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A Rapariga que sabia demais

“Não é tão bom podermos falar de tudo abertamente?” é a pergunta que ecoa pelo filme de Frédéric Hambalek, estreado na competição do Festival de Berlim o ano passado, um ensaio satírico em torno do que aconteceria se os filhos estivessem presentes para os pais enquanto indivíduos, a navegar os seus mundos privados, no trabalho e na sua vida pessoal. Acontece à família de Marielle, uma jovem de 12 anos que adquire capacidades telepáticas e que passa a testemunhar, na primeira pessoa, a passividade do pai na empresa editorial onde trabalha, e o que parece ser o início de um caso extraconjungal entre a mãe e um colega de trabalho. Ao assistir-se à ruptura percepcional do status quo daquela família burguesa entre os seus vários membros, as lutas diárias para recuperar a imagem das pessoas que a filha imaginava que eram até então abrem caminho para um lugar insólito, onde pais e filha se encontram na mesma escala de igualdade, livres de máscaras sociais ou quaisquer outros esconderijos.

Tendo em conta a sua textura elíptica (sequências divididas pela cara da filha, que é o olhar no céu que tudo vê, ouve e sabe) e muita secura tonal, seria de esperar que «A Rapariga que sabia demais» se reduzisse a um filme-conceito fantasioso. É, afinal, um gume episódico, uma crónica que responde à possibilidade de um “e se”. Mas Frédéric Hambalek expande a ideia com mestria, equilibrando a crueza formalista com o questionar universal dos papéis, regidos por hierarquias, nomeadamente de género, protagonizadas nas vidas de todos nós. Hambalek não fecha o seu filme na fantasia, e Marielle torna-se o espelho identitário dos pais. Para além disso, é também um filme que se regozija no desejo de trazer para primeiro plano a distinção entre força e autoridade nas relações sociais e humanas. Quanto mais em frente anda mais desbloqueia esse seu lado surreal, reminiscente do mesmo mundo desconfortável que há muito tem vindo a ser reproduzido por tanto Yorgos Lanthimos como Ruben Östlund ou Quentin Dupieux, todos juntos na missão de denunciar as bizarrices do comportamento humano.

No entanto, quando «A Rapariga que sabia demais» nos deixa, fica retida a compacidade e a perspicácia crocante do exercício, mas não muito mais. Teria sido benéfico testemunhar vivências antes e depois do fenómeno paranormal com vista a evitar o eventual emagrecimento de uma premissa que merecia ser fortalecida pela duração do filme e irreverência desse maior guião.  Ainda assim, a indicação é clara: a descoberta precoce de uma filha que pode amar os pais, mas não tem de gostar deles. Mais cinema devia iluminar estes caminhos tragicómicos no seio familiar que normalmente só acabam desvendados durante a idade adulta. Não nos podemos esquecer que estamos todos a viver pela primeira vez.

TÍTULO ORIGINAL: What Marielle Knows
REALIZAÇÃO: Frédéric Hambalek
ELENCO: Julia Jentsch, Felix Kramer, Laeni Geiseler
ORIGEM: Alemanha
DURAÇÃO: 87 min.
ANO: 2025

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