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Entroncamento – Pedro Cabeleira em entrevista

«Entroncamento» é um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos. Este soco no estômago foi dirigido por Pedro Cabeleira, um cineasta que se inspirou no local onde cresceu, nos arredores de Lisboa. O Entroncamento é uma espécie de cidade de fronteira que separa a metrópole da província, é um local de várias confluências (humanas e urbanas). É nesta colisão que Pedro Cabeleira e Diogo Figueira criaram um poderoso retrato pleno de humanidade e simultaneamente um thriller desenrolado no mundo do crime. De um lado, temos personagens que tentam sobreviver a um vórtice que as arrasta para o crime e, do outro lado, personagens que só sabem (sobre)viver nesse prisma. A protagonista principal é interpretada por Ana Vilaça, uma figura que tem a força de uma senhora dos dragões; ela ascende do Norte e traz consigo marcas na alma e no corpo de um bairro ultraviolento no Porto. Ela tenta seguir o seu rumo de honestidade, mas começa a impor-se como um poder na sombra entre a arraia-miúda  que se acham os senhores do crime. Quando todos pensam que estão a manipulá-la – por ser mulher –, é ela que manipula tudo e todos. Há outras histórias paralelas que se entrosam de forma orgânica e envolvente para os espectadores.

O filme é viciante e um chuto de adrenalina pleno de realismo e sólidas performances. Os mais cínicos dirão que é mais uma história dos coitadinhos dos bairros empobrecidos, mas infelizmente este é um mundo bem real e (infelizmente) universal. Pedro Cabeleira não só tirou um retrato perfeito a 360º dos condicionalismos socioeconómicos e raciais que definem as populações destes subúrbios como soube também relatar uma crime story com uma fascinante personagem feminina num cruzamento de histórias com um travo real.

Como é que surgiu a sua paixão pelo cinema?

Pedro Cabeleira: Sim, acho que alguma coisa aconteceu em várias fases, mas a primeira que é muito evidente foi quando eu fui ver o «O Senhor dos Anéis» ao cinema. Quando tinha 9 anos. E foi uma experiência que para mim foi transformadora.

Como é que surgiu a génese do filme «Entroncamento»?

Pedro Cabeleira: Estava a terminar ainda o «Verão Danado» [2017]. E tinha um amigo meu do Entroncamento que fazia rap. E ele convidou-me para ir lá filmar um videoclip. Voltei a cruzar-me com as ruas onde tinha crescido. A filmar pessoas com as quais eu tinha crescido. E a partir daí, pareceu-me que tinha lá material para fazer um filme.

Como é que foi a criação do argumento a duas mãos com o Diogo Figueira?

Pedro Cabeleira: Eu e o Diogo já trabalhamos juntos há muito tempo. Basicamente, foi um trabalho colaborativo de discussão da estrutura e dos personagens, até chegar a uma fase em que as coisas evoluíram em um estilo de pingue-pongue entre nós. Eu vou fazendo algumas versões, depois passo para ele, ele escreve por cima, depois passa dele para mim. Depois temos fases em que estamos os dois juntos em reuniões e vamos escrevendo as coisas em conjunto.

Como é que foi a pesquisa para obter o refinamento nos diálogos?

Pedro Cabeleira: No fundo, não foi preciso uma grande pesquisa, porque eu sou de lá. Eu conheço muito bem o calão. E grande parte dos atores não profissionais. Portanto, estavam em casa, por assim dizer, na maneira como falavam. Os diálogos refletem muito a maneira como falam e as expressões que utilizam. Havia atores que não dominavam tanto o calão e que foram buscar expressões ao argumento. Além disso, havia outros atores que conhecem muito bem a realidade, como o Tiago Costa, que interpreta o personagem Fama. E, por exemplo, ele está completamente à vontade, tem um domínio muito distante do calão. Não houve um grande trabalho de pesquisa, foi só mais dar liberdade às pessoas e enturmá-las dentro do que era aquela cidade e aquele universo.

Poderia falar do processo de criar algo tão real e, ao mesmo tempo, um poderoso thriller dramático. Como é que foi esse equilíbrio?

Pedro Cabeleira: Queria que o filme tivesse a sensação de autenticidade e de realidade. Mas acho que, ao mesmo tempo, eu gosto do cinema enquanto experiência. E acho que o lado mais de género, se quisermos chamar assim, saiu de uma forma orgânica, não estou a pensar se é mais um thriller. E está relacionado com a ideia de experiência e com a ideia de sons, com a ideia de imersão, com a ideia de usar a música, de sensações. com a imagem, o escuro da noite. Essas coisas deram um tom mais de thriller ou mais estilizado. E depois caiu na atmosfera e a sensação que a cidade tinha, aquela ideia de isolação, de vazio à noite, a ideia de ruas vazias, de espaços que não são muito habitados. E talvez isso tudo passe para essa sensação mais de género. Mas depois a ideia é manter sempre uma coisa muito autêntica nos atores, nos diálogos, até nas próprias situações.

Algo que achei muito positivo no filme foi o seu equilíbrio e a sua honestidade. Não houve nenhuma tentação de maniqueísmo ou retórica social. Optou apenas pela exposição das coisas como são. Teve esse receio na criação do argumento e no processo de escrita em criar essa separação ou tudo ocorreu naturalmente?

Pedro Cabeleira: Houve um cuidado para as coisas não serem maniqueístas. A mim não me interessa trabalhar muito os moralismos, porque os moralismos vão sempre distanciar alguém. Há sempre um posicionamento quando nós filmamos e quando nós trabalhamos uma história ou trabalhamos personagens. Era um filme que podia rapidamente cair numa crítica simplista. Havia uma ideia de ter o filme quase não do ponto de vista tão observacional, mas também nem de higienizar as coisas, nem estar ao mesmo tempo a julgá-las demasiado. Há um olhar que permite aos espectadores tirarem também as suas conclusões e também refletirem. Eu acho que isso é que nos faz confiar. Se calhar pode ser um muro do estômago para algumas pessoas. Os espectadores estão a ver realmente as coisas como são. E acho que isso é o que torna as coisas mais duras? Quando as coisas são cruas, e essa violência acaba por ser mais crua, e não só a violência física, mas também a violência verbal, a discriminação, a violência e a pobreza.

A Ana Vilaça é uma força da natureza. E fico mesmo feliz de ver a metamorfose dela da tua curta-metragem «By Flávio» [2022]. Poderias falar um pouco da Ana e da evolução do trabalho consigo? Especialmente a preparação para este extraordinário desempenho.

Pedro Cabeleira: Eu confio muito no trabalho dela. A Ana é uma pessoa que se prepara muito para os papéis. Ela cria as personagens, ou seja, há uma proposta de personagem, mas depois ela agarra nessa proposta e desenvolve-a e aprofunda. Ela tinha um dossier enorme só com coisas sobre a personagem. Ela constrói uma backstory de onde é que a personagem vai. Ela também fez um trabalho muito próximo da população do Cerco [bairro social problemático do Porto] para construir melhor a sua personagem, e a Ana tem realmente essa capacidade de metamorfose que mencionas. Não há muitos atores que consigam isso, mas a Ana consegue isso muito bem, porque quem a conhece fica impressionado. O mérito é dela, porque ela faz muito esse trabalho.

E o trabalho da Cleo Diára no papel de Nádia?

Pedro Cabeleira:
A Cleo tinha trabalhado com ela no «Verão Danado». Ela também foi minha colega na escola de cinema. Acho que a fragilidade que ela traz para a personagem humaniza muito a sua personagem. Os atores trouxeram todos isso para o filme, porque não podia ser uma coisa caricatural. Estamos cansados de caricaturas e o facto de eles terem trazido as fragilidades para os personagens foi o que acabou também por humanizar o filme.

Relativamente aos personagens masculinos, o Tiago Costa, Henrique Barbosa, Rafael Morais, o Sérgio Coragem… que, apesar de estarem todos na mesma pergunta que faço, são mais do que um coletivo e são personagens de cabeça aos pés. Cada um deles é um filme. Como é que correu a preparação para eles encarnarem esses personagens?

Pedro Cabeleira: Dependeu muito de ator para ator. Cada ator tem um tipo de abordagem diferente. Ou seja, não existe um método que seja comum a todos. O Rafael é um ator que também foi muitas vezes ao Entroncamento. O Tiago é um ator que já estava há muitos anos envolvido no projeto. Ele já tinha ido comigo ao Entroncamento algumas vezes.

O Sérgio, por exemplo, é um ator que trabalha muito o momento, portanto, é um labor do momento, é alguém que está ali e realiza muita coisa na hora. O Henrique Barbosa [no papel de Virgílio ‘Gilinho’], por exemplo, foi uma descoberta, foi uma grande procura pelo país inteiro encontrar alguém que tivesse a coragem de fazer aquele papel e encontrei o Henrique, muito também através da [atriz] Maria Gil [no papel de Mãe do Virgílio], que me falou dele. E o Henrique fala de uma forma absolutamente incrível. É uma pessoa com muita inteligência emocional, é uma pessoa com muita sensibilidade, muito generosa. Isso depois também se reflete no papel que ele fez.

Uma das sequências mais poderosas do filme é a cena do Virgílio na cozinha com a mãe na visita à casa dos pais. Podias comentar essa sequência entre o Henrique Barbosa e a Maria Gil?

Pedro Cabeleira: Essa cena era uma sequência em que só estava escrito no argumento “hoje eu vim visitar a mãe”. E depois houve um ensaio que eu fiz com os dois em que falámos um bocadinho o que é que poderia ser essa cena. E eles foram ambos muito generosos e porque era uma realidade deles, não era uma realidade que eu conhecia e eu não dominava. E a cena foi construída com os dois e falou-se e o Henrique compreendeu muitíssimo bem a cena e aquilo foi logo o primeiro take. Fizemos outro take e não valia a pena repetir e pôr mais sofrimento. Acho que a maior ferramenta foi dirigir a todos, mas aquilo que é mais importante para se conseguir a cena foi que as pessoas se exponham e acreditem no que estão a fazer. Acho que isso aconteceu nessa cena. Os dois atores estavam a acreditar naquilo.

O que é que surgiu primeiro? A história ou o local? Ou se preferimos, o Entroncamento inspirou a razão da existência do filme? Ou foi o local perfeito para o filme aninhar as suas vicissitudes?

Pedro Cabeleira: Primeiro surgiu onde eu queria filmar e o que é que eu queria filmar e depois as histórias vieram a ser.

Como é que foi a rodagem, a preparação do filme e a recepção do local perante o aparato das filmagens?

Pedro Cabeleira: As pessoas ficaram muito curiosas e, como eu sou de lá, as coisas correram bem. Acho que a cidade se deu muito bem. Tivemos muito apoio da comunidade. Aliás, só foi possível concretizar o filme precisamente com esse apoio do Entroncamento. Já houve muitas pessoas que o viram. E na estreia em Lisboa, no LEFFEST [Lisboa Film Festival], veio muita gente do Entroncamento. Há muita população de lá que está curiosa para ver o filme.

O trabalho da Leonor Telles, documentarista premiada, no look final desta obra?

Pedro Cabeleira: Eu trabalho com ela há muitos anos. Ela foi minha colega de turma na escola de cinema e trabalhamos juntos desde aí. É uma coisa muito intuitiva, é uma coisa muito orgânica. Ela sabe do que é que eu gosto, eu sei do que é que ela também prefere. E aí, se houvesse trabalho, era ali que nós trabalhávamos, muito com gosto natural e com gostos de espaços. E depois, às vezes, o trabalho, principalmente à noite, é estar a esconder luzes para fazer um desenho. É muito o trabalho que ela faz também. Quanto à câmara ao ombro, é uma coisa que ela também está muito confortável em fazer. É a quinta vez que fazemos um filme juntos. É uma coisa muito orgânica.

Pedro Cabeleira

Apelido o filme também de “crime story”, mas podemos dizer que há um universo de personagens em constante conflito com a raça e a economia a serem o ponto de clivagem. Há racial profiling, há ódios profundamente enraizados, o emprego é escasso. Como é que foi o pensamento e a sensibilidade para conseguires criar essa síntese tão perfeita?

Pedro Cabeleira: Obrigado. Ainda bem, fico contente que isso tenha passado. Não sei se toda a gente sente isso. É ir vendo o que é que se está a trabalhar e ter muito cuidado quando se está a abordar temas mais delicados. Mas também eu sinto que tem de haver o cuidado para não higienizar demasiadas coisas. Porque quando se higieniza a coisa fica muito artificial, muito plástica e percebe-se que está a proteger demasiado os personagens e os temas. E para mim houve esse cuidado de tentar esse equilíbrio entre tratar as coisas com dignidade, mas ao mesmo tempo sem estar a esconder as fragilidades das pessoas. Porque se não tem, as pessoas também não criam empatia porque ficam muito artificiais e o olhar fica  demasiado clínico. E não me interessava isso. Houve um olhar horizontal e implicou também ver as coisas menos boas que existem nas pessoas e também as coisas melhores. Toda a gente tem esse lado, não é?

É algo de caso a caso, ir pensando quando estamos a escrever e quando estamos a dirigir e ir pensando.

Esta é uma história que se multiplica pelos bairros sociais de Portugal e do mundo. É muito triste que seja uma história universal, pois quer dizer que continuamos a ver os comboios a passar. Tiveste esse feeling de impacto, ou, se preferirmos, de universalidade dos temas abordados na história?

Pedro Cabeleira: Ainda bem que o filme tem essa universalidade, a minha intenção sempre foi trabalhar com coisas muito específicas de lá, mas não é uma realidade distinta de todos os sítios do país. Mesmo agora na estreia em Paris, disseram-me que o filme fazia lembrar situações dos bairros à volta de Paris. Portanto, há coisas que são causas universais, fenómenos de exclusão, tais como os de criminalidade exatamente com a exclusão social; a questão da extrema-direita é um assunto universal e não apenas local ou específico dali. Portanto, essas coisas acabam todas por resolver, porque no fundo as histórias têm essa capacidade de ser universais. Por isso é que nós às vezes vemos um filme tailandês e identificamo-nos com aquilo.

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