«Projecto Global», de Ivo M. Ferreira («Cartas da Guerra»), — estreado no Festival Internacional de Cinema de Roterdão —, chega agora às salas e parte de um daqueles temas de que, em Portugal, ainda se fala em voz baixa ou com um pigarro nervoso: as FP-25. Mas esqueçam o telejornal, o documentário explicativo ou o tribunal moral de café. Ferreira não está interessado em explicar tudo do ponto de vista histórico; está muito mais interessado em tornar mais complexo o drama e as contradições emocionais dos envolvidos nessa força revolucionária da esquerda radical, responsável por alguns dos maiores atentados em Portugal entre 1976 e 1978. Sejamos correctos, ao contrário daquilo que foi dito há dias no Parlamento português pelo líder da bancada de extrema-direita. Não consigo deixar passar isto…
«Projecto Global» começa como thriller — o jogo do gato e rato, polícia e operacionais, sombras, perseguições —, mas rapidamente percebemos que o verdadeiro jogo não é entre lados opostos. É dentro da cabeça de cada personagem. Especialmente Rosa, interpretada por Jani Zhao, que vive dividida entre o palco do teatro e a clandestinidade, entre a convicção e aquela suspeita de que talvez esteja tudo errado — “o que ando a fazer?” —, mas não tem alternativa. Ou pior: de que não há maneira certa de o fazer.
E aqui está o golpe de génio (ou a armadilha, depende da disposição do espectador): ninguém tem razão suficiente para descansar. Nem os revolucionários, nem os investigadores, nem nós, que nos sentamos confortavelmente na cadeira a achar que sabemos sempre distinguir o bem do mal, como quem escolhe entre duas filas no supermercado. Ferreira tira-nos esse conforto como quem puxa a toalha da mesa e ainda ficamos a segurar os copos.

Há um prazer quase perverso na forma como o realizador recusa fazer um filme “importante” no sentido chato da palavra. Não há discursos, não há panfletos, não há aquela tentação portuguesa de transformar tudo em tese de doutoramento com fotografia bonita. Há, isso sim, actores a respirar, personagens a hesitar, a tropeçar nas próprias convicções. E sente-se que o casting — Jani Zhao, Gonçalo Waddington, Ivo Canelas, principalmente — foi pensado menos em termos de currículo e mais em termos de nervo, de presença, de “qualquer coisa” difícil de explicar, mas impossível de ignorar.
E depois há essa ironia deliciosa: Ferreira diz que fez exactamente o filme que queria fazer… e afinal fez dois. Um para cinema e outro para televisão — que veremos mais tarde e que, se calhar, nos dará uma dimensão maior daquilo que foi o país quase em chamas nesse tempo histórico e revolucionário logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 —, como se o próprio “Projecto Global” recusasse caber numa única forma. O que, convenhamos, é bastante coerente com um filme sobre gente que também nunca coube em lado nenhum: nem na História, nem na moral, nem na paz de espírito.
No fim, saímos da sala com aquela sensação rara e incómoda: não aprendemos uma lição, não recebemos respostas, não ficámos mais tranquilos, nem saudosos desses tempos. Ficámos mais inquietos e a pensar como foi possível ultrapassar tudo isto para termos a democracia em que vivemos, mas que começa, perigosamente, a dar sinais de fragilidade.
Título Original: Projecto Global
Realização: Ivo M. Ferreira
Com: Jani Zhao, Gonçalo Waddington, Ivo Canelas, Rodrigo Tomás, José Pimentão
Origem: Portugal/Luxemburgo
Duração: 141 min.
Ano: 2025
Género: Drama, Acção



