«Romaria», o mais recente filme da cineasta espanhola Carla Simón, chega aos cinemas portugueses e a Metropolis falou com a realizadora.
O cinema espanhol nunca se mostrou tão incandescente. E no meio de algumas das suas mais recentes jovens vozes (Elena Martín Gimeno, Estíbaliz Urresola Solaguren, Clara Roquet, Jaume Claret Muxart são só alguns exemplos), Carla Simón continua a forjar caminho com «Romaria» (2025), o título que encerra a trilogia autobiográfica encetada por «Verão 1993» [«Estiu 1993»] (2017), uma estreia tão incendiária que a afirmou desde logo como figura principal no cinema da memória.
Neste terceiro verão, depois da exploração da infância («Verão 1993») e das raízes rurais na Catalunha («Alcarràs»), o alter-ego de Simón veste-se de Marina (a estreante Llúcia Garcia) que viaja até à Galiza, Vigo, ao encontro dos avós paternos que nunca conheceu. Precisa de uma assinatura para conseguir candidatar-se a uma bolsa universitária. Parte então em viagem em direcção ao desconhecido, à espera de reconhecimento, por papel mas não só, de que aquela também é a sua família.
A partir das cartas deixadas pela mãe a amigos e familiares, e com o passado dos pais a assombrar a sua existência – a toxicodependência após o fim da ditadura franquista e a sua morte de doenças relacionadas com o contraído vírus da SIDA – Simón reconstitui passos. Regressa aos lugares onde os pais possam ter vivido à procura da verdade. Pergunta aos vários membros da família paterna por pistas, resquícios da realidade, detalhes cronológicos. Mas é constantemente desencaminhada.
Entre o eco do que não se ousa dizer e o silêncio que acompanha o que é dito, «Romaria» é tanto uma conclusão como um início. Apresentado na secção competitiva de Cannes em 2025, marca a primeira vez que Simón se distancia de terrenos telúricos (em parte, por falta de informação) e toca no realismo mágico que tem exaltado o cinema espanhol nos últimos anos. Também é a primeira vez que se apoia na palavra, e no propositado contar de uma história.
Eventualmente, quando tudo se começa a misturar como numa avalanche saudosa, é difícil distinguir a ficção da realidade, a invenção da verdade. Também acontece na primeira longa-metragem de Jaume Claret Muxart, «Estrany Riu» (2025), outro road movie estival sobre crescer-de-idade…«Romaria» intelectualiza-se enquanto o vemos decorrer. Parte em direcção ao que é táctil, apercebendo-se pelo caminho de que necessita do sonho para preencher a procura pelo Eu. Muxart usa o rio Danúbio para lá chegar. Simón um prédio muito alto no arquipélago das ilhas Cíes. Este é, afinal, o cinema que ausculta a realidade para, através do processo de feitura, destilar o resto. Sente-se nele a frescura (em vez da mágoa) de uma cartografia que permanecerá por descobrir: a única possível versão da história de amor dos pais.
Falámos sobre tudo isto com a cineasta catalã Carla Simón por vídeo-chamada.

Quero começar por evocar aquela imagem de Marina a apontar a lanterna ao corpo dos membros da família enquanto dormem. Ao rever o filme, voltava sempre a essa representação de como, de uma forma tão universal, temos que investigar a nossa família apontando-lhe uma luz directa porque estas pessoas são, mesmo fora de contexto, os maiores estranhos que conhecemos. É assim que vês o trabalho de verdade emocional que tens vindo a realizar na última década?
Carla Simón:Sim, é a procura através da iluminação. Quando há dias ou momentos difíceis em família, nós silenciamos o que nos atormenta, não falamos sobre o que se passa e consegue ser ainda mais doloroso voltar a eles depois, por causa disso. Mas precisamos de a eles voltar, porque precisamos de compreender o que ali decorria. No meu caso, tem sido essa necessidade de regresso, para entender a história dos meus pais e as razões por trás das reacções familiares no que a eles (e a mim) dizia respeito. Ajudou-me também a estar em paz com o meu passado. Ao conhecer e compreender as minhas origens, a minha história pode finalmente ter uma narrativa.
Ainda vês o cinema como um instrumento catártico através do qual se pode procurar um lugar de pertença?
Carla Simón: Não sei. Poderá ser muito útil, mas eu costumo dizer que se quisesse focar-me e trabalhar nos meus episódios de vida traumáticos, seria mais barato frequentar um terapeuta do que realizar um filme. Dá-te, sem dúvida, a oportunidade de te colocares no lugar de todos os outros membros da tua família e, através desse processo, estar presente para a mesma história a partir de outras perspectivas. É um exercício empático que talvez não façamos com muita frequência na vida. Para escrever um guião, há que perceber todas as personagens. Descobrimos que conseguimos compreender o evento do ponto de vista de todos, o que providencia uma interpretação ainda mais complexa da história.
Tem sido esta a forma que encontrei para crescer e assimilar o meu passado. Para além disso, eu acho que tem sido útil para a minha família também. Com «Romaria», muitos foram os que me perguntaram como é que a minha família estava a reagir ao filme. Nós acabámos por ter conversas positivas sobre ele. Através do filme, coloca-se tudo em cima da mesa, à vista de todos, especialmente aquilo que nem sempre se quer recordar.
«Romaria» fez-me parar para pensar na dinâmica entre ser um jovem adulto no meio de adultos amadurecidos, no sentido em que ocupamos um lugar de alienação, entre peças de um mapa que não temos. Enquanto isto, as pessoas à nossa volta escondem outras peças, não desvendando segredos. Marina está perdida. Continuam a contar-lhe estas inverdades enquanto ela tenta construir uma narrativa. Está rodeada de familiares, mas sente-se colocada de parte. Voltei a «Verão 1993», onde a jovem criança diz “Ninguém me ama aqui”. Estes dois filmes encontram-se aí, e eu questionava-me se tinhas começado a escrever «Romaria» partindo desse sentimento de exclusão.
Carla Simón: «Romaria» retrata o nosso estado emocional quando estamos rodeados por aqueles que são, supostamente, a nossa família. Mas esse sentimento não é sentido, porque nada foi partilhado com aquelas pessoas. Família é partilhar tempo. E é a única relação desenvolvida com o outro desde o nosso nascimento. Daí a sua história, a sua complexidade. Não podemos escolhê-la. E onde há muito amor, há muito trauma e ódio também. Por isso mesmo quando te deparas com a tua família, e não os conheces, é um sentimento que aliena. Eu estou aqui, mas sou um intruso ao mesmo tempo. E podia ser esta família ou outra qualquer. Seria igual, porque eu nada sei sobre eles.
Abordar estas nuances era o que importava. Não tanto o sentimento de abandono, porque Marina não faz a viagem a partir de um lugar de ódio. Se ela fosse ao encontro desta família porque estava carente de amor, seria esse o caso. O cinema que retrata este chamamento sanguíneo, digamos assim, tem a sua origem nessa raiva. Mas no meu caso, eu nunca vivi assim porque eu tinha uma família! Não precisava que eles me amassem. Já era amada pela minha família. Foi uma viagem pensada a partir de um lugar de imensa curiosidade. Era isso que movia a personagem. A curiosidade de conhecer o seu passado e o que nele aconteceu, e a história de amor dos seus pais. Esse sentimento de descoberta é muito forte e pode mover mundos e fundos, mesmo quando não se trata de um conflito narrativo clássico. Marina tinha que estar em movimento, porque há tanto que ela quer compreender e saber.

Sobre isso, pensava agora naquele olhar de Iago (Alberto Gracia) quando está no barco com Marina. A forma como o filme se deixa sentar naquele olhar transporta tanto poder e fala pela viagem de Marina no sentido em que há tanto que ele lhe poderia dizer logo, mas não diz. Há tanto que ele sabe naquele momento. Magnífico actor também. Como é que o encontraste?
Carla Simón: Ele não é um actor. É um realizador de cinema. Representou algumas vezes nos seus filmes, mas nunca o tinha feito para outro realizador. Foi uma aposta nossa nele. Eu e o director de casting sentimos que ele era muito parecido com a personagem, e que conseguia relacionar-se muito bem com Iago. E foi tão bonito ver a relação que imaginei entre Marina e o tio a tornar-se realidade. Quando os coloquei lado a lado, havia uma semelhança imediata. Ela estava curiosa para saber mais sobre ele, e ele sobre ela. Havia algo entre os dois que era muito natural, e isso transparecia em frente à câmara e fora dela.
O filme todo sente-se assim. Eu acreditei de imediato que eram uma família.
Carla Simón: Isso deve-se ao trabalho feito com os actores primeiro, antes de tudo o resto, porque eles não se conheciam. Eu acredito neste método de trabalho e penso que depois isso se vê no ecrã. Nós passamos muito tempo juntos antes de começarmos a rodar, a fazer improvisação de momentos que poderiam ter acontecido antes do início da história que vamos rodar. Imaginámos excertos da década de 1980 e alguns do novo milénio. Em alguns ensaios, Marina e Nuno eram primos. Noutros, eram um casal.
Quando nos debruçámos na década de 1980, trabalhámos na história de amor das duas personagens, mas também em como eles interagiam com a família. No dia em que ele a apresenta à família, o dia em que eles vêm de uma grande viagem e trazem presentes para todos ou o dia em que roubam dinheiro para comprar droga. Não ia haver nenhuma sequência no filme com a família. Na parte que contempla os anos ’80 são só eles os dois, mas era ainda assim importante que todos tivessem presente a imagem de quem eram estas pessoas que morreram. Para que ganhassem uma memória comum, partilhada, com eles. E assim quando a família é retratada, todos sabem quem é aquele que não está ali, como é que ele era e como é que eles eram os dois enquanto casal, enquanto pais de Marina.
Quando improvisamos, essa acção pertence ao mundo e ao universo que estamos a criar juntos. E assim todos sabem, quando se atrevem a improvisar algum diálogo, que o fazem porque é a coisa certa a fazer para a personagem. Desta forma, filmo uma espécie de prequela do filme com a minha handycam para criar as relações necessárias. Garantimos, desta forma, que chegamos à rodagem a sentimo-nos uma família. O avô de Marina (José Ángel Egido) contou-me que nunca tinha trabalhado tanto para um papel tão secundário, mas que por causa disso conseguia sentir que amava os seus netos. Isso é o mais importante. Que esse sentimento possa existir. Retratar dinâmicas familiares é algo muito íntimo. Sem todo este trabalho antes, é difícil que esse lado orgânico transpareça para o espectador.
Teria o efeito oposto, estranhos a fingirem ser família, o que neste caso não funcionaria mesmo. Imagino como Llúcia (Garcia) se deve ter sentido. É o primeiro filme dela. Como é que a conheceram?
Carla Simón: Na rua (risos). Ela estava a regressar de um encontro de escuteiros com a sua mochila de viagem, e a equipa de casting parou-a. E ela veio ao casting a primeira vez com os amigos, porque não confiava em nós. Ela tinha dançado antes, mas nunca tinha representado. Acabou a desenvolver uma relação muito especial com a câmara. Ela não a sente. Achei isso muito curioso.
Foi um casting muito difícil porque havia muitas raparigas que seriam óptimas para a personagem de Marina, mas eu não as conseguia imaginar para a personagem da mãe. E ao contrário também. Foram muito poucas as actrizes que imaginei que poderiam ser ambas personagens. E uma delas foi Llúcia, que era mais como Marina, mas que pressenti que, se trabalhássemos o suficiente, ela conseguiria representar o outro papel. E ela estava prestes a fazer 18 anos na altura, por isso foi mesmo naquele momento em que Llúcia e Marina se transformam em jovens adultas.

A viagem de «Romaria» traduz uma linguagem mais profunda através da qual falas com a tua família pelo filme. É também por isso que «Romaria» é mais estruturalmente pensado que os filmes anteriores? Tanto em «Verão 1993» como «Alcarràs» a câmara estava lá e estávamos a ver o que acontecia à sua volta. Aqui o movimento é mais pontuado, há uma dentada maior, menos observacional.
Carla Simón: Eu queria que fosse uma peregrinação. A estrutura é mesmo muito diferente. Em «Alcarràs», tudo é tão estruturalmente solto. Há uma premissa apenas, mas tanto pode caber lá dentro depois disso. Com «Romaria», havia uma direcção mais delineada. Ela precisa de construir a narrativa da história de amor dos pais através dos outros, por isso é que o filme acaba por ter esta estrutura mais episódica. Ela começa por perguntar a um tio, depois a tia, a outra tia, o outro tio, o outro primo, e depois os avós. Fazia sentido que, a partir do momento em que ela se apercebe que as peças não correspondem, ela pudesse imaginar esta história da forma que ela precisa de a imaginar. Usar o cinema para criar as imagens que lhe faltam. A memória é algo tão subjectivo, muito selectivo, e neste caso encontra-se sob estigma e tabu da SIDA e consumo de heroína.
Há também um outro filme dentro do filme. Um rege-se por uma estrutura mais clássica, mas depois claro que um filme pára e outro começa, e a estrutura desintegra-se. Eu queria criar algo diferente do que já tinha feito, e queria usar a palavra, porque é um filme sobre uma narrativa por isso precisávamos que as pessoas lhe contassem coisas. E eu nunca tinha usado o diálogo assim nos meus outros filmes. Houve inúmeros novos desafios que eu queria experimentar com Marina.
Isso faz-me pensar naquela sequência com o espanta espíritos. Estamos a olhar para Marina, Nuno vê-a da varanda e ela admira este objecto. Voltaremos a este mesmo lugar logo a seguir do ponto de vista dela (filmado com a câmara de vídeo dela) e depois a partir da fotografia daquela casa e varanda décadas antes. É uma sequência importante porque fala pela transição da experiência da realidade para a memória. O processo de Marina enquanto reconstrói tudo. É «Romaria» também sobre a sintonização com a presença daqueles que morreram, voltando aos mesmos lugares onde estiveram vivos?
Carla Simón: Os lugares ficam e as pessoas desaparecem. E sendo este um filme sobre memória, nada faz mais sentido. Eu sempre tive este sentimento quando ia à Galiza de estar mais ligada aos meus pais só por saber que eles ali estiveram. Às vezes estou em Vigo e viro a esquina e instintivamente penso, ‘talvez eles tenham estado aqui ou naquele bar’. Esta relação com o espaço geográfico é importante quando te falta informação. E eu filmo sempre estes lugares, tal como Marina faz no filme com a câmara dela.
Confesso que foi gratificante encontrar uma relação directa entre o presente e o passado usando o espaço geográfico. Mas a verdade é que normalmente não encontramos relações dessas. E quando encontras uma é tão revelador! A minha procura tem sido baseada na possibilidade de. Eles podem ter estado aqui ou ali, ou eles talvez viveram neste edifício ou talvez neste outro prédio. Não tens exactamente como ter a certeza. É uma investigação frustrante, porque é difícil saber onde é que se encontra a verdade. Mas depois quando nos deparamos com algo assim…eu gosto daquilo que dizes. A fotografia desta varanda que criamos de propósito para o filme, claro, e através da qual ela depreende que a mãe esteve ali. Finalmente tem esta garantia. É tão duro estar envolto neste tipo de investigação.
E porque «Romaria» nasce da minha frustração de não saber sobre a história de amor dos meus pais, levou-me a pensar muito sobre memória. E a forma como tudo isto funciona é deveras fascinante. Tu não te lembras de que não sabes. Em vez disso, lembras-te da última vez de que te lembraste de que não sabes. O gesto passa a ser o facto de que as memórias estão em permanente transformação e mudança dentro de nós em concordância com aquilo que precisamos ou sentimos no momento. Não se pode, por isso, colocar toda a nossa confiança nelas. Cheguei à conclusão que, caso os meus pais estivessem vivos, me contariam as suas histórias de amor e elas também não encaixariam, e eu não iria poder confiar muito neles.
O filme foi uma libertação enorme para criar estas imagens que quero ter presentes. Trabalhei nelas com liberdade, sem tratar a memória com tanta seriedade como no passado.

Este filme é muito mais livre, de facto. Especialmente na forma como se transforma num sonho febril. Não estava à espera disso. De repente, ela olha para si mesma a subir aquele prédio alto. Abre esta porta para a imaginação onde conseguimos mesmo deambular. Eu li que acreditas que podemos criar a nossa história de raiz. E isso leva-me a pensar, não somos todos um produto da nossa criação?
Carla Simón: Penso que sim. No final, todos precisamos de uma história que contaremos a nós mesmos para entendermos de onde viemos, e para nos dar algumas respostas às nossas perguntas. Mas eu acho que a história é mais ou menos verdadeira de acordo com as nossas necessidades. Obviamente que, quanto mais próximos sentirmos que estamos da verdade melhor. E, mesmo que não queiramos, as memórias irão transformar-se e mudar. É fascinante quando perguntas a alguém sobre a mesma coisa, e a outra pessoa questiona-se se estiveste lá sequer. ‘Porque é que estás a contar esta história’. Na tua cabeça estiveste lá e ouviste aquilo tantas vezes. Coisas destas acontecem muito.
Tenho que perguntar sobre o gato, porque de todos ele parece ser a ponte mais imediata com o passado.
Carla Simón: Os meus pais tinham um gato. Chamava-se Fernandez. A minha mãe fala muito dele nas suas cartas. O diário que ouvimos ao longo do filme foi construído a partir das cartas da minha mãe, enviadas a amigos e família. Nelas, ela falava deste gato. É tão simpático eles terem um gato também no filme porque essa é, de facto, a história real. E na parte mais antiga de Vigo, há mesmo muitos gatos. Surgiu de forma muito orgânica o gato levar Marina até ao passado. Os gatos são seres magos. Nunca poderia ser um cão porque eles não têm essa conotação. Os gatos são muito cinemáticos, como o coelho em “Alice no País das Maravilhas”.
Este teu retrato pessoal reflecte uma inteira geração de pessoas que perderam as suas vidas para a SIDA e o seu legado. Sentes que o tabu ainda se encontra presente?
Carla Simón: Algo está a acontecer, agora que estamos a reabrir este período da história. Há a necessidade de lembrar os jovens que isto aconteceu. A história espanhola que é contada e estudada daquela altura passa muito pela ditadura e pela morte de (Francisco) Franco. A geração dos meus pais era uma geração de crianças reprimidas. Quando a liberdade chegou, eles eram muito jovens e abraçaram-na com muito fulgor. Em Espanha, toda a heroína chegava pela Galiza. Nós tivemos uma crise de heroína enorme. Muitas pessoas não sabiam as consequências da heroína sequer! Não havia educação no que diz respeito à aparição da SIDA mais tarde. Os meus pais foram vítimas do momento. E muitos são aqueles que acham que o governo não fez nada para parar a entrada de heroína no país, especialmente porque enquanto as pessoas jovens consumiam drogas, mantinham-se também apolíticas numa altura tão delicada de transição entre a ditadura e a democracia.
É bom repensar como falamos sobre esta geração. As mortes deles foram tão dolorosas que foi por isso que houve um silêncio a circundá-las. Os pais deles eram conservadores, e não tinham como compreender os próprios filhos. A maneira como falavam sobre eles vinha manchada com uma injustiça tremenda.
Para mim, que faço parte da geração a seguir, não faz sentido julgá-los. Acho, aliás, que devíamos dar-lhes valor, porque se não fossem eles nunca os valores mais conservadores e católicos em Espanha tinham dado lugar a ideais progressistas e de esquerda. No final do dia, a forma como falamos das coisas cria a forma como pensamos nelas. Agora é o momento para revisitar isto, especialmente com os partidos de direita a exercerem o seu poder sobre nós outra vez.

A pensar no futuro, Alfonso (Mitch Martín) beija a filha na testa antes de se ir embora. Com que sentimento ficaste depois de acabares este filme?
Carla Simón: Senti-me mesmo muito livre, desembaraçada do meu passado e das minhas perguntas. Já não tinha medo do mundo, então já não tinha receio de aceitar o que aconteceu. Este filme ajudou-me muito a compreender o vício também, e o facto de que o meu pai não podia ser um pai por causa disso. Acabar «Romaria» coincidiu com o nascimento da minha segunda filha. E foi decisivo. O passado está explorado. É altura para começar algo novo.




