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A crítica ainda influencia alguém?

Sara Quelhas, Crítica de Cinema e Televisão

Durante muito tempo, a crítica de cinema e televisão ocupou um lugar quase institucional. Lia-se o jornal de sexta-feira para perceber se valia a pena ir ao cinema no fim de semana, esperava-se pela opinião de um crítico reconhecido antes de decidir ver um filme mais arriscado, e uma boa ou má recensão podia influenciar seriamente a vida comercial de uma obra. Hoje, esse cenário mudou. A pergunta impõe-se: a crítica ainda influencia alguém?

A resposta mais fácil seria dizer que não. Vivemos numa era em que a decisão de ver uma série ou um filme raramente nasce de uma crítica formal. Surge de um vídeo curto no TikTok, de uma publicação viral nas redes sociais, de uma classificação rápida numa plataforma (como IMDb ou Letterboxd) ou, muitas vezes, da simples insistência do algoritmo que coloca sempre o mesmo título diante do utilizador. O espectador já não procura necessariamente análise, mas rapidez. Quer saber, de forma quase imediata, se vale ou não a pena investir duas horas do seu tempo.

Nesse contexto, a crítica profissional parece ter perdido terreno. Já não é a maior porta de entrada para o cinema ou para a televisão. O crítico deixou de ser o mediador principal entre a obra e o público, e isso alterou profundamente a sua autoridade. Hoje, qualquer pessoa com um telemóvel e capacidade de síntese pode influenciar mais escolhas do que uma página inteira de um jornal de referência.

Parte dessa perda de influência também resulta de uma certa distância que alguma crítica foi construindo ao longo do tempo. Em alguns casos, criou-se a ideia de que o crítico ocupava um lugar de superioridade, como se a sua função fosse julgar o gosto do público e não dialogar com ele. Quando a crítica se fecha sobre si mesma, demasiado preocupada em afirmar autoridade ou em falar apenas para um círculo restrito, arrisca-se a perder relevância e proximidade.

Muitos espectadores deixaram de procurar esse olhar porque sentiam que ele não os incluía. A linguagem excessivamente hermética, a desvalorização de géneros populares e uma certa tendência para tratar o entretenimento como algo menor contribuíram para essa perceção. Nem sempre era uma questão de conhecimento, mas de proximidade. O problema não estava em exigir mais ao cinema, mas em fazer o público sentir que o seu próprio gosto era constantemente colocado em causa.

Hoje, quem comenta filmes e séries nas redes sociais conquista muitas vezes atenção precisamente pelo contrário: fala de forma direta, acessível e sem a necessidade de transformar cada opinião numa demonstração de autoridade. O público reconhece-se mais facilmente nesse discurso porque ele parte da experiência de ver, e não apenas da necessidade de validar um conhecimento técnico. Isso não significa que toda a crítica informal seja melhor ou mais rigorosa, mas revela uma mudança importante na relação entre quem analisa e quem procura essa análise.

Ao mesmo tempo, essa democratização da opinião trouxe um paradoxo interessante. Nunca se falou tanto sobre cinema e televisão, mas nem sempre isso significa que se pense mais sobre eles. A rapidez das redes sociais favorece a reação imediata, o comentário instantâneo e a necessidade de opinião rápida. Muitas vezes, discute-se primeiro se uma série “vale a pena” e só depois aquilo que ela realmente procura dizer.

É precisamente aí que a crítica profissional continua a ter um papel importante. O seu valor não está apenas em recomendar ou desencorajar, mas em contextualizar, interpretar e aprofundar.

Talvez a crítica já não tenha o poder de decidir sozinha o sucesso de um filme ou de uma série, como acontecia noutras décadas. Mas continua necessária porque oferece aquilo que o algoritmo não consegue: olhar, contexto e pensamento. Num tempo em que tudo parece pedir velocidade, talvez a verdadeira influência esteja precisamente em quem ainda consegue obrigar o espectador a parar e pensar.

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