Ao criar uma mostra paralela não competitiva na sua programação para dar voz e vez às comédias, o BAFICI, maior festival de Buenos Aires, jogou os holofotes do planisfério cinéfilo sobre «O Rei da Internet». A sua curadoria buscou expressões de bom humor que tivessem conexões com outras vertentes narrativas e acabou saindo com um thriller eletrizante que, sim, faz rir… e um bocado… mas deixa os espectadores a roer as unhas e a fincar os pés no chão. A direção é de Fabrício Bittar, o responsável por «Como se Tornar o Pior Aluno da Escola» (2017) e «Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro» (2018), duas delícias do riso livre.
Fabrício Bittar segue uma estética de matiné, aquela do slogan “e essa turminha muito louca vai ser meter em altas confusões”, só que na linha mais inteligente desse princípio estético: ou seja, ser pop é a sua vocação. Um pop varejão, mas embalado a vácuo, crocante, fresquinho porque vende mais. Um pop que conversa com a tradição (e sabe respeitá-la) ao mesmo tempo que ousa inflamar feridas abertas, preferindo o Merthiolate (que arde, mas cura) ao Povidone. A opção por um debate sobre o binômio invisibilidade + impunidade atesta o seu balancear com a provocação.
Ele provoca ao transformar em anti-herói a figura real de Daniel Lofrano Nascimento, mais conhecido como Daniel Nascimento, que nasceu em 1988 em Bauru, em São Paulo. O ex-hacker, transformou-se um dos mais famosos consultores de segurança digital do Brasil. Os seus feitos ilícitos foram transformados na argamassa do livro “DNpontocom”, dele e de Sandra Rossi. Parte das páginas dessa publicação perfumam o argumento de «O Rei da Internet», assinado por Bittar e Vinícius Perez. Esse aroma literário não gera subserviência alguma à palavra. Trata-se de cinemática pura, com evocações a videojogos e a incorporações de imagens de época e registos de TV.
É um biscoito fino para um filão que agoniza. Um artesão da seara cómica, Roberto Santucci volta este ano com «Os Farofeiros 3» e «Picaretas Não Vão Pro Céu» e pode brilhar com os dois. A partir de 3 setembro, o Brasil pode novamente encher de ar os pulmões da comédia com «Minha Melhor Amiga», juntando o cunho de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli. Rodado no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Sevilha, a longa de Susana Garcia é inspirada nas experiências da dupla com as filhas adolescentes, Julia e Clara, que inclusive dão nome às protagonistas. Amigas de longa data, Ingrid e Mônica conquistaram a internet ao compartilhar situações hilariantes e complicadas que passaram durante as férias com as garotas na Europa e a química foi tão boa que elas não pararam mais de viajar juntas.
No filme, as tais melhores amigas Julia (Mônica) e Clara (Ingrid) estão numa fase difícil, no auge dos 50 anos. Julia é uma jornalista divorciada que não acredita mais no amor e não se sente valorizada profissionalmente. Já Clara vive um casamento em crise e uma rotina frustrante em casa cuidando do marido, da sogra e do enteado. E sofre no seu trabalho como corretora imobiliária. As suas filhas, Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral), de 16 anos, vão fazer um intercâmbio em Portugal e, pela primeira vez, morar longe das mães. Elas então decidem colocar um ponto final de uma vida sem graça e embarcam juntas para Portugal. Em solo europeu, nem tudo sai como planeado… para o nosso bem, dando a chance ao público de sorrir com essas estrelas.



