Pedro Cabeleira foi do «Entroncamento» até à Croisette em Maio passado. E, de facto, há cidades que são destinos. E outras como o Entroncamento que sempre foram lugares de passagem: comboios, militares, ferroviários, gente que chega e gente que parte. Agora, pela mão de Pedro Cabeleira, a cidade ferroviária transforma-se em palco de um retrato cru de uma juventude à deriva. Fez paragem na secção ACID do Festival de Cannes 2025. Não em competição oficial, mas numa secção importante, que dá visibilidade internacional e coloca cineastas a escolher os filmes de outros cineastas.
Depois de «Verão Danado», que se estreou igualmente no prestigiado Festival de Locarno, Pedro Cabeleira regressa com «Entroncamento», a sua segunda longa-metragem — depois da magnífica curta «By Flávio» — rodada na terra onde cresceu. E isso sente-se. O filme acompanha Laura (Ana Vilaça), uma jovem que foge de um passado turbulento no Porto e tenta recomeçar numa cidade onde as linhas se cruzam, mas as oportunidades nem sempre. Entre um emprego honesto e pequenos esquemas, Laura mergulha num ecossistema de amizades frágeis, pequenos tráficos, tensões raciais e sonhos em saldo.
No filme, há ecos de Cassavetes, há um sopro de Pedro Costa, mas, sobretudo, há uma identidade própria deste cineasta que já não é um novato
Em «Entroncamento», Cabeleira não faz um mero retrato de turismo social ou o melhor da cidade. Filma com câmara ao ombro, imagem suja, textura de noite húmida do Ribatejo. No filme, há ecos de Cassavetes, há um sopro de Pedro Costa, mas, sobretudo, há uma identidade própria deste cineasta que já não é um novato: proximidade aos corpos, às vozes, à monotonia que corrói. A violência aqui não explode; murmura. Está nas conversas de café, nos olhares desconfiados, nas fronteiras invisíveis entre comunidades. E elas existem e por vezes confrontam-se: ciganos, afro-descendentes, ucranianos, famílias antigas e recém-chegados, porque a vida é mais barata do que em Lisboa. A cidade do Entroncamento é hoje talvez um perfeito microcosmo do nosso país. O realizador não foge às tensões — culturais, raciais, políticas — mas também não faz um panfleto político-social. Prefere observar, através de pequenos gestos, noites longas, álcool e as drogas leves como anestesia e sobretudo o delito miúdo e a pequena delinquência, como fuga à estagnação.

O elenco mistura actores profissionais e não profissionais, muitos residentes na própria cidade ou de fora das grandes cidades. A actriz luso-cabo-verdiana Cleo Diára volta a marcar presença, Rafael Morais traz intensidade contida, e há estreantes que dão ao filme uma verdade que não se ensaia. A direcção de fotografia de Leonor Teles mantém a energia de guerrilha, mas com maior maturidade formal do que em «Verão Danado». Nota-se crescimento, mas sem perder a urgência. O mais interessante é que «Entroncamento» não quer explicar tudo, nem todos os problemas sociais da cidade. Limita-se a observar. Não há moral da história. Há, antes, a sensação de quem ficou para trás, de quem não foi para Lisboa nem para o estrangeiro, de quem vive num cruzamento permanente sem saber para onde seguir. Laura é o olhar de fora, mas também é espelho: todos ali procuram uma saída, mesmo que seja ilusória. «Entroncamento» não é cinema polido para exportação festivaleira; é cinema de fricção, onde Portugal — ou melhor, o seu microcosmo na cidade ferroviária — não aparece como postal, mas como território em tensão.
Do calor africano de outros filmes portugueses recentes, passamos aqui à noite húmida do interior urbano. Há um país para além da capital, há histórias para além dos bairros cool de Lisboa ou do Porto. Há juventudes esquecidas que também merecem o grande ecrã.
«Entroncamento» é isso: um cruzamento de várias coisas. De caminhos, de identidades, de um cinema português que começa a olhar para dentro sem medo de se sujar.
Título Original: Entroncamento
Realização: Pedro Cabeleira
Com: Ana Vilaça, Cleo Diára, Rafael Morais
Origem: Portugal
Duração: 110 min. (aprox.)
Ano: 2025
Género: Drama




