Ivo Ferreira regressa em força com «Projecto Global». Nos últimos anos tivera uma série de qualidade na RTP, «Sul», já depois do opus sobre a Guerra Colonial, «Cartas da Guerra» (2016). Agora, são as FP25 e o terror revolucionário que dominam a sua atenção num filme que ficciona uma célula da organização terrorista de extrema-esquerda, capaz de atentados e assaltos a bancos e fuga às autoridades policiais. Quase dez anos depois de termos conversado com ele, na Cinemateca, numa tarde quente quando estreou o filme sobre as cartas do escritor António Lobo Antunes à mulher durante o conflito militar, tivemos uma bela conversa por zoom, durante quase uma hora, onde tocámos quase todas as notas deste trabalho gigante. Da origem do projeto à escrita demasiado longa do argumento com Hélder Beja e o apoio científico do historiador do museu do Aljube, Francisco Bairrão Ruivo. Da escolha muito difícil do elenco, num casting gigantesco de mais de 140 atores e atrizes ao trabalho em plateau. Da composição dos planos ao trabalho com dois mestres: Sandro Aguilar, que acumula funções de produtor e de montagem e do talento da fotografia Vasco Viana, que já recebeu prémios vários na sua ainda curta carreira e é um mestre da luz e da sombra. Finalmente, fomos ao coração do filme: a relação umbilical e trabalho de cumplicidade com o produtor do filme, Luís Urbano (da produtora Som e a Fúria). O final da entrevista que teve a presença ativa dos filhos do realizador, ávidos da atenção do Pai enquanto decorria a conversa, é elementar referir que Ivo Ferreira e os seus atores e técnicos, na antestreia do filme na Cinemateca Portuguesa, depois de cantarem em uníssono uma canção revolucionária, pensaram em conjunto: “Afinal não estávamos todos loucos!”
Vamos começar pela génese de «Projecto Global»
Ivo Ferreira: A ideia inicial para este filme nasceu quando tinha para aí uns nove anos; o projeto remonta a coisas que assisti e que me alertaram quando era mais novo e que ficaram dentro da minha cabeça. Por outro lado, coincidiu com a altura em que, quando era miúdo e fazia espetáculos no Teatro da Comuna [o pai de Ivo era o ator Cândido Ferreira], as peças de teatro acabavam e eu ficava triste com a efemeridade da arte teatral. Uma dessas peças coincidiu com a prisão de uma pessoa que era um elemento da companhia de teatro, a Natércia Campos. Foi lá a Polícia Judiciária detê-la, no âmbito da operação Orion, em 1984. Aí os meus pais revelaram-me que eram muito empenhados, em termos políticos, e explicaram a situação da atriz detida. Viajando muitos anos depois, após o «Cartas da Guerra» (2016), senti que tinha atingido um ponto de maturidade e, por outro lado, tinha a possibilidade de angariação de financiamento para um projeto desta envergadura: «Projecto Global» é um projeto muito caro, isso era muito claro. Aproveitei todo o balanço das «Cartas da Guerra» para dizer ao produtor Luís Urbano: “este é o projeto seguinte que quero fazer”. É apresentado ao mercado em dezembro de 2017, no Festival Internacional de Macau, com uma mulher como protagonista. O enredo é o mesmo, no sentido em que já acompanhava a entrada de uma atriz que era apoiante de uma organização e é identificada pela polícia. Só resta entregar-se à polícia ou então entrar na clandestinidade. A partir daí começa um percurso que dura dois anos.
No filme, há um olhar neutro sobre a questão das FP25 e do Projecto Global, nada maniqueísta. Mas noto alguma desilusão nos protagonistas revolucionários. As FP25 foram o estertor do processo revolucionário em curso (PREC), o fim da revolução?
Ivo Ferreira: Na primeira meia hora, a protagonista Rosa [Jani Zhao] chega à casa do jornalista; estão os corpos pelo chão, é a ressaca da festa! E o jornalista [Adriano Luz] responde: “Rosa, já acabou a Guerra Colonial, já acabou o fascismo, até já acabou a Revolução, está tudo bem.” E acabou também um certo hedonismo no seio da sociedade portuguesa, que doeu. Mas sim, é um filme sobre a ressaca e sobre a tristeza de algo que foi interrompido. Um sonho que foi interrompido.
O argumento foi escrito a meias com o Hélder Beja. Como é que correu o processo de construção do guião?
Ivo Ferreira: Muito antes do Hélder entrar no processo, já tinha falado com o Francisco Bairrão Ruivo, que é historiador de História Contemporânea Portuguesa, é do Museu do Aljube, e já tinha falado com ele antes. Estava a dizer numa entrevista a uma rádio que começou assim: “estávamos a jantar, no Algarve, e disse-lhe: ‘Francisco, vou propor-te isto!’” E assim foi; um ano depois estávamos a embarcar nesta aventura. A partir daí foi um trabalho de investigação que incluiu entrevistas a operacionais das FP 25 de norte a sul do país e também falámos com o outro lado da barricada, com os polícias que andavam no encalço dos operacionais da organização. Os processos em tribunal são gigantescos; tivemos acesso, mas isso foi muito difícil: eram aqueles volumes de papel embrulhados com fita. Às vezes, quando os tínhamos na mão, parecia digno de um filme cómico tal a dimensão quixotesca dos documentos. Pois dão-te uma coisa que tu podes consultar, mas tens uma mesinha de diapositivo para consultar uma pilha gigante de papéis. E às tantas tínhamos um camião de documentos oficiais do processo.
Portanto, a partir daí começamos a estruturar o argumento e chegamos rápido a uma versão de guião que tinha cerca de 180 páginas! Digamos que havia uma consciência de que era um filme que não dava para ser feito com um argumento destes, pois não era um filme barato, facto inerente à questão da época e à questão da atividade dos personagens, por serem assaltantes de bancos e bombistas. Havia aqui uma série de questões que iam ficar evidentes em relação à dimensão do filme. O produtor apanha um enorme susto, mas depois ganha entusiasmo, as duas coisas, e, a partir daqui, fomos fazer uma reformulação do projeto.

O elenco é um misto de confirmações, no caso da protagonista Jani Zhao, por exemplo, já tinha entrado no «Sul» [série da RTP de Ivo Ferreira]. É um elenco ou um coletivo de qualidade e versatilidade dramatúrgica. Destacam-se a Jani Zhao, o Isac Graça, a Isabel Zuáa, o Ivo Canelas, o Adriano Luz, num registo incrível, entre tantos outros. Como foi a escolha do elenco?
Ivo Ferreira: São 148 atores! Foi um casting muito longo e resultou da ideia que tinha de reunir numa espécie de corpo disforme “uma orquestra desafinada, mas onde tem de haver o baixo, o barítono, onde tens de ter as peças todas para depois cantarem”. Tenho uma atitude em relação aos autores muito comportamentalista, muito mais do que psicologista; procuro mais escolher pela forma física dos corpos, pela forma de andar, de rir, pela voz, pela forma como olham, como riem. Escolho atores por muitas razões.
O casting foi absolutamente monstruoso, foi feito de forma muito ampla, pois incluiu malta muito conhecida da televisão, até atores que vieram de várias partes do país, desde o Norte ao Centro, ao Alentejo e mais a sul. Veio malta do Porto, do Alentejo, por isso não cingimos a nossa escolha para o casting à agência lisboeta.
Foram escolhas a partir de ideias que já tinha tido de atores e que fui confirmar em casting. Há alguns personagens que já tinha tido ideia dos atores a escolher porque os vi ou encontrei-os: por exemplo, o João Catarré, uma vez olhei para ele num jantar e ele fez qualquer coisa que me fez lembrar a personagem Balela, que era a personagem que estava a escrever na altura.
Por outro lado, há uma série de atores com os quais trabalho há já muito tempo; há uma certa continuidade. Trabalho com o João Pedro Mamede e com o Isac Graça há uma série de anos, desde as «Cartas da Guerra».
Houve uma simbiose grande com a equipa e com os atores.
Ivo Ferreira: Houve! Com a equipa e com os atores. Por exemplo, o trabalho com os atores foi um trabalho muito longo, e até a própria equipa teve palestras sobre o tema com o Francisco Bairrão Ruivo [Historiador]. Isto foi algo muito bem pensado e demorado, e houve um trabalho de preparação: por exemplo, os atores chegaram a ser vendados e transportados até ao Alentejo, com o guarda-roupa já da época, com os sapatos e tudo. Deixados no meio do nada para tentarem encontrar uma casa. Estiveram três dias, em personagem, a discutir política. Três semanas em “black box” a ensaiar e reescrever os textos.
Como foi o ambiente na rodagem?
Ivo Ferreira: Teve muito a ver com a forma como nós trabalhamos e nos dedicamos às coisas. Este filme passou a fazer parte de muitos de nós durante todo este tempo. Tivemos malta que deixou crescer o cabelo e a barba durante dois anos. Tínhamos tido um ano e depois o filme é adiado um ano e continuaram a deixar crescer a barba e o cabelo. Por isso nos pareceu que alguma coisa estávamos a fazer bem, e julgo que havia esse entendimento de todos. Noutro dia, um jornalista da revista Visão escreveu um post nas redes sociais: ele foi à estreia, na Cinemateca, e depois escreveu um post incrível no Facebook. Uma das situações que ele refere no artigo é que, no fim da projeção, os atores começaram todos a cantar em uníssono. Nós, na rodagem, quando estávamos todos cansados, a acabar às 7 da manhã de filmar íamos na carrinha a cantar essa mesma canção revolucionária.
Houve aqui qualquer coisa de especial que tínhamos entre nós, de um sentimento coletivo, de união, que estava claramente a funcionar. Reconhecemos isso até agora! Houve várias questões que se colocaram, como nós tivemos uma rodagem excecionalmente longa, até questões políticas que se colocaram: até tem a ver com os nossos horários, nós todos entrávamos ao mesmo tempo (equipa técnica e elenco). Para não estarmos a explorar mão de obra escrava! Porque há uma série de equipas, como a do guarda-roupa, que não recebem horas e que acabam por estar a fazer horas não pagas! Houve todo um cuidado muito grande, do ponto de vista político, para que fosse justo e que fosse equitativo e com elegância na forma como lidávamos uns com os outros. Houve um grande respeito entre todos! Havia uma sensação, uma ideia de que alguma coisa estávamos a fazer bem! Só a pressentir…

Houve uma reconstituição fiel daqueles “tempos da brasa” (das FP 25), ao nível dos décors, do guarda-roupa, da música escolhida, símbolos e signos. Foi um desafio encenar aqueles tempos e contexto históricos? Fala-nos do desafio que foi construir essa mise en scéne.
Ivo Ferreira: Há aqui um problema neste filme que tem a ver com a sua dimensão financeira, mas muito mais do que isso. Teve a ver com a questão da produção. A partir do momento em que estamos a alicerçar todo um projeto em ambivalência moral. Por se querer trabalhar em temas sensíveis, tudo o resto — leia-se a produção — tinha de estar absolutamente rigoroso. Porque, senão, seria uma coisa vaga. Daí a minha insistência para que houvesse este valor de produção elevado.
Dou um exemplo: no filme, tens aquele largo enorme onde decorre o assalto. O banco que aparece no filme não existe na realidade. A estrutura foi construída noutro local e, em seguida, trazida por guindastes para se encaixar no edifício. E, quando tu passas a porta, estás dentro de um estúdio no Luxemburgo, de 150 mil euros, para reconstituir o banco no seu interior. Ou seja, há muitas coisas que se veem que não são para ver, são para estar lá! Esse largo onde está o banco não existia; é um largo morto, só passam camiões de tomates. Não existe o posto da Guarda Nacional Republicana nesse largo, mas, no filme, está lá. Foi tudo reconstituído. Para além dos décors, houve mais as centenas de figurantes, o guarda-roupa, as quatrocentas perucas, os painéis e murais revolucionários da época.
Foi um desafio da produção muito grande. Foi um desafio da direção artística e tivemos a noção disso desde a escrita do argumento. Estou com a produtora do filme, a Som e a Fúria, há muitos anos, já passamos por muitas coisas e percebemos logo a grandeza da empreitada. As pessoas gostavam muito do argumento e da história, e houve aqui um património acrescido, além da relação que temos uns com os outros.
Por exemplo, o diretor de produção, Joaquim Carvalho, quando filmamos em Angola, «Cartas da Guerra», passou, literalmente, por guerras. Tivemos, por exemplo, de construir uma ponte para depois passar com o material para filmar. Há aqui um ponto de confiança pelo fato de já trabalharmos juntos há algum tempo; por isso, confiamos uns nos outros. Sabemos que as dimensões de produção que eu peço não são para alimentar o meu ego, são para a imagem do filme.
Há uma urgência e há uma energia revolucionária na forma como a câmara se movimenta e na própria decoupage do filme, que é diferente, tem um ritmo distinto dos filmes anteriores, do ritmo mais suave de «Cartas de Guerra» e até do «Hotel Império».
Ivo Ferreira: Eu filmo como eu sinto. Eu filmo para tentar perceber o mundo, a humanidade, as pessoas, a minha família e os meus personagens.
Era muito importante que estivesse tudo a fervilhar, a crepitar! Costumava dizer que não quero ter a certeza se a câmara está atrás do ator. É quase como todo o movimento do filme. Todo o movimento da câmara tem a ver como se tivéssemos um comboio já em andamento. É a urgência daquelas personagens quererem mudar o mundo. As suas ideias/utopias vão colidir com a realidade; há essa vontade indómita de fazer alguma coisa por um mundo melhor. Mais tarde vemos, apesar de tudo, que estes tipos de radicalismos vão trazer coisas que se tornam irreconhecíveis até para os próprios membros da organização.
«Projecto Global» é um filme sobre o erro, sobre a dúvida, sobre a hesitação. Não é um filme sobre os heróis nem as certezas da vida. Isto é um filme sobre dúvidas.
Como foi a tua composição dos planos? Segues o que está escrito no argumento em termos de escolhas de planos e enquadramentos? Há ajustes diários em função das condições atmosféricas e da luz?
Ivo Ferreira: Há estruturas base das cenas, e depois todos os dias trago para a cena uma espécie de uma “porta de entrada” e experimentamos essa “porta de entrada”. Se tiver alguma dúvida sobre isso, tenho de perceber se ou insisto ou altero a opção inicial. Mas é sempre algo pensado antes e sempre a mudar.

Mas há um lado intuitivo da tua parte?
Ivo Ferreira: As personagens podem improvisar, mas é dentro daquilo que está planeado. O texto foi rescrito, mas foi-o há seis meses em ensaio na sala. Em suma, temos de estar bem preparados, sabermos muito bem o que estamos a fazer, para podermos improvisar: em relação aos planos, acontece de tudo, sei lá, há planos que tinha há muito tempo na cabeça!
Houve soluções muito específicas de época, por exemplo, o Vasco Viana, o diretor de fotografia, e o Shank, que é o chefe eletricista, compraram lâmpadas antigas de iodo que dão aquela luz amarela. São gestos que foram muito importantes na questão do “cheiro” da época. Muito marcantes em termos visuais e simples, e havia regras também: todos os dias tínhamos de ter uma luz em campo, do lado prático. Enfim, é muito trabalho para depois parecer tudo tão natural. Também tínhamos objetivas com setenta anos! Uma das objetivas, que estava para entrar num museu, veio da Alemanha.
Queria que me falasses de dois nomes fundamentais do filme: Sandro Aguilar na montagem e Vasco Viana na fotografia do filme
Ivo Ferreira: É realmente um prazer e uma honra contar com esses dois nomes que disseste. São dádivas da natureza: o empenho deles, a seriedade do seu trabalho. Depois, também há aqui questões importantes: é quase como se nós ocupássemos o mesmo espectro intelectual, no sentido político, social, digamos assim. Comungamos de uma série de ideias, de formas de ver o mundo, de estar na vida. Que nos aproximou muito e que nos faz ter uma confiança recíproca muito grande. Sempre pautado com grande respeito, e é bom poder trabalhar com artistas desta dimensão. Tenho uma admiração por eles, para além do respeito. Acho que temos uma série de coisas que nos unem muito e que partilhamos.
Como foi trabalhar com o Luís Urbano (produtor do filme)?
Ivo Ferreira: Poderia estar muito tempo a falar sobre a nossa amizade, compreensão e respeito mútuo, e tudo isso. Mas há uma história que pode resumir tudo issode uma forma simples: houve vários atores que fizeram muitos castings. Que pedi, encarecidamente, para repetirem o casting e fomos afinando, e não podes estar a escolher individualmente; é uma orquestra. Tens de escolher uma espécie de grupos. No caso da personagem Rosa, foram feitos vários castings à Jani [Zhao] e a outras atrizes, e fui tendo a certeza de que o papel de Rosa devia ser da Jani. No meio disto tudo, um dia vou jantar com o Luís Urbano e estamos a falar de uma série de coisas que temos de resolver: e, às tantas, ele interrompe e diz: “Não me digas que a outra questão tem a ver com o fato de escolher a Jani para fazer o filme — a Jani é minha companheira.” Respondi-lhe que era essa questão. E ele diz-me claramente: achas que eu alguma vez na vida queria que tu não tivesses a certeza e o desejo de filmar um protagonista? Nós tratamos destas questões com simplicidade, mas isso é parte de uma grande compreensão. Ele já tinha percebido que era isso que me estava a preocupar: pois há sempre um dia em que o realizador escolhe um ator e comunica ao produtor. Há uma grande cumplicidade. Conhecemo-nos muito bem e gostamos muito todos uns dos outros e confiamos uns nos outros, e amanhã vou almoçar com ele.
Tens sido exemplar a tratar algumas das questões decisivas da história contemporânea de Portugal: o 25 de Abril em «Águas Mil» (2009), a guerra colonial em «Cartas da Guerra» (2016) e agora as FP25 em «Projecto Global» (2026).
Ivo Ferreira: Estou particularmente interessado por estas zonas cinzentas e lamacentas da história contemporânea do país. Aliás, o meu próximo filme é sobre um casal de saltimbancos que acaba por ser preso pela PIDE porque está, através do Partido Comunista Português, a passar malta para o outro lado da fronteira, para irem a salto para Paris ou para Argel. Aí vamos abordar a tortura da PIDE e vamos mesmo até em cima da data do 25 de Abril. Tenho algum pudor em relação ao dia e à data. Quando é história com H muito grande, não gosto muito de abordar e recuo um bocadinho. E o filme seguinte, que para já se chama “As Doze Caixas”, é sobre a tortura do sono em Moçambique, com base num livro que vai ser editado agora da Maria João Oliveira, que foi sendo publicado no suplemento de domingo do jornal Público, o P2. Ando em volta destes temas ainda, mas espero livrar-me deles.
Mas esse interesse tem a ver com a tua história pessoal e com a influência dos teus pais também?
Ivo Ferreira: Tem a ver com os meus interesses. Agora, é claro que os meus interesses são motivados pela minha história pessoal, pelos meus pais e por tudo isso. Mas tem a ver com os meus interesses, e sobretudo porque, apesar de tudo, Portugal lida muito mal com os seus traumas; se fosse ao médico, ficava internado, com certeza. Mas sou muito fascinado por estas dores traumáticas!
Vens de uma família ligada às artes e tens uma caminhada singular no cinema português. Já passaste por situações muito complexas na tua trajetória. Há algum momento na tua vida que consideres decisivo e que tenha tido repercussões na tua carreira artística e nas opções que foste tomando ao longo do teu caminho?
Ivo Ferreira: Para falar de uma coisa recente, o que é mais decisivo para mim, o que me entusiasma e que me dá coragem para ir fazer o próximo filme foi, muito sinceramente, no outro dia ter ido ver este filme com as pessoas, com a equipa e com os atores e olharmos todos uns para os outros e dizer: afinal não estávamos loucos!



