Benjamin Voisin e Rebecca Marder são os protagonistas da adaptação de François Ozon.
Publicado em 1942, «O Estrangeiro», primeiro romance de Albert Camus, viria a tornar-se uma referência da literatura francesa do século XX, de estudo obrigatório no país. Além das qualidades literárias do romance, em torno da personagem icónica de Meursault, um homem condenado por matar um árabe na então Argélia francesa, e que vinha mantendo uma relação distante com uma mulher que conhece na praia, ao mesmo tempo que enfrenta a morte da mãe, o livro surge na fase final do colonialismo francês e Camus seria criticado à esquerda e à direita, pela sua defesa de uma solução federativa para o território, onde nascera em 1913. Falecido prematuramente, aos 46 anos, já não assistiu à primeira versão cinematográfica do romance, assinada por Luchino Visconti, longe das grandes obras-primas do realizador italiano. O cinema turco produziria uma versão local em 2001, «Yazgi», mas apesar da estreia em Cannes não teria grande repercussão internacional. A possibilidade de nova adaptação ao cinema surge finalmente em 2025, com o prestigiado realizador francês François Ozon a levar o seu «O Estrangeiro» ao Festival de Veneza. Benjamin Voisin e Rebecca Marder retomam as personagens que Visconti entregara a Marcello Mastroianni e Anna Karina. Fomos a Paris conversar com os jovens atores.
Benjamin Voisin: “Sou ator para me compreender melhor”
Completando 30 anos no final deste ano, Benjamin Voisin foi revelado por François Ozon, ainda adolescente, como um dos dois rapazes apaixonados de «Verão de 85». Vencedor do César de Melhor Esperança Masculina por «Ilusões Perdidas», continuaria a carreira em filmes como «Les Âmes Soeurs» ou «Brincar com o Fogo». A sua sensualidade no preto e branco de «O Estrangeiro» não deixa dúvidas quanto às razões da escolha de Ozon.
O François Ozon já disse que o Benjamin era muito bonito a preto e branco mas feio quando filmado a cores…
Benjamin Voisin: Acho que o François perdeu visão.Falta-lhe lucidez.Sim, eu sei, ele disse-me. Disse-mo uma vez e depois disse-o a toda a gente. Mas abrincar, na verdade. Éum amigo.
A ideia de voltar a fazer um filme com ele já existia há algum tempo?
Benjamin Voisin: Não há muito tempo, mas nunca perdemos o contacto.
Começou a sua carreira aos 16 anos. Foi uma revelação, ser ator?
Benjamin Voisin: Eu não sabia o que fazer da minha vida. Experimentei tudo o que havia na minha família. E no meio disso estava o meu pai, que dava aulas de teatro. Experimentei e apaixonei-me perdidamente pela minha professora de teatro.
Foi por isso que decidiu continuar?
Benjamin Voisin: Percebi que a minha professora de teatro não era o que importava. O que era interessante era trazer um pouco de sonho às pessoas que trabalham o dia inteiro e que têm a oportunidade de ir ao cinema ou ao teatro à noite para ver alguém representar. Depois entrei no cinema e aí a carreira tornou-se mais egoísta.
Hoje, para si, a carreira é uma vocação ou um prazer?
Benjamin Voisin: É o meu trabalho. Evidentemente que é preciso ser narcisista para poder ser visto pelas pessoas, e ser pago por isso. Mas aquilo de que eu gosto é de trabalhar. Ao mesmo tempo, o trabalho vem de mim. Tenho de passar muito tempo comigo próprio, portanto tenho de ser egoísta.

A personagem de Meursault exigie uma enorme contenção. Como é que foi o trabalho com o Ozon?
Benjamin Voisin: Difícil. Difícil porque é preciso ter outra intimidade. Demora tempo até o cérebro se habituar a dizer-te: cala-te. O que é preciso é deixar de ter os reflexos. É deixar de ter vontade. Na altura, isso levou-me quatro meses. E ao fim de quatro meses, quando cheguei às filmagens, não queria saber de nada. Da rodagem, do Meursault. E o Ozon disse-me: «Perfeito. Fica assim. Vamos fazer o filme e depois voltas ao normal.»
Pode falar um pouco da química entre si e a Rebecca?
Benjamin Voisin: Não muito, porque, francamente, foi o François que a dirigiu. Eu acho a relação bonita no final, mas, no momento das filmagens, eu não estava muito com os outros atores. Estava no meu mundo. Olhava para o céu, para os pássaros, para as pessoas que não fazem esta profissão. Os atores eram muito difíceis para mim. E no entanto adoro a Rebecca, adoro o Pierre Lottin, o Denis Lavant é um dos meus atores preferidos.
Depois de fazer o filme identifica-se com a personagem?
Benjamin Voisin: Há coisas em que concordo com ele. Mas não mais do que antes. Tenho dificuldade em pôr emoções em palavras. Interrogo-me pouco sobre as grandes questões da vida. Interrogo-me mais sobre o efeito que uma frase me provoca, sobre um momento em que vejo qualquer coisa. Tenho mais facilidade em dizer coisas concretas. Tudo o que é da ordem do sentimento, tenho dificuldade em explicar. Mas diverte-me fazê-lo. A ele não o diverte. Aí acaba a semelhança entre o Meursault e eu. Ele acha que o jogo social não vale a pena e que a condenação de termos de morrer é maior. Eu prefiro brincar um pouco enquanto estamos cá. Portanto estou bastante no oposto do Meursault.
Qual foi a sua impressão quando leu o livro pela primeira vez, imagino que na escola?
Benjamin Voisin: Não foi “tenho de o ler porque sou obrigado”. Eu gostava muito de ler naquela altura. Mas houve uma incompreensão, precisamente por causa disso. O que eu acho bom no livro é que é como um encontro marcado. Tenho a impressão de que toda a gente o lê de dez em dez anos. Como é curto, não é um grande volume, e é muito filosófico sendo ao mesmo tempo fácil de compreender — não é Nietzsche, não é Goethe — é fácil voltar a ele. Gosto disso.
Conhecendo bem o livro, como viu a adaptação do François Ozon?
Benjamin Voisin: Gosto que o François tenha feito uma adaptação que não é linear, página por página. Que seja outro objeto. O objetivo não é fazer a adaptação. É completar. Trazer um ponto de vista feminino. Trazer uma sensualidade que não está nas palavras. Trazer um toque, uma maneira de olhar que não está no texto. Se tivesse sido página a página, nem o François nem eu o teríamos feito, penso eu. Quando começamos com a frase «matei um árabe», em vez de «hoje a mãe morreu», isso cria um eco com o presente. Achei tudo isso interessante.

Também fez teatro. Qual é a diferença, para si, entre cinema e teatro?
Benjamin Voisin: A diferença é que, no teatro, no fundo, o ator tem todo o poder. o pano sobe, acabou. Se eu quiser ir para ali ou para acolá, faço o que quiser. No cinema, se o François não quiser usar um plano, não o usa. Há muito mais questionamento em relação ao desejo do outro, do realizador.
O facto do filme ser a preto e branco mudou alguma coisa no seu trabalho de ator?
Benjamin Voisin: Um pouco. Porque a luz, a preto e branco, não é difundida da mesma forma. E eu acho que o sol é uma das personagens principais do livro e do filme. Então tinha sempre luz nos olhos, estava quase cego. E ainda por cima tinha de me perder nos meus pensamentos. Mas foi bom ter aquela luz sempre sobre mim. E depois, quando vi o filme, percebi que o preto e branco também ajuda à introspeção do personagem. Ficamos comigo. Vi o filme também a cores. Aí estamos mais na paisagem. Aqui estamos mesmo com o Meursault. Colados a ele.
O trabalho do ator baseia-se muitas vezes no desejo, de transmitir, de se expor. Sente também isso?
Benjamin Voisin: Desejo… Essa é uma grande pergunta. No fundo, acho que é para me compreender melhor a mim próprio. O desejo de explorar muitas coisas e compreender-me melhor. Depois vem o prazer de ser outra pessoa. Porque é extraordinário, numa vida, poder ter 25 intimidades diferentes, enquanto a maior parte das pessoas só tem uma. E depois também tentar oferecer às pessoas uma pequena porta de saída deste mundo tão concreto. Sonhar, imaginar… E acho que hoje falta um pouco de poesia no mundo.
Tem trabalhado com realizadores como Ozon, Téchiné, Giannoli…
Benjamin Voisin: Mas não sou eu que os escolho. São eles que me escolhem. Para mim isso é sorte: corresponder ao sonho deles. É magnífico. Sou o primeiro a agradecer-lhes. Mas é preciso trabalhar muito. Quem não trabalha não dura muito tempo. Mesmo que tenha bons encontros, não dura. Mas também vi pessoas trabalhar normalmente e nunca encontrar ninguém. Portanto há sorte. E trabalho. É um pouco dos dois.
Este é um bom momento para um jovem ator no cinema francês?
Benjamin Voisin: Sim! Há muitas coisas para fazer aqui. Isso é certo. É divertido. Talvez até haja filmes a mais, às vezes…

Falou-se muito de si também por causa de «Brincar com o Fogo». É um filme mais político. O cinema pode participar nesse debate?
Benjamin Voisin: Eu tentei fazê-lo. Há muitas pessoas que votam nos extremos. E, em vez de as diabolizar ou apontar o dedo, o que me interessa é compreendê-las. Se compreendermos a pessoa, podemos avançar. É isso que faz a psicanálise. E acho que o ator também tem essa função. Não faço muitos filmes políticos, mas neste caso achei que o tema fazia sentido hoje. Disse que só fazia o filme se humanizássemos a personagem. Se fosse apenas um jovem fascista violento, não me interessava.
Tem uma visão da sua carreira futura? Há coisas que quer ou não quer fazer?
Benjamin Voisin: Sim. A única regra é não repetir o que já fiz. Tento ir para coisas diferentes. Os próximos filmes são bastante diferentes. Não me quero aborrecer, nem aborrecer o público. Fico louco com atores que fazem sempre o mesmo papel a vida inteira. Não percebo como conseguem. Claro que há o lado financeiro. Mas tive sorte nos encontros e posso alternar.
Na sua família estão contentes então com o que tem feito, imagino.
Benjamin Voisin: Sim, o pai está feliz. Agora já não há a angústia de «o que é que este miúdo vai fazer da vida». Até sou o irmão mais velho exemplar. Quem diria? Tudo muda. Sou eu que dou os maiores presentes no Natal. E tenho a sorte de ter pessoas que me fazem manter os pés na terra quando é preciso.

Rebecca Marder: “Fiquei arrebatada quando voltei a ler o livro”
Nasceu em Paris em 1995 e tem já uma carreira com três dezenas de títulos. Foi Simone Veil no seu período de juventude em «Simone – A Viagem do Século» e já trabalhara com François Ozon, na comédia negra «O Crime é Meu». Rebecca Marder é a Marie Cardona da nova adaptação de «O Estrangeiro».
Foi uma surpresa receber o convite para este papel?
Rebecca Marder: Sim, foi uma verdadeira surpresa, porque foi a primeira vez que me ofereceram um papel de feminilidade absoluta. É verdade que a Marie, no romance, é descrita um pouco como uma figura. É descrita fisicamente. Ele diz que é um raio de sol, a chama do desejo. Mas não sabemos realmente quem ela é. Tirando isso — e o facto de ser datilógrafa, sabemos muito pouco sobre a Marie. Fiquei feliz por o François me oferecer uma parte de feminilidade que ainda não tinha explorado no cinema.
Já tinha trabalhado antes com o François Ozon…
Rebecca Marder: Até agora tinham-me oferecido papéis de mulheres muito empenhadas, e isso é uma sorte, estou verdadeiramente honrada por isso. Mas havia uma espécie de fio condutor entre os meus papéis: mulheres em luta, ou então mulheres de intelectuais, ou mulheres políticas… Com o François, já tinha interpretado uma advogada feminista. E aqui a Marie é a amante de um amor não correspondido.
Imagino que tenha lido o romance….
Rebecca Marder: Sim, em França lê-se no colégio. Eu tinha uma lembrança de adolescente. Na altura não tinha compreendido tudo, não tinha todas as chaves. E ainda hoje não as tenho todas. Mas, como acontece com as obras-primas, aconselham a lê-las em todas as idades da vida. Ou pelo menos dizem que é bom reler Proust e Camus de dez em dez anos.
Agora, quando releu o livro, o que mudou na sua perceção?
Rebecca Marder: Acho que Camus ajuda a viver. Eu tinha uma lembrança quase carnal dessa leitura. Recordava a luz, o calor, aqueles momentos íntimos que me tinham marcado muito. Mas não tinha uma memória muito clara. Quando o reli, por causa do filme, fiquei arrebatada. Senti-me com sorte por voltar a mergulhar, até em toda a obra de Camus. Porque ele está sempre atual, mas hoje talvez mais do que nunca: com o absurdo, tenho a impressão de que estamos completamente mergulhados nele.
Sentiu o peso da responsabilidade?
Rebecca Marder: Sim, porque a obra pertence um pouco a toda a gente. É uma obra patrimonial. E quando o François anunciou que ia fazer o filme, as pessoas diziam: «Ah, é o meu livro preferido!» Portanto isso assusta. Sobretudo porque tem a reputação de ser impossível de adaptar, porque abre tantos abismos e tantas questões. E depois toda a gente tem a sua própria visão do Meursault. O Meursault nem sequer é descrito; nem tem nome próprio. E «o estrangeiro» pode ser você, posso ser eu…

Foi diferente ser filmada a preto e branco?
Rebecca Marder: O preto e branco do filme é magnífico. E a forma, o ponto de vista com que o François abordou a história. Como espectadora, quando vi o filme, senti que saímos dele com muitas perguntas e poucas respostas. E isso é bom. Eu gosto disso. Hoje em dia estamos habituados a receber imagens já todas mastigadas, e aqui sinto que o espectador não é tratado como um idiota.
O preto e branco transmite uma enorme sensualidade ao filme…
Rebecca Marder: Parece que ficamos mais bonitos a preto e branco. E nas cenas na água gelada, acho que teríamos ficado azuis se fosse a cores, o Benjamin e eu. Mas sim, a sensualidade… pelo menos para mim, ajudou-me saber que seria em preto e branco.
As cenas de intimidade são filmadas com muito bom gosto, sem perder o seu lado mais gráfico…
Rebecca Marder: Eu nunca tinha filmado cenas ditas de intimidade. Quer dizer, já tinha filmado cenas de amor, mas nunca tantas, nunca tão despida. Mas estava completamente confiante. Primeiro porque era o François, e eu sabia que ele iria filmar aquilo de forma pudica e bela.
Tiveram uma coordenadora de intimidade?
Rebecca Marder: Sim, havia uma.
Qual é a sua opinião em relação a este novo cargo no cinema?
Rebecca Marder: Não sei se devo dizer isto, mas para mim é um pouco complicado. Acho muito importante que essa profissão exista. Penso que em certas situações é realmente positivo e benéfico para os filmes e para os atores. Mas às vezes sinto que coloca demasiado foco em cenas que, para mim, são cenas como as outras. Tenho a impressão de que isso acaba por tornar o ator ainda mais estúpido do que já é. Como se confundíssemos tudo.
No fundo, o corpo é também uma das ferramentas do ator…
Rebecca Marder: É verdade que esta profissão é estranha. É estranho representar com sentimentos e com os nossos próprios corpos. Dizer a nós mesmos que vamos conhecer vários corpos, vários lábios ao longo de uma vida, mesmo tendo parceiros na vida real. Não é uma coisa banal, e pode derrapar. Acho que já derrapou demasiadas vezes. Portanto é muito bom que tudo isso seja enquadrado, nisso sou totalmente a favor. Mas também me stressa um pouco, porque sinto que há alguém a observar e à espera que algo aconteça. «Ah, ele não pôs a mão no sítio certo…»
Sente que essas cenas perdem em naturalidade, quando são demasiado coreografadas?
Rebecca Marder: Eu também preciso de um pequeno grau de perturbação, mesmo sem confundir as coisas. Esse ligeiro desconforto também me serve para o jogo de atriz. E então sinto que é bom que as coisas sejam coreografadas, mas também cria uma ambiguidade para mim. Porque, para mim, é trabalho. Eu esquecia até que o meu parceiro tem sexo. Para mim ele é assexuado. E de repente isso faz-me lembrar.
E há também a questão da confiança no realizador.
Rebecca Marder: Claro que há confiança no realizador. Mas também penso que existem realizadores ou realizadoras em quem não se pode confiar. Portanto é bom que esse sistema exista. Mas às vezes sinto que me infantiliza um pouco. Como se me dissessem que eu não sei fazer a diferença.

O Benjamin Voisin teve um método um pouco particular de trabalhar a sua personagem. Como é que criaram a química entre os dois?
Rebecca Marder: Foi uma das rodagens mais solitárias da minha vida. Porque acho que não é indiferente interpretar o Meursault. Ele estava realmente fechado na sua pequena bolha de concentração. E eu respeito isso, cada um tem o seu método. Mas foi surpreendente para mim. Ao mesmo tempo, isso mergulhou-me ainda mais na minha personagem. Mas praticamente não tivemos contacto nenhum.
Como é que decorreram as filmagens?
Rebecca Marder: Estávamos em Tânger. Filmámos a Argélia em Marrocos, porque não podíamos filmar na Argélia por razões políticas. Portanto estávamos longe de casa. Normalmente as filmagens no estrangeiro parecem um pouco uma colónia de férias: estamos longe de casa, convivemos muito. E ainda por cima tínhamos a mesma idade, por isso pensei que fosse assim. Mas ele estava muito fechado em si.
Entrou muito jovem na Comédie Française…
Rebecca Marder: Sim, foi um presente incrível. Passei sete anos na companhia e saí há dois. Acho que me disciplinou imenso, deu-me muita resistência. Às vezes somos levados a representar quatro peças ao mesmo tempo, seis vezes por semana. É muito físico, muito atlético. Ensinou-me a ver este ofício como um trabalho de artesão. Formou-me muito. Aprendi imenso, sentia que estava sempre a ser puxada para cima. Há atores de todas as gerações. E existe uma exigência enorme. Representamos textos que talvez não representássemos em mais lado nenhum. Estou muito grata. Foi extraordinário.

Para quem vem de fora de França, a Comédie Française é quase uma marca. O que representa para um ator francês?
Rebecca Marder: Eu nunca imaginei que um dia entraria lá. Para mim fazia parte do imaginário do teatro. Eu tinha feito uma escola de teatro, por isso esperava fazer teatro, mas nunca pensei que entraria numa companhia onde ficaria sete anos. E é uma companhia ancestral. Quando estamos lá sentimos quase ondas místicas. Todos os fantasmas das pessoas que passaram por ali, que pisaram aquele palco, aqueles corredores… é incrível. Em França é património, como Camus.
Ser atriz sempre foi o seu sonho?
Rebecca Marder: Sim. Quando era criança e adolescente, não assumia totalmente isso. Tinha a impressão de que era apenas um sonho e que também precisava de encontrar uma profissão séria. É uma profissão tão aleatória e difícil… há poucos escolhidos para muita gente que sonha com isso. Quando era pequena queria ser talhante e atriz, florista e atriz, estilista e atriz… Depois, quando entrei na Escola Nacional de Teatro, disse a mim mesma: vou assumir que é isto que quero fazer. E avancei.
A Rebecca já disse um dia que tinha o sonho de adaptar o único romance da Sylvia Plath…
Rebecca Marder: Sim, mas é impossível conseguir os direitos. Acho que é a filha que os tem. Ela teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Um deles também se suicidou. Horrível. E acho que o filho que resta não concede os direitos. Mas adoro esse romance. Acho-o magnífico. Ela escreveu-o aos 20 anos. É realmente muito bonito.
Isso quer dizer que tem outras ambições além da representação?
Sim, claro. Gostaria muito de escrever e realizar. Aliás, era isso que queria fazer inicialmente. Mas depois, quando entrei na Comédie Française, estava numa roda enorme de trabalho e deixei-me levar por tudo o que tinha de fazer. Quando saí da companhia pensei que teria mais tempo e que gostaria de voltar a escrever e pensar em realizar. Entretanto também encontrei tempo para escrever canções para o grupo Feu! Chatterton. Mas ainda não gravámos nada.
Para terminar literalmente em beleza a nossa conversa, o François Ozon disse que quando a vê no filme em fato de banho branco se lembra da Elizabeth Taylor em «Bruscamente no Verão Passado»…
Rebecca Marder: É um filme magnífico. Ele é simpático. É o preto e branco que provoca essa associação. Mas é um belo elogio.
Fotos:
Leonidas Arvanitis © Foz – Gaumont – France 2 Cinema – Macassar Productions
Carole Bethuel © Foz – Gaumont – France 2 Cinema – Macassar Productions




