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Crítica A Colheita – estreia Filmin

Athina Rachel Tsangari [«Attenberg» (2010)] regressa ao grande ecrã com «Colheita» («Harvest») e, aviso já, não é um filme para estômagos frágeis nem para fãs de cinema ‘quentinho’ que acaba bem. É um faroeste pastoral niilista, tão estranho que faz os filmes do Lanthimos parecerem matinés familiares. Baseado no romance de Jim Crace, o filme acompanha, em sete dias, a lenta e dolorosa destruição de uma aldeia isolada, sem explosões, sem reviravoltas dignas de um thriller, mas com acusações de bruxaria, disputas de terra e uma sensação constante de que ninguém vai sair dali inteiro.

Logo na abertura, Tsangari avisa ao que vem: uma mão ergue-se do trigo como quem pede socorro. Línguas lambem pedras (porque copos são para fracos). Caleb Landry Jones desfila uma capa azul que parece cosplay de samurai renascentista, tudo ao som de rock progressivo romeno. É o tipo de cinema que tanto pode provocar fascínio místico como um ataque de riso nervoso.

O elenco mistura habitantes locais da Escócia com nomes conhecidos: Harry Melling, por exemplo, que já não é o simpático primo do Harry Potter, mas sim alguém que parece pronto para cometer um crime a cada plano. Caleb Landry Jones encarna um protagonista trágico, frágil, que nos apetece abraçar… e empurrar dali para fora antes que seja tarde demais. A fotografia é de tal forma cuidada que a lama brilha como pintura a óleo e o trigo ganha um erotismo esquisito.

Comparações com «Midsommar – O Ritual», de Ari Ester, são inevitáveis, mas aqui não há florzinhas nem festivais de coroa na cabeça: há lama, suor, vento e uma paisagem tão bonita quanto ameaçadora. É folk horror na versão punk, sem filtro, sem verniz e com cheiro a terra molhada. O design sonoro, assinado por Nicolas Becker («Sound of Metal»), transforma cada grão de terra e cada sopro de vento numa experiência física, quase táctil.

E, como não podia deixar de ser, há a política. Tsangari não poupa recados: o cinema grego está a definhar, sem apoio estatal, sobrevivendo graças a produtores resilientes como Christos V. Konstantakopoulos. Enquanto Hollywood despeja milhões para filmar explosões turísticas, as histórias sobre comunidades reais, filmadas na lama, lutam para existir.

“Colheita” não é filme de domingo à noite, nem uma matiné com pipocas. É um murro estético e sensorial que nos olha nos olhos e pergunta: ‘Então, aguentas?’ É desconfortável, exigente e lindíssimo. Para uns, será um suplício; para outros, um daqueles raros filmes que nos lembram que o cinema não serve para adormecer, mas para abanar. E este abana, com vento, lama, trigo e uma boa dose de insanidade controlada.

Título Original: Harvest Realização: Athina Rachel Tsangari Com: Caleb Landry Jones, Harry Melling, Rosy McEwen, Arinzé Kene, Thalissa Teixeira Origem: Reino Unido/Alemanha/França/Grécia/EUA Duração: 131 minutos Ano: 2024 Género: Drama

[Crítica originalmente publicada na Revista Metropolis 121, Agosto 2025]

José Vieira Mendes
José Vieira Mendes
Jornalista, crítico de cinema, programador, fotógrafo e realizador. Licenciado em Comunicação Social e pós-graduado em Produção de Televisão pelo ISCSP – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, desenvolve, há mais de três décadas, uma atividade contínua nas áreas do jornalismo cultural, programação cinematográfica e realização audiovisual. Foi diretor da revista PREMIERE – A Revista de Cinema entre 1999 e 2008, desempenhando um papel relevante na divulgação e reflexão crítica sobre cinema em Portugal. Colaborou com diversos meios de comunicação social, incluindo a Visão, o Jornal de Letras e o suplemento Final Cut/Visão JL. Atualmente, escreve crónicas e artigos de cinema e televisão num regresso à revista Visão, é Editor Sénior da revista online MHD – Magazine.HD, colaborador da revista Metropolis, onde publica regularmente críticas, ensaios e artigos sobre cinema e cultura contemporânea. Desenvolve também o projeto autoral Imagens de Fundo, ma plataforma Substack, dedicado à reflexão crítica e ensaística. Na área televisiva, foi apresentador do programa Noites de Cinema (RTP Memória) e comentador em programas informativos da RTP, nomeadamente no Bom Dia Portugal. Foi igualmente comentador da cerimónia dos Óscares na TVI durante doze anos. Enquanto realizador, assinou diversos documentários, entre os quais Gerações Curtas!? (2012), Ó Pai, O Que É a Crise? (2012), As Memórias Não Se Apagam (2014), Mar Urbano Lisboa (2019) e Concentrados – Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira 1916–1919 (2023). Desenvolve, paralelamente, uma atividade regular como programador, tendo sido responsável por ciclos e mostras de cinema nacionais e internacionais, incluindo Pontes para Istambul (2010), Turkey: The Missing Star Lisbon (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), Mostra de Cinema Dominicano (2014) e o projeto Cine Atlântico (Açores), desde 2016. Entre 2012 e 2019, foi Diretor de Programação do Cine’Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, contribuindo para a sua consolidação e projeção. A sua atividade inclui ainda reportagens escritas em festivais internacionais de cinema e um amplo trabalho fotográfico, com obras integradas no acervo do Arquivo Municipal de Lisboa – Fotográfico. É membro da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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