“Três Filmes, Três Países”, foi a designação dada ao ciclo de longas-metragens produzidas entre 2023 e 2025 (com a participação da produtora portuguesa Oublaum Filmes) que em boa hora podem ser vistas em sala numa iniciativa que engloba a descoberta de cinematografias habitualmente com pouca presença no circuito comercial. São elas: «La Memoria de Las Mariposas» («A Memória das Borboletas»), 2025, da peruana Tatiana Fuentes Sadowski, «Ming Tian Bi Zuo Tian Chang Jiu» («Falta Muito Para Amanhã»), 2023, do singapurense Jow Zhi Wei, e «Algo Viejo, Algo Nuevo, Algo Prestado» («Algo Novo, Algo Velho, Algo Emprestado»), 2024, do argentino Hernán Rosselli.
Primeiro, comecemos por destacar «A Memória das Borboletas», estreado a 21 de Maio. Trata-se de um documentário imerso numa interessante especulação áudio e visual, muito ao gosto de algumas obras de arte e ensaio. Na prática, constitui uma abordagem incisiva e crítica das estratégias colonialistas e da consequente exploração das riquezas da região amazónica, nomeadamente a peruana, onde os mentores do capitalismo ocidental foram buscar o sangue branco (que se misturou bastas vezes com o sangue nativo), ou seja, o látex extraído das seringueiras, a seiva utilizada no fabrico da borracha. Mas a realizadora não o faz recorrendo a um modelo de produção redutor da criatividade, como alguns documentários concebidos para o pequeno ecrã.
Para reforçar a sua clara opção pelos caminhos do melhor cinema experimental, parte de uma premissa visual, a fotografia de dois indígenas, Aredomi e Omario, que no início do Século XX habitavam na selva do Peru, lançando esse vestígio iconográfico (e fantasmático) de outras eras num exercício fílmico que se irá situar entre o passado e o presente, procurando na sua estrutura preservar a memória historicamente sustentada do que aconteceu aos dois rapazes. Memória(s) que se quer(em) preservar para o futuro. Para isso, polariza a nossa atenção na conjugação de uma certa “materialidade” das imagens documentais de cariz pessoal com a fluidez de outros materiais de arquivo, fotografias e pedaços de filme oficiais que correspondem a um olhar contaminado pelo preconceito racial. No processo, revela ainda depoimentos cujas vozes faz renascer a partir da leitura de documentação epistolar.

Por fim, não dispensa materiais filmados pela equipa no momento da rodagem e em grande medida nos locais a que aqueles dois homens e o seu povo pertenceram e de certo modo continuam a pertencer, se formos capazes de interpretar e incluir as palavras dos que sobreviveram a deploráveis condições laborais nas margens do Rio Putumayo, como prova de vida que não foi esquecida perante as cicatrizes abertas no seu corpo e alma.
Na verdade, qualquer um submetido a condições laborais de extrema violência nas plantações de borracha, como as que se viveram sob as ordens de um autêntico esclavagista como Julio César Arana (que entre 28 de Julho de 1928 e 12 de Outubro de 1929 veio a ocupar o cargo de Senador da República do Peru) não precisava deste filme para denunciar as atrocidades praticadas durante largos anos e que incluíram assassinatos em massa (ficaram para a História os crimes ainda hoje designados por Holocausto do Putumayo).
Tatiana Fuentes Sadowski quis sublinhar a importância desses relatos para salientar a urgência do pretérito acto individual de consciência humanista, neste caso, o protagonizado pelo diplomata britânico de origem irlandesa, Sir Roger Casement (1864-1916), responsável pelo relatório que indicou preto no branco os abusos e os atentados aos direitos humanos (a escravatura sistemática das famílias indígenas) praticados na Peruvian Amazon Rubber Company Ltd.

E aqui chegados, mais do que a simples memória das crueldades infligidas a Aredomi ou a Omario (e a separação dos rapazes do seu espaço vital devido à sua deslocação para a Europa, mesmo com a melhor das intenções, não deixa de ser discutível) «A Memória das Borboletas» propõe-nos uma reflexão sobre as balizas que encerram o (nosso e o deles) olhar colonial, aquele que molda o mais redutor pensamento “antropológico” mesmo quando se perfila na defesa ética da mais elementar justiça. Neste ponto de controvérsia, o documentário podia ir mais longe? Podia…! Mas o que vemos e ouvimos fica gravado na memória. Nesse campo, a aposta foi ganha. E no efémero esvoaçar das borboletas (como sabemos, seres de existência fugaz) percebemos, nas cores e na vivacidade das suas asas, a perene luminosidade que a analogia metafórica nos permite interiorizar, a saber, a importância do que neste filme se revela e do que em grande parte permaneceu na sombra por muitos e penosos anos.
No Festival de Berlim, recebeu uma Menção Especial do Prémio de Documentário e ainda o Prémio FIFRESCI (Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica).
Título original: La Memoria de Las Mariposas
Realização: Tatiana Fuentes Sadowski
Documentário
Duração: 77 min.
Portugal/Peru, 2025



