Há qualquer coisa de deliciosamente irónico em “Project Hail Mary”: um filme sobre o possível fim da humanidade que, no meio do pânico cósmico, consegue parecer mais racional do que metade dos debates televisivos actuais. Num tempo em que tudo é transformado em negócio — até o Apocalipse já deve ter pitch deck e investidores — surge um blockbuster a propor uma ideia quase obscena de tão fora de moda: talvez nos salvemos se colaborarmos. Leram bem. Colaborarmos. Em 2026, isto já soa mais a ficção científica do que o próprio extraterrestre.
O filme foi realizado por Phil Lord e Christopher Miller, com argumento de Drew Goddard a partir do romance de Andy Weir, e protagonizado por Ryan Gosling. Ele não inventa a roda: o Sol está a morrer, a humanidade entra em pânico e alguém tem de ir resolver o problema. O que muda é o “alguém”. Não é um herói musculado com bandeira nas costas. É um cientista com dúvidas, medo e um talento raro no cinema contemporâneo: pensar antes de fazer explodir coisas.
Durante décadas, o cinema do fim do mundo habituou-nos a uma fórmula confortável: caos, incompetência global, um americano determinado e, no fim, uma explosão redentora. Funcionava. Dava espectáculo. E alimentava uma fantasia infantil útil: a de que alguém, algures, há-de sempre resolver isto por nós. “Project Hail Mary” faz o contrário: tira-nos essa muleta.
Aqui, salvar o mundo não é um acto individual. É um esforço colectivo, técnico, internacional, quase burocrático. E, pior ainda, exige confiança. Num planeta onde muitas vezes nem conseguimos decidir quem lava a louça, isto torna-se ficção científica, mas da mais radical.
O filme chega num momento em que o espaço deixou de ser apenas território de ciência para parecer uma extensão do mercado imobiliário. Entre foguetões privados, promessas de colonização de Marte e bilionários com complexo de messias, explorar o cosmos começa a soar como condomínio de luxo com vista para o vazio. A ciência, entretanto, tenta não ser reduzida a apresentações em PowerPoint ou TED Talks.
Mesmo programas como o Artemis da NASA mostram esse equilíbrio instável entre ambição científica e interesses industriais. Não é necessariamente mau. O problema começa quando a curiosidade precisa de justificar retorno financeiro, quando o infinito passa a precisar de patrocinadores.
É aqui que «Project Hail Mary» ganha peso. Porque insiste em lembrar-nos que a ciência não serve apenas para dominar ou lucrar. Serve para perceber. E perceber é conhecimento, que continua a ser uma actividade profundamente humana.
Depois há a velha pergunta: estamos sozinhos? Carl Sagan disse-o melhor do que ninguém: se estivermos, é um desperdício de espaço. E, olhando para a nossa performance como espécie, talvez não fosse má ideia haver concorrência. Também Steven Spielberg, esse optimista persistente do desconhecido, prepara o seu novo filme «Disclosure Day», voltando a esse fascínio antigo — o da possibilidade de não estarmos sós — que atravessa toda a sua obra, de «Encontros Imediatos do Terceiro Grau» a «E.T.».
É precisamente essa tradição que «Project Hail Mary» recupera com uma ousadia rara: retirar o extraterrestre do lugar de ameaça e colocá-lo ao nosso lado. Não como inimigo, mas como parceiro. Num tempo em que a diferença é tratada como conflito, imaginar uma cooperação mundial é quase revolucionário.
No fundo, o filme funciona como um espelho pouco confortável. Perante uma crise existencial, a única resposta sensata é colectiva. Nenhum país resolve sozinho o clima. Nenhum génio salva sozinho a humanidade. Nenhum bilionário tapa o Sol quando ele começa a falhar. E, no entanto, continuamos a agir como se fosse possível.
Talvez seja essa a maior ironia de «Project Hail Mary»: precisamos imaginar um extraterrestre para nos lembrarmos de como devíamos tratar-nos uns aos outros. O cinema não resolve nada disto, mas faz algo essencial: reorganiza a nossa imaginação moral. E quando um blockbuster nos diz que a sobrevivência depende de cooperação, conhecimento e confiança — e não de ego ou improviso heróico — talvez seja prudente ouvir. Nem que seja por precaução. Porque, se um dia alguém bater à porta vindo de muito longe, convém que a casa não esteja em chamas e que saibamos, pelo menos, trabalhar juntos para apagar o incêndio.



