Thierry Frémaux e este vosso escriba, salvo as devidas, enormes e astronómicas diferenças, têm algumas coisas em comum. Ambos nasceram em 1960. Um a 5 de Janeiro, o outro a 29 de Maio. Há, portanto, uns meses de vantagem cronológica para o lado português, vantagem mínima, mas preciosa, que desde Janeiro passado, somada a 43 anos de trabalho, garantiu a reforma vitalícia — ou melhor, a pensão de velhice, como lhe chamam esses poetas sombrios da Segurança Social. Velhice o tanas. Não se deixa de trabalhar quando grande parte da vida foi feita a fazer aquilo de que se gosta, mesmo que isso tenha custado bastante ao bolso. O mesmo disse ontem Thierry Frémaux no Rendez-Vous: “A aposentadoria, a aposentadoria. Não, não diga isso. Ainda bem que eu a tenho. Enfim, pronto, a próxima será para o meu aniversário de 80 anos.”

Mas, voltando ao essencial: quando se compara um antigo director da edição portuguesa da PREMIERE com o delegado geral do Festival de Cannes, qualquer mês conta. É uma espécie de Palma de Ouro cronológica.
Temos 66 anos. Idade perigosa: já não se é suficientemente novo para acreditar em tudo aquilo que os festivais de cinema prometem, mas ainda se é parvo o bastante para fazer malas, apanhar aviões ou, como no meu caso, conduzir quilómetros de carro, como fiz este ano — bem sei que aproveitei o passeio —, perder refeições, discutir filmes, ter de acordar muito cedo e esperar pela abertura do sistema de reserva de bilhetes, para não perder a vez e achar que aquela sessão das oito e meia ou das dez e meia da manhã talvez nos mude a vida. Foi assim que muita gente entrou nas drogas duras, certamente a horas mais decentes. Alguns entraram pelo cinema.
A segunda coincidência é mais física: ambos praticaram judo desde jovens. Frémaux, tanto quanto se sabe, continua ligado ao tatami. Do lado de cá, o corpo foi tratando de expulsar o praticante com a delicadeza de um crítico de cinema implacável: joelhos, ombros, costas, coluna, clavícula fora do sítio. O judo ficou para trás, mas deixou o essencial: o instinto da queda.

E isso, no cinema e na vida, vale ouro. O judo ensina que cair não é necessariamente perder. Cair bem é meio combate ganho. A vida pode ser um festival, e Cannes é também uma arte da queda. Há filmes que entram favoritos e saem de maca. Há realizadores que chegam como génios e partem como suspeitos. Há jornalistas que entram numa sessão cheios de fé e saem com ar de quem assistiu à autópsia da própria esperança. Há críticos que escrevem “obra-prima” às duas da manhã e se arrependem ao pequeno-almoço.
Frémaux sabe isto melhor do que ninguém. Seleccionar filmes para Cannes não é apenas escolher. É lançar corpos para o tatami mundial da cinefilia e esperar que sobrevivam ao impacto. Ele próprio já disse que seleccionar não é perguntar “gosto?” ou “não gosto?”, mas sim: “Devemos mostrar este filme?” É uma frase de judoca. O gosto pessoal é só uma pega no quimono. A verdadeira luta é perceber se o filme merece ser atirado para o centro da arena, diante de críticos, compradores, distribuidores, estrelas, egos, jornalistas esfomeados e comentadores que ainda nem viram o filme, mas já têm opinião.
Em escala muito mais modesta, também se conheceu essa angústia. Não se seleccionava para Cannes, é certo. Não se decidiam Palmes d’Or, nem se telefonava — ou recebia telefonemas — de Almodóvar, Kore-eda ou Farhadi, infelizmente, diga-se. Mas, durante quase uma década, ao dirigir a edição portuguesa da PREMIERE, também houve escolhas a fazer: que filme ia para a capa, que entrevista merecia destaque, que crítica abria a revista, que jovem realizador português se tentava puxar para a luz, que blockbuster ajudava a vender a revista sem vender a alma inteira.

Frémaux perguntava: “Devemos mostrar este filme?” Na PREMIERE, a pergunta era outra: “Devemos pôr isto na revista, mesmo sabendo que talvez não venda nada, mas que, se não pusermos, somos nós que traímos o cinema?” A escala é diferente. O drama, curiosamente, é parecido. Só muda a dimensão do desastre.
Depois há o futebol. Frémaux ama o Olympique de Lyon. Do lado de cá, ama-se o Benfica. Aqui entramos em terreno religioso e, no dia em que vos escrevo, bastante depressivo: ai o Braga, ai o Braga. O cinema ainda permite alguma civilização: planos, montagem, representação, contexto histórico. No futebol, ao fim de três minutos, já estamos a discutir a mãe do árbitro. Mas o adepto e o cinéfilo de festival são criaturas parecidas. Ambos chegam cheios de expectativas. Ambos sabem que vão sofrer. Ambos culpam terceiros: o árbitro, o júri, o programador, o VAR, o crítico americano da Variety, o defesa esquerdo, Thierry Frémaux. Ambos dizem “nunca mais”. E ambos voltam.
Há também Bruce Springsteen. Frémaux adora-o. Por aqui, gosta-se sobretudo daquilo que ele representa: uma América trabalhadora, nocturna, ferida, decente, cheia de estradas, fábricas, motéis, promessas partidas, guitarras e gente que ainda acredita que cantar pode salvar qualquer coisa antes da próxima prestação da casa — ou antes de ficar sem ela, a casa, obviamente. Springsteen é uma espécie de cinema cantado. Cada canção tem personagens, conflito, paisagem, derrota, desejo e estrada. Não admira que Frémaux sonhe vê-lo um dia na abertura de Cannes. Seria magnífico: Bruce no palco, a Croisette emocionada, os produtores a fingirem que conhecem todas as letras e os críticos a baterem palmas com ar de quem sempre preferiu Nebraska (2013), o filme de Alexander Payne, ao álbum de Springsteen.
Há ainda uma coincidência temporal deliciosa. A primeira Cannes deste cronista foi em 2000, ano em que a Palma de Ouro foi para Dancer in the Dark, de Lars von Trier. Começar Cannes com Von Trier é quase como começar a aprender natação durante um naufrágio. Havia Björk, melodrama, musical, martírio, lágrimas e aquela suspeita muito cannoise: estaremos comovidos ou manipulados por um dinamarquês com demasiado talento e poucos escrúpulos?
Frémaux foi nomeado delegado geral em 2001, embora já fizesse parte da equipa de selecção e fosse braço-direito do mestre Gilles Jacob. Foi o ano de O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, uma Palma magnífica sobre o luto, a família e o vazio. Frémaux recorda que, depois de o verem na comissão de selecção, tiveram de fazer uma pausa antes do filme seguinte. Bonito: ainda há filmes que obrigam as instituições a parar e a verter uma lágrima que seja.
Nesse mesmo ano, Cannes trouxe outro tipo de perda da inocência: o junket de Moulin Rouge, com Nicole Kidman. Há momentos em que um jornalista percebe que as estrelas existem, mas não exactamente como imaginava. Existem em salas com ar condicionado agressivo, assessores, horários militares, gravadores, jornalistas britânicos armados em proprietários do Império e a timidez nacional a fazer sapateado no estômago. Moulin Rouge abriu Cannes como uma granada de purpurinas e ficou material para contar durante 25 anos, o que, no jornalismo cultural, já é uma forma de reforma complementar.

Frémaux continua a dirigir o Instituto Lumière, em Lyon, com a consciência de que o cinema também é património, memória e transmissão. Cannes dá-lhe o presente, a urgência, o escândalo. O Instituto Lumière dá-lhe a origem, os irmãos Lumière, a sala escura como casa ancestral. Do outro lado desta comparação impossível, houve a direcção da edição portuguesa da PREMIERE, revista comprada desde os 17 ou 18 anos, em parte pelos postais dos cartazes, em parte para aperfeiçoar o francês, em parte porque a cinefilia adolescente é uma forma nobre de solidão.
A PREMIERE marcou uma geração. Tinha glamour, informação, entrevistas, fotografias, estrelas, realizadores, cinema popular e cinema de autor na mesma mesa. Fazia aquilo que hoje está em vias de extinção: tratava o cinema como prazer e cultura ao mesmo tempo. Dirigi-la durante quase uma década foi como ter uma quarta filha, havendo já três filhas reais, convém esclarecer antes que alguém faça contas genealógicas. A outra era uma filha de papel, tinta, deadlines, capas, cortes, entusiasmos, noites de fecho e a esperança absurda de que uma revista de cinema em Portugal pudesse sobreviver como se Portugal fosse um país normal.

O seu fecho foi um desgosto enorme. Ainda se conseguiu reabri-la noutra editora por algum tempo, mas também voltou a fechar. A cinefilia em Portugal tem muito de judo: ensina-nos a cair, mas às vezes o tatami é cimento.
Naturalmente, há diferenças. Thierry Frémaux manda em Cannes. Por aqui, muitas vezes nem se manda no tamanho final dos textos, que começam com dez mil caracteres e acabam a lutar contra uma página onde só cabem 3800. Ele recebe filmes de 141 países. Deste lado, recebem-se mensagens a perguntar se ainda dá para cortar mais 500 caracteres sem estragar o ritmo. Ele decide que filmes sobem à maior montra cinematográfica do mundo. Por aqui, decide-se se uma piada sobre o Benfica fica no terceiro parágrafo ou se já é abuso.
Mas talvez haja uma afinidade. Ambos pertencem a uma geração que aprendeu cinema antes da internet, antes do streaming, antes dos influenciadores, antes da ideia pavorosa de que tudo é “conteúdo”. Aprendeu-se com revistas, salas, cartazes, cinematecas, filas, catálogos, artigos de jornal, fotografias recortadas e filmes que demoravam anos a chegar. Aprendeu-se a desejar o cinema antes de o ter disponível no comando do televisor lá de casa ou no dispositivo móvel. E isso muda tudo. Quem teve de esperar por um filme ama-o de outra maneira.
Frémaux fala do cinema como instrumento de diálogo, abertura e paz. Pode soar a retórica institucional, mas Cannes nasceu no pós-guerra e ainda guarda essa ambição: juntar países, línguas, feridas, vaidades e cinematografias numa casa temporária. Depois vieram os iates, as marcas de luxo, os porteiros irritados, as filas desumanas, os restaurantes a preços de cirurgia estética e um sistema de bilhetes capaz de provocar crises de fé. Mas Cannes continua a importar porque ali o cinema ainda é discutido como se fosse vital. E isso, hoje, é quase obsceno, num mundo em conflito em várias frentes.
Também por isso interessam as suas reservas sobre a inteligência artificial. A IA pode ser ferramenta, mas também ameaça: pode ajudar, mas também roubar rostos, vozes, gestos, trabalho, memória e autoria. O problema nunca é a ferramenta. É o patrão da ferramenta. Nas mãos de artistas, pode ser linguagem; nas mãos de gestores sem alma, pode ser despedimento com interface simpático.
Aos 66 anos, talvez seja isto que estes dois homens têm em comum: continuam. Um em Cannes e no Instituto Lumière. O outro a escrever, ver, irritar-se, entusiasmar-se, atravessar festivais, perder a paciência e recuperar a fé. Frémaux continua a acreditar que produtores e realizadores são heróis. Convém acrescentar que críticos, editores, jornalistas culturais e directores de revistas falhadas também mereciam, pelo menos, uma menção honrosa no genérico da resistência.
No fim, talvez sejam apenas dois homens nascidos em 1960, formados por quedas, filmes, clubes, revistas, festivais, derrotas e entusiasmos. Um com a chave do maior festival de cinema do mundo. O outro com a memória de uma revista que foi quarta filha, de uma primeira Cannes em 2000, de Dancer in the Dark, de Moulin Rouge, de Nicole Kidman, de Nanni Moretti e de muitas noites a escrever contra o fecho da edição e contra o fecho do mundo.
A diferença é enorme, claro. Ele selecciona para Cannes. Do outro lado, tenta-se seleccionar as palavras certas. Mas, em ambos os casos, há sempre um momento em que se entra no tatami, se agarra o adversário pelo quimono e se percebe que já não há volta a dar. O combate começou. O cinema, esse velho mestre, volta a atirar-nos ao chão. E nós, idiotas felizes, levantamo-nos outra vez. Até ao ano de 2027, mesmo que o corpo me doa.



