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Mr. Nobody Contra Putin

É na sala de aula que começa a guerra e, por isso, «Mr. Nobody Contra Putin» não é um documentário sobre bombas, mas sobre aquilo que vem antes delas. Nomeado ao Óscar de Melhor Documentário, oferece uma visão tão ou mais perigosa do que filmar trincheiras, tanques, mísseis ou destruição. Filma crianças, o que torna, paradoxalmente, este filme muito mais perturbador.

O protagonista chama-se Pavel Talankin. Pasha para os miúdos. Professor primário numa escola de Karabash, cidade mineira perdida nos Urais, mais conhecida pela poluição tóxica do que por qualquer impulso revolucionário. Não é um dissidente profissional, não é jornalista perseguido, não é um oligarca arrependido. É um professor. Um “ninguém”. E é precisamente aí que o filme acerta em cheio. Quando Vladimir Putin decidiu reforçar a chamada “educação patriótica” nas escolas após a invasão da Ucrânia, a câmara de Talankin — inicialmente destinada a registar actividades escolares banais — transformou-se numa arma involuntária: bandeiras, hinos, juramentos, marchas coreografadas. Tudo aparentemente normal. Tudo cuidadosamente filmado. Só que, à medida que o quotidiano de alunos e professores avança, percebemos que aquela escola é menos um espaço de aprendizagem e mais um laboratório ideológico. O que impressiona não é a violência explícita. É a organização, a coreografia, a naturalidade com que tudo é feito e filmado. Miúdos de dez anos a marchar com a mesma energia com que decoram a tabuada. Crianças a repetir slogans patrióticos como quem ensaia para a festa de Natal. Professores alinhados, uns por convicção, outros por medo. A escola, esse lugar onde se deveria ensinar pensamento crítico, transforma-se num centro de produção de obediência. Talankin filma com uma ironia discreta, quase melancólica. Não há narração omnisciente, não há especialistas a explicar o que já estamos a ver. Há apenas a rotina. E é na rotina que a propaganda entra. Não aos gritos ou com discursos inflamados, mas com cartazes coloridos e cerimónias “cívicas”. Entra no recreio, na sala de aula e, sobretudo, na linguagem. E quando damos por isso, já moldou gestos, silêncios e expectativas.

Ao longo do filme, a sala vai-se esvaziando. Alguns alunos desaparecem porque as famílias são mobilizadas. Outros calam-se. Outros alinham. A guerra deixa de ser um tema distante e passa a ser um destino provável. E é aqui que o documentário deixa de ser apenas sobre a Rússia, porque fala de qualquer sistema que perceba que a batalha decisiva não se trava nas fronteiras, mas nas escolas.

Formalmente, o filme é imperfeito. Há sequências longas, uma estrutura quase diarística, uma montagem que nem sempre procura o efeito “festival-friendly”. Mas essa rugosidade é precisamente o que lhe dá autenticidade. Não estamos perante um produto polido de estúdio. Estamos perante um professor que começou por cumprir ordens e acabou por resistir, filmando. Para que o filme existisse, Talankin teve de abandonar o país. O exílio paira sobre a obra sem dramatismos excessivos, mas com peso real. A coragem aqui não é abstracta. Tem consequências.

Num ano em que a categoria de documentário dos Óscares parece particularmente politizada, “Mr. Nobody Contra Putin” lembra-nos algo simples: o cinema pode ser resistência discreta. Não há explosões. Há câmaras ligadas quando deviam estar desligadas e perguntas silenciosas.

O título é irónico. “Mr. Nobody”. Um zé-ninguém. Mas a História mostra-nos que os regimes temem mais os “ninguéns” do que os heróis oficiais. Porque os heróis são previsíveis. Um professor com uma câmara, não.

No fim, o que fica não é apenas a denúncia de um regime. É o retrato de uma geração apanhada numa guerra que começou muito antes de os tanques cruzarem as fronteiras com a Ucrânia. Uma guerra pelas mentes. E essa, gostemos ou não, não acontece só na Rússia.

Título Original: Mr. Nobody Against Putin
Realização: Pavel Talankin e David Borenstein
Com: Pavel “Pasha” Talankin
Origem: Rússia / Dinamarca
Duração: 90 min.
Ano: 2025
Género: Documentário

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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