«Eu sou Martin Parr», filme-enciclopédia do artista visual Lee Shulman, nasce do reino educativo e enternecedor da BBC Arena, que produz documentários sobre arte e artistas desde 1975. Convencionais em estrutura, com os testemunhos da vida do artista a misturarem-se com amostras do seu corpo de trabalho, o documentário diz desde logo ao que vem, apresentando a genialidade do seu sujeito, para depois partir em viagem de forma cronológica pela vida do artista. Neste caso, pela vida do fotógrafo e fotojornalista inglês Martin Parr, um dos olhares mais acutilantes sobre a identidade cultural do Reino Unido durante a década de 1970 e 1980. Entre a crítica sardónica e a admiração quotidiana, as fotografias vívidas e saturadas de Parr são, em igual forma, objecto artístico e documento de investigação: contam uma história e falam por um povo.

Dois casais refastelam-se em cadeiras de jardim ao pé de uma estrada, umas sandálias com meias, um prato de um Full English Breakfast. Fazem-se da caricatura da encenação, mas não o são. Parr anda pelo meio das multidões – as praias são o seu lugar predilecto – câmara em punho a fotografar a classe média inglesa no seu habitat natural. Destas fotografias é destilado um voyeurismo tragicómico sobre coisas tão particulares como as escolhas de vida, as afiliações políticas, os gostos estéticos…Ao retratar o mundano, Parr está também a evidenciar o humor na aleatoriedade da condição humana. É um vigilante de arma empunhada, camuflado na multidão.

E «Eu sou Martin Parr» foca com clareza o seu ponto de vista. Ouve-se, a certa altura, alguém dizer “ele criou uma forma de ver”. Haverá maior elogio a fazer a um fotógrafo? Pioneiro no acto de documentar comida, por exemplo, Parr usaria esses seus grandes planos para falar de consumismo e turismo de massa até ao final da sua vida a Dezembro de 2025. Dois anos antes, Shulman aproveitava a altura da coroação do Rei Charles III para expôr o papel do fotógrafo no meio das celebrações monárquicas. Há uma interferência entre fotógrafo e sujeito anónimo no território partilhado que não sabe que da sua imagem brotará um objecto artístico. Num contexto de férias ou qualquer outro evento solene, essa interferência normaliza-se. Schulman mostra-nos exactamente como é que a interacção entre os dois ocorre.
Em relação a isso, não há lugar no filme para pedagogia. O seu tom é de permanente descoberta. E é notável quão comovido está com o que nos mostra. Sob o sol fraco de New Brighton, que pontua desde logo o filme com uma certa ligeireza, uma qualidade escamosa evidenciar-se-á mais tarde à boleia da rejeição inicial de Henri Cartier-Bresson em tornar Parr membro efectivo da agência Magnum, ou até perante o pedido do próprio a quem sabe que a sua fotografia lhe está a ser tirada: “Não sorrias”, diz uma e outra vez. Tudo Parr retirou da realidade. Especialmente a ficção.
TÍTULO ORIGINAL: I am Martin Parr
REALIZAÇÃO: Lee Shulman
ELENCO: Martin Parr, Bruce Gilden, Grayson Perry
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 68 min.
ANO: 2024




