Uma criança ao telefone, 355 tiros num carro o que nenhum prémio de festival ou da indústria consegue calar: como é que se filma o horror sem o banalizar? Estreia hoje nas salas de cinema.
A Voz de Hind Rajab, da realizadora tunisiana Kaouther Ben Hania, não é um filme fácil de assistir, até porque é baseado em factos verídicos e numa situação da guerra em Gaza, cujo desfecho muita gente já conhece, infelizmente. Mas não é sequer um filme “sobre” a guerra. É um filme sobre uma chamada telefónica. E essa chamada, feita a 29 de janeiro de 2024, é suficiente para destruir qualquer discurso diplomático, qualquer nota de imprensa, qualquer justificação estratégica, qualquer comentário que devia envergonhar líderes mundiais ou responsáveis de organizações internacionais.
Do outro lado da linha estava uma menina palestiniana: Hind Rajab. Cinco, seis anos, quando se morre assim, a idade torna-se um detalhe cruel e carregado de significado. Presa num carro alvejado 355 vezes pelo exército israelita. Dentro do veículo estavam os tios e quatro primos, já mortos. E ela, escondida debaixo do banco. Ainda viva. Por enquanto. O que o filme faz — e aqui está a sua inteligência devastadora — é retirar-nos a imagem e deixar-nos apenas a voz. Não há reconstituição gráfica da criança ensanguentada ou do bombardeamento. Não há planos manipuladores. Há som. Há respiração. Há tiros ao fundo. E há uma frase que se repete como um refrão impossível de esquecer: “Vem-me buscar.”

Cinema sem imagem, dor sem metáfora: Ben Hania [foto], que já nos tinha mostrado em O Homem que Vendeu a Sua Pele e Quatro Filhas que sabe cruzar política e intimidade sem cair na caricatura, opta aqui por um dispositivo minimalista e eticamente arriscado: dramatiza os acontecimentos reais utilizando gravações autênticas da tentativa de resgate. O que ouvimos é verdadeiro. O que sentimos também e é muito duro. A história é simples e, ao mesmo tempo, impronunciável. Um operador do Crescente Vermelho ( a Cruz Vermelha do Oriente) recebe uma chamada. Depois a ligação cai. Quando volta a tocar, é Hind quem atende. Sozinha. Assustada. Consciente de que os familiares estão mortos. E consciente também de que os tanques se aproximam.
Enquanto os voluntários se revezam para manter a criança na linha, inicia-se uma coreografia burocrática absurda: negociações com o exército israelita, contactos com a Cruz Vermelha na Suíça, pedidos de autorização para que uma ambulância não seja também transformada em alvo. O socorro, em zona de conflito, precisa de permissão para existir. A certa altura, quando as palavras já não chegam, a voluntária Rana Faqih começa a recitar versos do Alcorão. Hind repete. A oração torna-se fio de sobrevivência. “Você recita muito bem”, diz a menina. É talvez o momento mais cruelmente belo do filme: fé como último abrigo num carro crivado de balas. Não vemos Hind. Mas, pior ainda, ouvimo-la ganhar consciência da própria morte. Três horas de terror. Depois, silêncio.

Veneza, Óscares e o peso da palavra “genocídio”: O filme venceu o Leão de Prata – Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza, recebeu uma das mais longas ovações da história do festival e está nomeado para Melhor Filme Internacional na 98.ª edição dos Óscares, além da nomeação aos BAFTA. Tudo isso é importante. Mas acaba sendo secundário. Porque há uma pergunta que atravessa a sala escura: como é que ainda precisamos de filmes para acreditar no que já está documentado diariamente nas redes sociais, nos jornais e nas televisões? A palavra genocídio é pesada. Traz consigo tribunais internacionais, debates académicos, polémicas políticas. O filme não faz tratados jurídicos. Faz algo mais simples e mais devastador: coloca-nos ao telefone com uma criança que diz: “Estou com medo. Vou morrer.” Não há estatística que resista a essa frase. Vivemos numa era saturada de imagens. Gaza chega-nos em vídeos fragmentados, em timelines apressadas, em notificações que competem com receitas e memes. O que Ben Hania percebe é que o excesso de imagem anestesia. Por isso retira-a. Obriga-nos a ouvir. A imaginação faz o resto e é sempre pior.

O cinema como testemunho, não como espectáculo: Há quem diga que o cinema político deve ser equilibrado. Que deve mostrar “os dois lados”. Mas que lado existe numa chamada de emergência feita por uma criança? Que contraditório se coloca a uma voz infantil que pede para ser salva? A Voz de Hind Rajab não é propaganda. É testemunho. É reconstrução ética de um acontecimento documentado. E é também uma reflexão sobre o próprio acto de filmar o sofrimento. Ao recusar mostrar o corpo da vítima, o filme protege-a da exploração visual. Não transforma Hind em ícone fotogénico da tragédia. Mantém-na humana. Vulnerável. Real. A brutalidade contrasta com a inocência. E essa fricção é insuportável. Talvez por isso o filme seja um dos mais importantes do ano. Não pela forma — que é austera e rigorosa — mas pelo impacto moral. No fim, saímos da sala com uma sensação rara: não fomos entretidos, fomos convocados. Convocados a pensar na responsabilidade colectiva perante crianças que crescem (ou morrem) em zonas de conflito. Convocados a decidir se continuamos a consumir guerra como conteúdo ou se finalmente a tratamos como urgência. O cinema não salva vidas. Mas pode impedir que certas vidas sejam esquecidas. Hind Rajab já não responde ao telefone. Mas a sua voz continua a ecoar na sala escura e na nossa cabeça. E talvez esse eco seja a única coisa que ainda nos resta.
Foto da realizadora: ©Mathilde Marc

