«Os Domingos», da realizadora espanhola Alauda Ruiz de Azúa («Cinco Lobitos»), é um filme que nos faz sair da sala a discutir o final ou, melhor, a discutir a questão da família e da religião, que, convenhamos, é sempre muito mais estimulante. Foi Concha de Ouro do último Festival de San Sebastián e é do tipo de cinema que não só mexe connosco como ainda nos deixa com vontade de evitar almoços de domingo durante algumas boas semanas. Qualquer outro filme daria um drama religioso clássico, cheio de padres, crises de fé e discussões teológicas. Aqui não. Aqui temos Ainara, 17 anos, prestes a terminar o ensino secundário e a tomar um rumo, que decide — assim, com a leveza de quem muda de curso universitário — tornar-se freira de clausura. E o que poderia ser um conflito entre Deus e o mundo transforma-se rapidamente noutra coisa muito mais impiedosa: um enorme conflito emocional e familiar, em que ninguém sabe muito bem o que dizer, mas toda a gente tem uma opinião. E é aqui que o filme acerta em cheio. Porque percebe uma coisa essencial: o problema nunca é a questão de Deus. O problema somos nós. A fé, neste universo, não é uma convicção sólida; torna-se antes uma espécie de penso rápido emocional, colado às pressas num vazio que ninguém teve coragem (ou competência) para enfrentar. Morte, ausência, silêncios, afectos mal resolvidos, está lá tudo. E a jovem Ainara faz o que qualquer ser humano desesperado poderia fazer: procura uma resposta. Mesmo que essa resposta implique desaparecer do mundo.

Claro que a família reage. Mal, como manda a tradição. Entre o pai emocionalmente ausente (mas muito presente na gestão financeira, que isso nunca falha) e a tia Maite — mais uma interpretação incrível da actriz basca Patricia López Arnaiz («Pequenos Clarões»), vencedora de Melhor Actriz nos Goya 2026 —, que tenta resolver tudo com palavras — muitas palavras, demasiadas palavras —, instala-se aquele ambiente clássico de almoço de domingo onde ninguém diz exactamente o que sente, mas todos dizem o suficiente para piorar ainda mais a situação. E depois há o estilo de Alauda Ruiz de Azúa, que é quase irritante na sua simplicidade argumentativa. Nada de pirotecnia visual, nada de planos a gritar “olhem para mim que sou cinema de autor”. Aqui, o espectáculo está nos rostos, nos silêncios, nos olhares que duram um segundo a mais do que deviam. É um cinema de precisão emocional: pequeno nos gestos, devastador nos efeitos. O mais desconcertante? O filme recusa escolher lados. Não há maus, não há bons. Não há santos nem pecadores. Não há aquela satisfação moral de sairmos da sala a dizer “eu tinha razão”. Aqui, toda a gente tem um bocadinho de razão, e isso é profundamente salutar, porque nos obriga a pensar.
No fim, «Os Domingos» funciona como o melhor (ou pior) espelho possível: mostra-nos que o verdadeiro terror contemporâneo não vive em demónios nem em filmes de exorcismos, pode viver numa mesa de jantar, entre pessoas que se amam, mas que já não sabem muito bem como. E isso, admitamos, é muito mais assustador do que qualquer visão do céu ou do inferno.
Título Original: Los Domingos
Realização: Alauda Ruiz de Azúa
Elenco: Blanca Soroa, Patricia López Arnaiz, Miguel Garcés, Juan Minujín, Mabel Rivera
Origem: Espanha/França
Duração: 115 min.
Ano: 2025
Género: Drama




