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Sun Ra: Do The Impossible

«Sun Ra: Do The Impossible», 2025, de Christine Turner, integrou na PBS (Public Brodcasting Service) a programação destinada a celebrar o Black History Month. Escolha editorial que revela mais uma vez a importância da já longa série de documentários reunidos sob a chancela American Masters. 

Sun Ra, nascido Herman Poole Blount a 22 de Maio de 1914 na cidade de Birmingham (Alabama, EUA), foi, para mim e para muitos que apreciam a sua arte, uma das figuras emblemáticas e um inegável master do panorama cultural e musical afro-americano, particularmente na área do jazz e dos seus multifacetados vértices criativos.

Devido ao rápido desenvolvimento industrial entre os anos de 1881 e 1920, a cidade de Birmingham recebeu o cognome de “The Magic City” e ainda o de “The Pittsburgh of the South”. Muita da força laboral que foi alimentar o núcleo duro das suas actividades económicas viria a ser constituído por negros oriundos das regiões rurais onde as condições de vida eram mais agrestes do que nos centros urbanos, não obstante as dificuldades que vieram enfrentar e a insegurança que a fraca sindicalização agravava.

Foi neste caldo económico e social que se formou o jovem Sonny Blount que, ao demonstrar capacidades naturais no campo da música, viria a seguir os caminhos da sua vocação ampliando a sua carreira nos palcos ao deslocar-se para as grandes metrópoles como Chicago, Nova Iorque, Berkeley ou Filadélfia.

Entretanto, nos anos 50 do século XX, abandonou o seu nome de nascença a favor de um outro, Le Sony’r Ra, depois abreviado para Sun Ra, a dupla referência solar que para ele passou a ser o principal apelido, sendo quaisquer outros (incluindo o verdadeiro) considerados uma espécie de pseudónimos.

Para quem não conheça o seu percurso enquanto compositor, poeta, filósofo, activista pela paz e pelos direitos civis dos negros americanos, provavelmente as matérias presentes neste documentário serão difíceis de interpretar ou, pelo menos, de assimilar de uma só penada. Mas garanto que basta verem e ouvirem o melhor da sua obra e das suas performances (e “ver” aqui não significa apenas olhar, mas mergulhar num universo de paroxismos áudio e visuais que ele criou e coreografou para si próprio e para os membros da(s) orquestra(s) que liderou e com os quais possuía uma relação familiar de culto) para sentirem o que eu senti quando comprei há uns bons anos dois LP de free jazz intitulados “The Heliocentric Worlds of Sun Ra” (já agora, editados por uma magnífica e saudosa etiqueta independente, a ESP). Foi a primeira de muitas aquisições da sua vastíssima discografia e, como se diz no filme, calcula-se que um coleccionador que queira possuir a obra gravada e completa do mestre, seja em que suporte for (que não é o meu caso), nunca o irá conseguir.

Na verdade, Sun Ra inventou para si uma quantidade de nomes, mas igualmente uma quantidade de etiquetas, destacando-se por fim a mais duradoura, a Saturn Records. E o planeta referido não aparece ali por acaso. Penso, aqui entre nós, que Sun Ra se deliciava com a ideia de gerar nos outros a confusão sobre a sua identidade e a sua origem. Afirmava (sem se rir) que viera de Saturno e que ainda muito novo sentira uma experiência reveladora que o levara ao espaço sideral e ao dito astro celeste onde forças extraordinárias o desafiaram a prosseguir a sua paixão e vocação no domínio da produção musical. Esse “facto” iria lançar as sementes da sua opção pelos ambientes futuristas relacionados com a era espacial, as viagens siderais através das profundezas do cosmos, que ele fundiu com mitologias várias de origem africana e com maior incidência e energia (particularmente visíveis na materialidade cenográfica e no guarda-roupa) com rituais do antigo Egipto.

Mas desenganem-se os que pensam que sempre foi um homem de vanguarda que para o ser ignorava ou refutava as suas raízes e o conceito de cultura popular. De modo nenhum, e logo ao início do documentário podemos vê-lo interpretar ao piano uma versão do clássico “Over the Rainbow”, de Harold Harlen e E. Y. Harburg. Todavia, já se distingue a diferença entre a reprodução mais ou menos mecânica da canção emblemática de «The Wizard of Oz» («O Feiticeiro de Oz»), 1939, de Victor Fleming, e a sublime improvisação que nos convoca para um outro universo sonoro, como se as notas emitissem vibrações para nos fazer perceber os contornos de um novo Espaço/Tempo, o Super-Sonic Jazz.

Tal como muitos génios da grande música negra (por exemplo, Miles Davis ou John Coltrane), Sun Ra passou por metamorfoses, fruto de opções pessoais que se conjugavam com as dialécticas existenciais do momento em que foram assumidas. Depois de passar pela orquestra de Fletcher Henderson (1897-1952), que Sun Ra admirava pela disciplina imprimida mas onde a sua singularidade não se encaixou, experimentou o barrelhouse blues, o New Orleans, as big band swing, o be-bop, o hard-bop, o modal jazz, e foi pioneiro da música electrónica e experimental, assim como do uso do piano eléctrico e sintetizadores, antes de abraçar a vertente pela qual ficou mais conhecido, o free jazz performativo, ou seja, indissociável de um projecto que combinava música, poesia, dança, filosofia, e o mais que se quisesse ver e ouvir nos espectáculos da The Sun Ra Arkestra (uma das muitas designações relativamente esotéricas desta formação onde pontuavam solistas como, entre outros, Pat Patrick, Marshall Allen, Ahmed Abdullah, Cheryl Banks-Smith e Michael Ray).

Em suma, podia continuar a dar informação sobre o homem e a sua obra, e nunca mais acabava. Por isso penso que o melhor, por agora, será ficar pelo óbvio, ou seja, recomendar vivamente uma ida ao IndieLisboa para assistir a este muito interessante «Sun Ra: Do The Impossible», galáxia fílmica muito bem documentada, montada com um belo sentido do ritmo e do que vale a pena salientar na vida e obra do artista, sem gorduras desnecessárias, e com depoimentos que emprestam valor acrescentado aos materiais de arquivo reunidos. Para rematar, aqui fica uma profética frase de Sun Ra, com a qual se encerra o presente documentário: “My story is endless. It never repeats itself. I’m not part of History. I’m more a part of the Mistery”.

Título original: Sun Ra: Do The Impossible
Realização: Christine Turner
Documentário
Duração: 84 min.
EUA, 2025


02 Maio 2026, Sábado, 21:30 (84′)
Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira 

05 Maio 2026, Terça-feira, 21:45 (84′)
Cinema São Jorge, Sala 3 

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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