Entre a elegância melancólica de “American Gigolo” e a memória íntima de um pai alfaiate, uma homenagem a Giorgio Armani como mestre do corte, da imagem e da ficção masculina.
Entre um pai alfaiate, Giorgio Armani e Richard Gere em American Gigolo, esta é a história de um tipo que sempre soube uma coisa: um bom corte também pode mudar o destino. A propósito da homenagem da 19.ª Festa do Cinema Italiano a Giorgio Armani, hoje, 19 de abril, às 16h00, no Cinema São Jorge, com a projeção de “Armani racconta Armani” e “Made in Milan”, de Martin Scorsese.
Sou filho de alfaiate. Isto explica muita coisa e complica quase tudo. Explica, por exemplo, porque é que, desde miúdo, olho para um ombro mal construído de um casaco, ou demasiado enxumaçado, como outras pessoas olham para uma tragédia grega. Explica porque é que sempre fui vaidoso com a roupa — sou-o com muita honra —, porque reparo ainda no cair de umas calças sobre uns bons sapatos antes de reparar na conversa de certas pessoas e porque continuo a acreditar, com uma fé quase religiosa, que um homem num fato bem cortado pode não resolver a vida, mas pelo menos entra melhor na sala.

Complica quase tudo porque ser filho de alfaiate é crescer com um padrão de exigência que o pronto-a-vestir raramente consegue cumprir. Há filhos de pescadores que sonham com o mar. Há filhos de padeiros que nunca mais suportam o cheiro do pão. Eu, filho de alfaiate, cresci a amar fatos e roupas como outros amam cavalos de raça, atrizes italianas ou automóveis desportivos que nunca hão de comprar.
Por isso percebo perfeitamente Giorgio Armani. Ou melhor, percebo a “ideia Armani”, que talvez seja ainda mais poderosa do que o homem em si. Armani impôs, durante décadas, uma noção de elegância que parecia simples, mas exigia uma disciplina quase militar do olhar e do gesto. E esta sessão deste domingo surge precisamente como celebração desse legado e da sua relação com o cinema.
Mas, antes de chegar ao Armani-homenagem, ao Armani-legado, ao Armani instituição italiana mais sólida do que os vários governos italianos e muito mais elegante do que todos eles juntos, tenho de passar por outro altar da minha educação sentimental: Richard Gere em American Gigolo. Porque houve um momento da história do cinema em que um homem de blazer macio, olhar enfadado e andar bamboleante ensinou a milhões de espectadores que a roupa não serve apenas para vestir o corpo. Serve para contar uma história, vender uma fantasia, esconder uma tristeza e, no melhor dos casos, inventar uma pessoa nova.

Eu, que vinha de casa de alfaiate, percebi isso imediatamente. Não por teoria. Por instinto. Havia qualquer coisa naquele filme que cheirava a tecido sério, a corte pensado, a elegância como armadura e condenação. O meu sonho, na altura, confesso-o agora com a seriedade ridícula com que se confessam as coisas importantes, era vestir um fato Armani como os de Richard Gere em American Gigolo e passear-me por uma avenida qualquer, talvez em Lisboa, talvez em Roma, talvez apenas na minha cabeça, como se fosse um plano de Paul Schrader empurrado pela música de Giorgio Moroder.
Não digo isto com ironia suficiente para me proteger. Digo-o a sério. Porque certos sonhos masculinos, sobretudo os mais estéticos, têm uma componente de patetice assumida que lhes dá alguma nobreza. Um homem que sonha ser melhor vestido do que a vida que lhe calhou também está, no fundo, a pedir um destino um bocadinho mais cinematográfico.
American Gigolo, estreado em 1980 — tinha eu então 20 anos —, foi o filme que consolidou Richard Gere como estrela e teve em Armani um dos seus grandes aliados invisíveis. Décadas depois, a influência daquele guarda-roupa continua a ser decisiva para a imagem do filme e para a entrada triunfal de Armani no imaginário de Hollywood. E aqui é preciso fazer justiça a Paul Schrader, porque há filmes que envelhecem como iogurtes deixados ao sol, mas American Gigolo envelheceu como homens bonitos de cabelo grisalho: ganhou rugas, mas conservou o seu magnetismo, aliás como a maioria dos filmes deste realizador.
Visto hoje, American Gigolo continua a ser um filme estranho, elegante, triste, húmido de solidão e perigosamente inteligente. Não é apenas a história de um escort de luxo em Los Angeles. É uma parábola sobre aparência, desejo, transação, isolamento e queda. Um noir polido, sensual e melancólico, onde tudo parece ter preço até deixar de ter salvação.
E é aqui que Armani entra não como costureiro de serviço, mas como co-autor emocional. Julian Kay não seria Julian Kay se parecesse um vendedor de automóveis em segunda mão ou um comercial cansado da Margem Sul em fim de semana de casamento ou baptizado. Precisava daquela fluidez. Precisava daquele casaco que não endurece o corpo, antes o prolonga. Precisava daquela ilusão de controlo absoluto que só os homens muito bonitos e muito bem vestidos conseguem sustentar antes de a realidade lhes partir a cara.
A cena em que ele escolhe roupa, rodeado de camisas, gravatas e casacos espalhados em cima da cama, é talvez uma das cenas mais eróticas de organização doméstica alguma vez filmadas. Ali não estamos só a ver um homem vestir-se. Estamos a vê-lo montar a sua própria ficção. E qualquer filho de alfaiate entende isso sem precisar de notas de rodapé ou críticas de cinema.
Na verdade, Armani revolucionou a silhueta masculina ao suavizar a estrutura do fato, tornando-o mais leve, mais sensual e mais narrativo. Talvez por isso eu nunca tenha sonhado vestir-me como um herói de ação, um cowboy ou um espião britânico. O meu delírio era mais específico, mais europeu e mais neurótico: queria vestir-me como Richard Gere a fazer de homem pago, sofisticado e melancólico, num filme onde o tecido parecia compreender melhor a personagem do que metade das pessoas à sua volta.

Claro que a vida, essa grande figurinista sádica, tratou de me desviar da passerelle. Nunca vesti Armani. Nunca desfilei em Beverly Hills. Nunca entrei num descapotável a ouvir Moroder como se a cidade me devesse atenção. E, para piorar a dramaturgia, deixei praticamente de usar fatos desde que perdi o meu pai. E talvez seja essa a parte menos cómica desta conversa e justamente a que explica tudo.
Porque um fato, para quem é filho de alfaiate, nunca é só roupa. É também a memória de umas mãos, de um ofício, de um olhar, de um rigor, de uma forma antiga e masculina de cuidar sem dizer. Um pai alfaiate mede com a fita, acerta, corrige, compõe, ajusta, endireita. Faz isso com o tecido e, às vezes, sem se dar conta, faz isso connosco. Quando ele desaparece, não desaparece apenas uma pessoa. Desaparece também uma certa maneira de entender a dignidade.
Talvez por isso eu tenha deixado os fatos em paz. Não por desamor. Pelo contrário: por excesso de amor. Porque, às vezes, a roupa pesa mais quando tem fantasma. E um homem, sobretudo um tipo lisboeta, português, sentimental e irónico, consegue lidar com muita coisa, mas nem sempre consegue lidar com um cabide onde ainda pende uma herança muda. Deixei de vestir fatos como quem deixa de entrar numa igreja de família: por ter perdido a fé, mas também por saber que a fé ali dói demais.
É por isso que esta homenagem a Armani me toca mais do que eu gostaria de admitir em público. Não por fetiche de marca, que isso, dito muito alto, soa sempre um bocado provinciano. Mas porque Armani representa uma ideia de elegância que eu conheci antes de saber o nome dela. Uma ideia em que o estilo não é espalhafato, mas precisão. Não é berraria, mas corte. Não é vaidade vazia, mas a tentativa de pôr ordem no caos começando pelo corpo.

E depois há Scorsese. Quando Martin Scorsese filmou Made in Milan, em 1990, não está a prestar vassalagem à moda. Está a reconhecer outro autor. O documentário acompanha Armani na preparação de um desfile e transforma o processo criativo numa narrativa sobre forma, identidade e obsessão. Sempre achei que um grande costureiro e um grande realizador têm mais em comum do que parece. Ambos trabalham com tempo, ritmo, proporção, silhueta, corte e eliminação do excesso. Ambos sabem que um centímetro a mais pode matar um efeito. Ambos percebem que o detalhe não é detalhe: é estrutura.
No fundo, o que Armani fez foi isto: ensinou o capitalismo a parecer bem-educado. Ensinou homens poderosos a parecer menos quadrados, menos de secretaria, menos embrutecidos pelo cargo. Ensinou o desejo a usar ombros leves. E ensinou Hollywood a perceber que o figurino não é só enfeite: é psicologia.
Mas isto não é apenas uma crónica de admiração masculina por fatos caros e homens bem penteados, embora também seja um bocadinho isso. É sobretudo uma pequena elegia àquilo que a roupa pode fazer por nós quando é mais do que roupa. Quando é linguagem, máscara, defesa, sedução, ficção e autobiografia ao mesmo tempo. Um fato bem cortado pode ser um currículo sem palavras. Pode ser uma mentira útil. Pode ser luto disfarçado de compostura. Pode ser, no melhor dos casos, uma maneira de honrar quem nos ensinou a olhar.
Este domingo, no Cinema São Jorge, Lisboa e a 19.ª Festa do Cinema Italiano prestam homenagem a Giorgio Armani com dois pequenos filmes que são, no fundo, duas maneiras de falar da mesma coisa: estilo como pensamento, forma como visão, roupa como linguagem. E eu, que nunca vesti Armani e já não visto fato desde que o meu pai fechou a “oficina”, sinto-me estranhamente convocado por essa sessão. Como se alguém me dissesse: ainda vais a tempo de voltar ao tecido.
Talvez não para toda a gente olhar para mim. Isso seria demasiado julianesco, demasiado narcísico. Talvez para eu próprio voltar a olhar para mim com alguma ternura e algum aprumo. Talvez para reconhecer no espelho não apenas o tipo que já perdeu o pai, mas o filho de alfaiate que ainda sabe distinguir um bom corte de uma ilusão barata ou de fancaria. No fim de contas, Giorgio Armani não me vestiu, Richard Gere nunca soube que eu existia — bem, encontrámo-nos uma vez, há uns anos, num junket de imprensa na Berlinale, ou melhor, entrevistei-o a propósito de Chicago (2002), de Bob Marshall — e Paul Schrader não filmou a minha rua. Mas todos eles, de uma maneira ou de outra, entraram na minha educação sentimental. E, se um dia eu voltar a vestir um fato como deve ser, não será apenas para ficar bonito. Será também para fazer as pazes com a memória, com o cinema e com essa velha convicção de filho de alfaiate: um homem pode estar destroçado por dentro, mas, se o corte do fato estiver perfeito, há sempre uma hipótese de atravessar o plano com dignidade.
Este texto é uma homenagem a Giorgio Armani e a esse desconhecido para quase toda a gente, mas fundamental para mim: o meu pai, Agostinho Vieira Mendes, alfaiate-costureiro.



