado. Ser ator é um verdadeiro privilégio. As pessoas até se esquecem de que sou de origem africana.

Em que momento percebeu isso?

Roschdy Zem: Passei de uma adolescência em que era frequentemente controlado pela polícia para interpretar polícias e, agora, tenho uma verdadeira cumplicidade com eles. Hoje, quando encontro polícias em Paris, eles cumprimentam-me. Percebe a diferença? Isso faz-me perceber, que a minha profissão me dá um estatuto. Comecei a percebê-lo nas propostas que me faziam e, sobretudo, nos atores com quem disputava os mesmos papéis.

Pode falar um pouco do trabalho que fez com o verdadeiro herói da história?

Roschdy Zem: Na verdade, trabalhei muito pouco com ele. Quando li o argumento, aliás, primeiro li o livro, porque precisavam do meu acordo antes de escreverem o guião, compreendi a e o que eu lhe poderia trazer, compreendi as suas motivações. Há papéis que preparo mais, mas aqui quis trabalhar de forma instintiva, porque sentia que já estava ligado a esta pessoa.

Qual a reação dele ao ver o filme?

Roschdy Zem: Vimos o filme juntos. Não falámos muito. Ele chorou, eu chorei. Mais tarde, e isso até contradiz um pouco o que acabei de dizer, disse-me que não se apercebera de que eu o tinha observado tão bem. E a verdade é que eu não o tinha feito. Construí algo na minha imaginação, a partir daquilo que compreendi. Portanto, houve muita consciência, muito instinto, mas não uma verdadeira pesquisa psicológica.

Também já se estreou na realização. Tem planos para outro filme?

Roschdy Zem: Tinha um projeto, mas cancelei-o. Porque escrever um argumento demora muito tempo. Demorei três anos a escrever um guião. E, quando terminei, li-o e já não me interessava. Há três anos, o tema fascinava-me. Mas a pessoa que somos em 2022 não é a mesma que somos em 2025. Tento encontrar outra coisa, mas sem pressas. Mas sou um homem muito afortunado, e consigo expressar-me enquanto ator. Portanto, posso esperar. Ainda tenho muito para dizer sobre a minha família, mas vou deixá-lo arrefecer por agora.

O Roschdy alterna filmes muito íntimos com grandes produções. É uma escolha deliberada?

Roschdy Zem: Não o faço de propósito. Mas tenho agora 60 anos e a questão que se coloca nesta idade é o que posso fazer para continuar a alimentar a chama. Depois houve também o confinamento, que me permitiu refletir sobre a direção que queria dar à minha carreira. E os filmes que tenho feito desde então refletem os desejos que tinha nessa altura.

Chegou a uma fase da carreira onde também deve recusar muitas propostas.

Roschdy Zem: Uma carreira constrói-se através das recusas. Portanto, claro que recuso muitos projetos. Recusamos mais do que aceitamos. E, sobretudo, os bons guiões são raros. Se receber um ou dois bons argumentos por ano, já me posso considerar um ator feliz. Hoje tenho vontade de interpretar personagens que não tive oportunidade de fazer mais novo. Personagens imperfeitas, instáveis. É isso que me interessa agora. E também me interessa perceber que imagem do ser humano se transmite hoje através dos papéis.

Sente que o cinema mudou desde que começou a sua carreira?

Roschdy Zem: Vê-se claramente que há uma mudança de paradigma. Dá-se mais espaço às mulheres nos filmes. Isso é algo que estou a descobrir. Quando comecei, a mulher estava em segundo plano, servia apenas de apoio à personagem masculina. Hoje é parte integrante da narrativa. Leio muitos guiões em que, na verdade, sou eu quem se torna o apoio. Tenho hoje um novo olhar sobre o cinema e procuro algo mais sensível. É isso que me interessa.

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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