Este excelente documentário, «Newport & the Great Folk Dream», 2025, foi realizado por Robert Gordon e estruturado na montagem por Laura Jean Hocking a partir do visionamento de mais de 100 horas de material filmado pelo cineasta Murray Lerner (assim como pelos operadores George Pickow, Francis Grumman e Stanley Meredith) durante os anos de 1963 a 1966, no Newport Folk Festival (Rhode Island).
Nos seus 100 minutos de contínuo fluxo musical somos convidados para uma espécie de viagem aos dias de esperança e solidariedade que uma parte da sociedade americana acreditava ser possível estabelecer entre os folks mais diversos, uma ligação virtuosa entre povos de diferentes origens, raças, classes, modos de ser e estar na vida.
Na altura, mais que não fosse, no contexto de algumas manifestações culturalmente relevantes pairava no ar a generosa ideia de que se podia e devia partilhar causas comuns. Neste caso, era suposto que a música sustentasse e promovesse esse sonho redentor desde que se apresentasse verdadeira, genuína e representativa do panorama cultural de uma nação que englobou no seu melting pot (nem sempre por meios pacíficos) as idiossincrasias de muitas outras nações e culturas. Seria esse o “Great Folk Dream”? Existia algum ponto de contacto entre esse sonho, digamos social e musical, e o estafado sentido de ilusão subjacente ao chamado American dream? Poderiam ambos coexistir numa organização onde era muito evidente a componente política e ideológica dos seus mentores, que não estavam forçosamente alinhados com as orientações do poder em Washington?

Diz uma legenda, logo ao início, que este material esteve retido num cofre até ser recuperado para a presente obra, mas uma pequena parcela das imagens e sons já integrara um documentário de Murray Lerner, intitulado «Festival» (1967). Em «Newport & the Great Folk Dream» há de facto uma nova e sobretudo mais abrangente abordagem do que se passou e, sobretudo, dos que por lá passaram naquilo que para muitos foi a rampa de lançamento das suas carreiras. Que o diga Bob Dylan, que na época ainda era um mais ou menos complete unknown. Será ele, aliás, que mais adiante (em 1965) irá provocar a bronca eléctrica contra a prevalência do acústico (mas não foi o único), episódio que a longa-metragem “biográfica” de James Mangold referiu num remoinho ficcional que não coincide a cem por cento com a realidade dos factos.
Na verdade, e isso fica claro neste documentário, as metamorfoses sofridas pelo festival e as opções por outras sonoridades, digamos, falaciosamente mais “modernas”, começaram a agitar as mentes e acabaram por vir ao de cima durante e após a digressão americana dos Beatles (em 1964), ampliadas no quadro da consequente histeria que acompanhou o percurso do grupo britânico. Todavia, não se podem ignorar outras influências no sentido da adopção da amplificação sonora: só para citar algumas das mais importantes contribuições, a do fabuloso intérprete de blues, Howlin’ Wolf, ou a do grupo de blues-rock, na altura já com fama e proveito, The Paul Butterfield Blues Band. E, no meio disto, até a fiável e habitualmente “bem comportada” Joan Baez, no palco com a irmã Mimi e o marido desta, o activista Richard Fariña, iria dançar frenética ao som de uma acutilante canção, não por acaso a “House Unamerican Blues Activity Dream”.

Tudo muda, algumas vezes para melhor e, infelizmente, outras para pior. O que aconteceu em Newport foi mais um passo em frente, não necessariamente em falso, rumo a uma nova conjuntura que passava pela afirmação comercial associada ao business as usual da indústria discográfica que, essa sim, iria desencadear o sobressalto e a reacção crítica de pessoas como o cantor e compositor Pete Seeger ou o etnomusicólogo Alan Lomax, entre outros nomes historicamente associados aos melhores e mais sólidos valores do movimento folk, onde de forma militante defendiam um indomável espírito de liberdade e independência.
No filme dá-se um exemplo que define bem aquilo que para alguns (e com razão) se estava a perder, ou seja, quando uma guitarra acústica era usada para reunir um conjunto de pessoas ao redor de uma canção, a voz de cada um fazia-se ouvir e não era preciso mais nada, nem grandes investimentos financeiros, para que uma exibição, um concerto singular, se produzisse. Mas, a partir do momento em que a guitarra (e não só) passou a ser eléctrica, a fruição democrática ficou comprometida, porque se gerou a necessidade de adquirir sistemas completos de som, cujo preço não estava ao alcance das bolsas da maioria do povo da folk que ano após ano frequentava Newport como chão sagrado para partilhas sociais e musicais economicamente viáveis. Para além do mais, a voz humana (igualmente amplificada) já não era passível de ser partilhada num quadro igualitário como o de outrora. Enfim, estas matérias serão sempre motivo de discussão e merecem por isso a nossa melhor disponibilidade e atenção.

Este documentário, ao colocar em cima da mesa as cartas de um controverso e perene debate (sim, ele não ficou encerrado nos anos sessenta do século XX), prova que soube ler nas entrelinhas o princípio e o fim de uma visão calibrada pela utopia que, em abono da verdade, fez e ainda faz a diferença entre o que sociologicamente vale a pena guardar e o que se pode descartar.
O projecto “Newport & the Great Folk Dream” salienta as linhas programáticas iniciais, que constituíam os pilares do grande e multifacetado acontecimento musical, e suas ligações a outras grandes causas, por exemplo, a luta pela emancipação dos negros americanos e a conquista dos seus direitos civis, o apoio a iniciativas como a “Marcha Sobre Washington”, que reuniu na capital americana milhares de brancos, negros e latinos para ouvir o discurso de uma vida proferido por Martin Luther King. Precisamente, o do “I Have a Dream” a favor da igualdade racial. Na prática, um sonho maior que encaixava como uma luva no equivalente sonho de um festival de que, felizmente, uma boa parte dos espectáculos ficou registada em filme permitindo assim que a sua memória, os seus ecos e o seu inegável fulgor possam ser usufruídos pelas actuais e futuras gerações.
Por fim, deixo aqui uma pequena amostra dos nomes que podem ser vistos e ouvidos em “Newport & the Great Folk Dream”, para além dos já citados: Johnny Cash, Clarence Ashley & Doc Watson, The New Lost City Ramblers, Freedom Singers, Judy Collins, Blue Ridge Mountain Dancers, Buffy Sainte-Marie, Peter, Paul and Mary, Mississippi John Hurt, Odetta, Son House, Phil Ochs, Eck Robertson… E a lista podia seguir por mais uma página ou duas assinalando nomes de profissionais e simples amadores cujas performances são de visão obrigatória para quem gosta de música, ponto parágrafo, e não apenas de folk music, blues, cajun, bluegrass, ou outros géneros e estilos que marcaram o Newport Folk Festival.
Para já, o documentário será exibido no IndieLisboa, parte integrante da secção Indie Music.
E fica a pergunta: será que no nosso país há distribuidores interessados na sua estreia comercial? Posso estar enganado, mas aposto que vendia mais bilhetes do que muitos filmes que andam para aí a estrear.
Título original: Newport & the Great Folk Dream
Realização: Robert Gordon
Duração: 99 min.
EUA, 2025
Caixa Destaque
02 Maio 2026, Sábado, 18:00 (99′)
Culturgest, Auditório Emílio Rui Vilar
04 Maio 2026, Segunda-feira, 19:15 (99′)
Cinema São Jorge, Sala 3
Fotos: © Newport A Folk Explosion Photo by David Gahr courtesy of Rock Negatives, LLC



