Na abertura de «Nuestra Tierra» («Nossa Terra»), 2025, documentário realizado pela cineasta argentina Lucrecia Martel, podemos ver imagens do nosso planeta filmadas a partir do espaço, magníficas sequências oriundas do acervo audiovisual da NASA (National Aeronautics and Space Agency) e da ESA (European Space Agency).
Nesses breves minutos, natural será que passe pela cabeça do espectador aquilo que muitas vezes não deixa de ser um lugar-comum, mas que aqui se apresenta perfeitamente enquadrado e justificado, ou seja, a reflexão de que vista de longe a Terra parece um paraíso, mas quando nos aproximamos da sua superfície e quando pairamos sobre alguns pedaços assombrados do nosso mundo, da «Nossa Terra», as coisas não se mostram radiosas e limpas como no chamado olhar de Deus, aquele que se desfruta a milhares de quilómetros de distância e longe dos mais diversos conflitos cuja sistematização poderíamos apelidar como a História da Pulhice Humana.
De facto, depois do deslumbramento inicial, o filme vai gradual e pacificamente aproximando o seu ponto de vista das vastas regiões sul-americanas onde predominam o verde e o castanho até ao momento de viragem descendente com a ajuda de movimentos muitíssimo bem coordenados e captados por drones que nos fazem sobrevoar um recinto meio quadrado onde se joga uma partida de futebol feminino. Se nos fosse dado ouvir uma informação sobre o local onde havíamos chegado, como acontece no final de uma viagem aérea, diria que a comandante Lucrecia Martel seria a primeira a dar as boas-vindas a uma região habitada pela comunidade dos Chuschagasta (Norte da Argentina).

Mas o lado pacífico desta “aterragem” não ignora a matéria primordial do projecto que lhe ocupou catorze anos de vida. Trata-se do grave incidente protagonizado pelo empresário Dario Amín, ocorrido em Outubro de 2009, na prática um crime que resultou na morte do cacique Javier Chocobar no decorrer de uma incursão violenta e de grande agressividade letal e verbal em que o assassino se fez acompanhar por dois associados de um alegado empreendimento mineiro. Este confronto e a morte do líder indígena acabaram por ser registados em vídeo.
Todos, empresário e cúmplices, iam mobilizados para exigir a retirada dos homens e mulheres da referida comunidade, populações que ali se encontravam a viver há já longos anos. Na verdade, muitos dos seus antepassados já lá estavam ou para ali foram na altura em que a Argentina ainda era uma colónia do Império Espanhol. Famílias inteiras cujos membros, na sua larga maioria, nunca conheceram outros horizontes que não fossem os delimitados pelas cordilheiras e vales que sempre os encerraram naquele espaço natural de agradável beleza, mas agreste para se ganhar a vida. Seja como for, era o deles e o dos seus antepassados. Mesmo quando saíam e de certo modo se afastavam das suas raízes, sobretudo nos anos de maior fulgor peronista face a oportunidades laborais mais favoráveis na grande capital, Buenos Aires, nunca deixaram de carregar consigo o sentimento de pertencer a um grupo étnico e a uma identidade própria que o colonizador e a burguesia fundiária, várias e repetidas vezes, procuraram apagar para justificar a ocupação do que alegadamente diziam ser deles (os descendentes dos europeus), baseando as suas pretensões na assinatura de contratos, muitas vezes obtidos por corrupção, e na publicação de decretos que em geral ignoravam de forma intencional a antiga presença dos Chuschagasta. Infelizmente, não foram estes povos nativos as únicas vítimas deste comportamento, e muitos exemplos se poderiam acrescentar não só no continente americano mas por esse mundo fora.
Para os devidos efeitos, após a exposição inicial que contextualiza os sombrios acontecimentos e as consequências no seio da comunidade que viu morrer um dos seus líderes, o projecto «Nossa Terra» irá dedicar especial atenção aos diversos momentos chave do processo judicial que, depois de muita pressão e ao fim de nove anos, foi aberto contra o autor e cúmplices do referido crime. Dessas sequências seleccionadas e das manobras canalhas para ilibar os culpados (e que os arguidos reproduzem com ainda maior intensidade e espírito de provocação) retira-se o asco necessário e suficiente que nos leva a pensar que só por milagre a sentença seria a que acabou por prevalecer. De facto, há um racismo social no modo como se interrogam os Chuschagasta que contrasta com a atitude mais complacente para com os representantes do funcionalismo público responsáveis pelos distúrbios mortais.

Por razões que me parecem óbvias, prefiro nada dizer sobre a conclusão do processo, salvaguardando assim o “suspense”. Mas refiro e sublinho esta questão porque na verdade o visionamento dos excertos das audiências, a audição dos depoimentos dos advogados de ambas as partes, dos autores do processo, dos arguidos e da juíza, não permitem por si só conceber de antemão qual irá ser a resolução justa para o caso.
Lucrecia Martel joga com o seu poder de cineasta para delinear uma incisiva abordagem pessoal do caso judicial e da componente histórica subjacente ao sucessivo desprezo pelos direitos das comunidades nativas. Mas vai fazê-lo sem demagogia e da melhor maneira, não investindo apenas nas incidências do processo destinado a julgar o crime (o que seria algo fastidioso de seguir, a não ser para aficionados dos meandros do direito penal) e cruzando o que se passa na sala onde supostamente se faz cumprir a lei com o retrato humano de uma comunidade de homens e mulheres que se expõem a uma luz cada vez mais viva e onde a intimidade de cada um se desvenda pouco a pouco com a naturalidade de quem nutre confiança pelos seus interlocutores.
E as grandes questões que aí se levantam, para além das pequenas e grandes histórias do quotidiano, são as perguntas que se podem e devem fazer. No fundo, o que significa a posse da TERRA? E o que define a sua propriedade? Um pedaço de papel? Neste contexto, qual o valor de se viver nela, nessa TERRA, mesmo antes de ser atribuída a nacionalidade argentina a quem já lá vivia antes da independência do que é hoje o seu país?
Naturalmente, um só filme não serve para responder a perguntas que persistem acumuladas ao longo de décadas de controvérsias, mas serve e bem para alertar as consciências e denunciar o que se passa quando a ganância se sobrepõe ao bem-estar dos povos. Porque para Dario Amín, que disparou sobre Javier Chocobar, a disputa por aquela TERRA não passa de mais um negócio. Mas para os Chuschagasta a sua TERRA constitui a base material e razão de ser da sua identidade cultural e existencial.
Por fim, uma palavra para as opções da realizadora quanto ao uso de drones. Muitos são os filmes que deles usam e abusam para obter efeitos que em geral são meramente estéticos. Da visão deste filme há, contudo, uma ideia que prevalece, a de que a sua utilização não se inscreve nesse pressuposto mais ou menos decorativo mas integra uma vontade de nos fazer sentir a dimensão da TERRA sobre a qual nos devemos concentrar, o citado espaço onde a vida e a morte se confrontaram. Mas, mesmo no plano estético, o primeiro grande movimento obtido com drone revela uma perfeita conjugação do cosmos com a escala humana: uma mota com um casal, um campo de futebol onde uma jogadora se prepara para marcar um canto, um grupo de pessoas que assiste ao jogo. Tudo bate certo! Por competência própria ou do operador? Plano magnífico obtido pela sorte que protege os audazes? Talvez. Mas há uma coisa que eu sei por experiência: num documentário onde numerosos imponderáveis podem surgir ao virar de qualquer esquina, a sorte e a competência reunidas contam, e muito. E saber aproveitar isso na montagem e na estrutura final constitui meio caminho andado para alcançar os melhores resultados.
Sem dúvida, «Nuestra Tierra» é um documentário que merece uma visão atenta e solidária…!
Título original: Nuestra Tierra
Título internacional: Our Land
Realização: Lucrecia Martel
Documentário
Duração: 123 min.
Argentina/EUA/México/França/Países Baixos/Dinamarca, 2025




