A despeito do cuidado do povo romeno por seu próprio património histórico simbólico, a Universal Pictures, nos anos 1930, converteu uma lenda daquele país, o conde Vlad Tepes Draculea (1431-1476), da Valáquia, num monstro, à força da releitura que Tod Browning (1880-1962) fez dos seus supostos feitos (e as suas idealizadas peripécias como morto-vivo) apoiado na composição soturna de Bela Lugosi (1882-1956). Tepes saiu da História para se transformar numa lenda na interpretação de linha ultrarromântica do seu legado feita por Bram Stoker (1847-1912), no romance “Drácula”, de 1897. Se de um lado ele carrega algo de feral, de bicho sanguinolento, de outro, arrasta uma carga trágica, no fardo de durar para todo o sempre, numa angústia de benquerer. A ausência da sua amada faz dele uma monstruosidade que ama e se agrilhoa no luto da paixão perdida. Foi Francis Ford Coppola quem primeiro explorou essa natureza de amargura sentimental ao levá-lo às telas, em 1992, como um épico romântico sombrio, com Gary Oldman e Winona Ryder a se engalfinharem sentimentalmente num interdito afetivo. É esse o veio retomado pelo francês Luc Besson em «Dracula: A Love Tale», superprodução de US$ 40 milhões da sua produtora EuropaCorp. O diferencial da sua abordagem para os escritos de Stoker é investigar situações do seu protagonista que não eram conhecidas pelo público.
Há uma centelha de «Game of Thrones» na forma como Besson (um artesão autoral que virou uma “marca” na década de 1980 com «Subway» e seu “Cinéma du Look”) conduz os combates de Tepes (vivido por um inspirado Caleb Landry Jones) para exterminar o avanço Otomano na Europa. O que se vê é reinvenção das Cruzadas que culminam num ataque traiçoeiro à mulher do nobre, Elisabeta, vivida por Zoë Bleu. Como Deus não é capaz de salvá-la, Tepes renega a fé no Altíssimo e abraça o Inferno, em busca de poderes que lhe permitam reencontrar o objeto de seu afeto, numa crença na reencarnação.
Vemos factos desconhecidos para o fã-clube de Stoker, como a feitura de um perfume capaz de hipnotizar potenciais vítimas cujas jugulares Tepes… agora encaixado na alcunha de Drácula… há de morder. As mordidas matam a sua sede, mas não aquietam o seu miocárdio. Quando o seu castelo é visitado por um corretor de imóveis, anos depois, já nas raias da Modernidade, o aristocrata da Roménia detecta nas posses da sua nova presa um retrato que evoca Elisabeta. Vem daí seu desejo de viajar Velho Mundo adentro em busca da jovem.
Nessa retomada de Stoker, Besson transforma elementos tratados historicamente por um viés místico, de fantasia, com realismo, sob uma justificativa científica. Converte a imagem de Van Helsing, o caçador de bestas, num sacerdote, o Padre, papel de um visceral Christoph Waltz. É ele quem vai acentuar a linha barroca dessa dramaturgia, numa antítese entre fé e razão.
Com um vigor similar ao que demonstrou em sua obra-prima, «Léon, O Profissional», de 1994, Besson conta com a cinematografia em estado de graça do fotógrafo Colin Wandersman para criar um espetáculo visualmente sumptuoso.
Danny Elfman realça essa espetacularização do bom e velho Drácula numa banda sonora lívida.
Título original: Dracula: A Love Tale
Realização: Luc Besson Elenco: Caleb Landry Jones, Christoph Waltz, Zoë Bleu, Matilda De Angelis, Ewens Abid, Guillaume de Tonquédec
Duração: 129 min.
França, 2025
foto: © PHOTO SHANNA BESSON © 2025 LBP – EUROPACORP – TF1 FILMS PRODUCTION – SND




