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O Barqueiro

Aparentemente, «O Barqueiro», de Simão Cayatte («Vadio»), é um daqueles filmes portugueses que parecem feitos não para agradar a festivais ou a programadores — e talvez nem ao público —, mas para nos esfregar o país na cara. Há lama. Há frio. Há ilegalidade. E há um Tejo que, em vez de refletir monumentos e a sua luz em dias de sol, reflete um país cinzento, que anda há décadas a fingir que não vê o que se passa nas suas margens: a apanha ilegal de amêijoas.

No centro da história está Joaquim, interpretado por Romeu Runa, um homem que sai da prisão ao fim de dezesseis anos. Ele decide fazer aquilo que, à partida, não devia: não contar nada à família sobre a sua saída e meter-se num negócio clandestino no meio do rio, a transportar apanhadores ilegais de amêijoa durante a noite. Apesar de tudo isso, é importante notar que ele tem um objetivo nobre: comprar um piano para a filha, a quem não vê há muito tempo e que o rejeitou por ser presidiário. Sim, comprar um piano. Porque nada diz redenção como tráfico fluvial de bivalves para financiar educação musical.


E é aqui que o filme ganha uma espécie de poesia torta, quase absurda, profundamente portuguesa. Um homem que tenta compensar o passado com uma promessa que já vem fora de prazo. Um pai que chega tarde, mas insiste em chegar. Mesmo que, para isso, tenha de atravessar um rio cheio de fantasmas e de autoridades convenientemente distraídas.

Cayatte filma tudo isto como se estivesse a fazer um western fluvial, mas sem cavalos, sem deserto e sem heróis. Em vez disso, temos barcos, lodo e uma economia paralela que funciona com uma eficiência que faria inveja a muitas empresas. O inimigo aqui não é um vilão clássico. É um sistema difuso em que toda a gente sabe o que se passa e ninguém faz grande coisa para mudar ou assumir aquilo.


E isso, curiosamente, é o que torna «O Barqueiro» mais do que um simples drama social. É um filme sobre o país real, aquele que não entra nas campanhas eleitorais nem nos discursos oficiais. Um país onde a sobrevivência muitas vezes não cabe na lei, onde as promessas chegam tarde e onde os afetos se resolvem mais com gestos silenciosos do que com grandes declarações.



Depois de «Vadio», Cayatte confirma que não está interessado em fazer cinema bonitinho e confortável. Não há aqui moralismos fáceis nem lições de vida embaladas em música bonita. Há personagens ambíguas, decisões espinhosas e uma sensação constante de que ninguém está completamente certo, mas também ninguém está completamente errado. É preciso sobreviver.

No fim, «O Barqueiro» é isso: um filme sobre travessias. Não apenas as do rio, mas as de um homem que tenta passar de um passado que o prende para um futuro que talvez já não o espere. E, pelo caminho, deixa-nos com uma pergunta óbvia, mas incómoda, daquelas que ficam a ecoar depois de sairmos da sala: quantos “barqueiros”, apanhadores de amêijoas e imigrantes ilegais existem neste país — e quantos preferimos não ver?

Título Original: O Barqueiro
Realização: Simão Cayatte
Elenco: Romeu Runa, Miguel Borges, Jani Zhao, Madalena Aragão, Sandra Faleiro
Origem: Portugal.
Duração: 106 min.
Ano: 2025
Género: Drama

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José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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