Em 1995, muitos foram os que embarcaram na celebração do que consideraram ser o centenário do Cinema, aceitando a data de 1895 como o início de uma grande e fascinante aventura espoletada por uma inovação e uma atividade comercial que viria a ser designada por sétima arte. Para o justificar invocaram a organização da sessão pública e paga do Cinematógrafo Lumière, realizada no Salon Indien du Grand Café de Paris, situado no Boulevard des Capucines, precisamente no dia 28 de Dezembro de 1895. Resta saber que a iniciativa das comemorações foi sobretudo apadrinhada pela França que, num furor nacionalista, pareceu apostada em ignorar, não digo a História do Cinema mas os antecedentes que permitiram de facto a concretização do sonho de dois irmãos, Louis Lumière (1864-1948) e Auguste Lumière (1862-1954) e, já agora, do seu pai, Antoine Lumière (1840-1911), sim, porque foi ele quem primeiro perspectivou em 1894 a possibilidade de projectar num grande ecrã e para um grande público as imagens em movimento que observara num Kinetoscope do inventor, empresário e cientista americano Thomas Edison (1847-1931). Estas máquinas permitiam ver pequenos filmes através de um visor, mas não estavam preparadas para os projectar. Em abono da verdade e prosseguindo o que refuto ser a mais elementar justiça e rigor de análise, apesar de Thomas Edison ser o pai conceptual desses aparelhos, quem desenvolveu a respectiva mecânica, assim como a “sua” máquina de filmar, a Kinetograph, a que podemos juntar a película de celulóide, foi o seu assistente, o escocês William Dickson (1860-1935). Neste domínio foi apenas ultrapassado por Louis Le Prince (nascido em Metz no ano de 1842 e desaparecido em 1890 em circunstâncias que permanecem misteriosas). Este francês expatriado em Inglaterra já rodara naquele país a 14 de Outubro de 1888 alguns filmes com um aparelho de lente única (o MkII), como os que podemos ver hoje sob a forma de brevíssimos fragmentos, o Roundhay Garden Scene, o Traffic Crossing Leeds Bridge e o Accordion Player.

Dito isto, não pretendo de modo nenhum diminuir a importância da invenção do Cinematógrafo, um notável salto em frente devido ao facto de ser mais leve do que as Kinetograph (porque não usava motor eléctrico, mas sim uma manivela que uma vez manipulada inseria uma espécie de garra nas perfurações da película permitindo que ela passasse diante da abertura para se obter uma sequência de fotogramas), e ainda porque era um aparelho multifuncional: filmava, revelava e projectava. Diga-se, aliás, que enquanto programador de cinema da RTP2 e autor e realizador do ONDA CURTA exibi no programa vários blocos não cronológicos com curtas dos Irmãos Lumière (365 ao longo de 2001-2002, e posteriormente na emissão ao ritmo de uma por dia), não por causa dos ecos do centenário mas porque sempre as considerei peças essenciais para se perceber a evolução do Cinema, tanto na Europa como no Mundo. Seja como for, nunca me pareceu curial confundir a invenção de maquinaria, mesmo que essa resultasse de um projecto visionário e genialmente concebido, com a invenção do Cinema enquanto espectáculo social e culturalmente relevante. Uma invenção cujas raízes podemos encontrar numa vasta galeria de verdadeiros pioneiros como, para citar apenas os mais influentes e mais próximos da família Lumière, o francês Émile Reynaud (1844-1918) que inventou o Praxinoscope, aperfeiçoamento do Zootrope, e exibiu publicamente as suas Pantomines Lumineuses no Musée Grevin a 28 de Outubro de 1892, na prática os primórdios do cinema de animação, e Max Skladanowsky (1863-1939) e Emil Skladanowsky (1859-1945), que na Alemanha inventaram o Bioskop com o qual projectaram figuras em movimento para um público pagante a 1 de Novembro de 1895. Todos estes acontecimentos decorreram antes da sessão dos Irmãos Lumière inicialmente citada neste artigo. Mas o que constitui ainda maior prova da vontade de puxar a brasa a uma sardinha gaulesa e a uma data redonda muito ao gosto do marketing político-cultural, e não só, será o facto de até os Irmãos Lumière, no seu percurso para a aventura que queriam iniciar com maior amplitude e consequente lucro, serem protagonistas da dita sessão do Grand Café só depois de marcarem um conjunto de outras sessões reservadas a especialistas com peso e significado no mundo da Fotografia e do Cinema, mesmo que os seus meandros fossem ainda jovens e voláteis no plano meramente comercial. Nessa altura, muito provavelmente devido ao facto de os Irmãos Lumière serem herdeiros de um pai, pintor e fotógrafo, cujo poder financeiro fora obtido através do melhoramento e relativa democratização dos suportes fotográficos (por exemplo, as placas de gelatino-brumeto), os filmes de 35mm com uma média de cinquenta segundos por eles produzidos apresentavam quase sempre enquadramentos com grande sentido da composição pictórica onde era visível um olhar muito incisivo e particular sobre a realidade circundante. Os Filmes Lumière, com raras excepções, foram concebidos num só plano, mas alguns já incluíam movimentos provocados pela deslocação da câmara instalada em veículos que avançavam sobre carris, ou panoramas da costa a partir da navegação de um barco ou navio, e muito raramente sobre plataformas mais frágeis ou menos estáveis. Realizados maioritariamente por Louis Lumière e por diversos outros operadores formados para os devidos efeitos, foram incluídos no chamado CATALOGUE DES VUES POUR CINÉMATOGRAPHE, sendo a associação de Vues + Cinématographe uma outra forma de dizer “fotografias animadas”.

Em resumo, para abreviar uma matéria que daria pano para mangas e me ocuparia uma edição completa da METROPOLIS, acrescento apenas esta reflexão: o nascimento do Cinema não foi, como o querem fazer crer alguns fantasistas, consequência feliz de uma noite de insónia de Louis Lumière (como já ouvi dizer a muito boa gente) durante a qual recebeu uma epifania sabe-se lá se do Deus da Luz (lá está, Lumière), mas sim da soma de muitos contributos de homens e curiosamente de poucas mulheres que ao longo de anos acumularam a informação necessária e suficiente para se dar o grande sinal de partida para o começo de uma aventura programada e controlada por empresários e artistas, que ainda hoje perdura apesar da influência cada vez mais consolidada e por vezes intrusiva do digital e mais recentemente da AI. Para quem se interessa por aprofundar o estudo desta época, aqui ficam alguns nomes fundamentais, cuja importância não podemos esquecer na longa caminhada para o Cinematógrafo: os precursores Nicéphore Nièpce (1765-1833) e Louis Daguerre (1787-1851) no campo puro da fotografia e, mais para a frente, Étienne-Jules Marey (1830-1904, inventor do revólver fotográfico e da Chronophotographie) e Eadweard Muybridge (1830-1904, que usou a cronofotografia na decomposição fotográfica dos movimentos do corpo humano e dos animais e projectou a sequência de provas assim obtidas através do Zoopraxiscope). Todos os nomes são dignos do maior destaque para além dos anteriormente citados, e ainda alguns que ficaram de fora mas aos quais voltarei um destes dias.

E agora passemos ao quadro das estreias em sala para destacar aquela que pela mão da MIDAS Filmes nos vai dar a conhecer, digamos, a segunda parte de um documentário que se intitulou “Lumière! L’Aventure Commence” (Lumière! A Aventura Começa), 2017. Esta introdução que vos ofereci foi motivada nem mais nem menos pela revisão desta obra, na minha opinião, um pouco redutora no plano da contextualização histórica, com um ou outro “simpático” delírio nos comentários aos filmes seleccionados, e pela grata descoberta do actual e mais consistente “Lumière! L’Aventure Continue” (Lumière! A Aventura Continua), 2025, ambos com a assinatura de Thierry Frémaux (para quem não saiba, o Director Geral do Instituto Lumière de Lyon e Delegado Geral do Festival de Cannes desde 2007). Entre as duas produções, oito preciosos anos passaram e, pelo que me foi dado ver, foram bem aproveitados para aprofundar e esclarecer alguns pontos que, como disse, não ficaram claros na anterior abordagem. Nomeadamente, a verdade histórica associada a questões como a paternidade e cronologia da invenção do Cinema e a posição ocupada pelos Lumière neste contexto. Muito me agrada que nesta segunda selecção e montagem logo de início se faça notar com apurado sentido de autenticidade e boa-fé. Citando o próprio filme: No fim do Verão de 1894, Antoine Lumière, pai de Louis e Auguste, descobre em Paris o Cinetoscópio de Thomas Edison, um pequeno ecrã individual onde as imagens ganham vida quando se insere uma moeda. “Temos de retirar a imagem desta caixa”, diz Antoine, “ e projectá-la diante do público e num grande ecrã. Vou regressar a Lyon e os meus filhos hão-de descobrir”. Estas palavras ditas por Thierry Frémaux, responsável pelos comentários e pela magnífica selecção de mais de uma centena de curtas produzidas entre 1895 e 1905, impecavelmente restauradas e digitalizadas, culminam com a legenda LUMIÈRE, LE CINÉMA! Não podia ser melhor escolha para abrir com chave de ouro uma viagem absolutamente encantada por uma cinematografia que estabeleceu as bases de uma nova linguagem e que gerou nos espectadores de então, e ainda gera nos de hoje, a capacidade de ver para além dos fotogramas e das 16 imagens por segundo. Trata-se de partilhar uma nova visão do mundo que nos rodeia. Para os mais despreocupados ou os mais cinéfilos que sempre olharam com prazer e deleite as manifestações da nova arte e indústria, a obra dos Irmãos Lumière, agora devolvida ao grande público, constituiu a oportunidade de fruir numa escala adequada, ou seja, num grande ecrã, o fulgor da viagem que naqueles anos se iniciava e nos convidava a sentirmo-nos parte da vida quotidiana do Século XIX. Partilha colectiva no interior de uma sala de cinema. Por outro lado, essas sombras e luzes do passado confrontam-se hoje com a memória das imagens pretéritas que não se perderam e felizmente perduram em pleno Século XXI. Mesmo sem som, elas “falam” connosco. E garanto-vos que o prazer de nos sentirmos nesse limbo entre o Espaço Fílmico e o Tempo não acaba num só visionamento. Estes filmes são para guardar e preservar como um bálsamo para lavar os olhos e os ouvidos do(s) ruído(s) que prevalece(m) em muitos caminhos cruzados do cinema actual, organizado para nos dar a sensação de uma vida a correr, planos atrás de planos, invadidos por sons a pisar e destruir os efeitos mais subtis da banda sonora onde a voz humana cada vez conta menos. Thierry Frémaux consegue atrair a atenção para os pormenores, por vezes deliciosos, da grande maioria dos retratos e quadros animados, mesmo a daqueles que possam não acompanhar com entusiasmo a Pré-História e a História Geral do Cinema. Dá-nos igualmente pistas para constatarmos que o que passava pela cabeça de um cineasta no limiar do Século XIX para o XX não era muito diferente das preocupações de um profissional ou de um amador na actualidade: a questão fulcral de saber onde colocar a câmara, qual o ponto de vista dominante, qual a personagem ou personagens que se destacam ou devem destacar e quais as relações entre os primeiros planos e os planos recuados. No campo da mise en scène, o posicionamento dos actores face aos limites e as vantagens da profundidade de campo, a ilusão do movimento, quer o das pessoas e objectos que passam diante da objectiva, quer o determinado por meios mecânicos e por opções pré-programadas que nos podem colocar num lugar privilegiado que muitas vezes só o Cinema nos permite ocupar, como a proa de um navio em pleno mar alto durante uma borrasca. Em suma, ver “Lumière! A Aventura Continua” constitui a forma mais simples, diria até mais económica, de frequentar um curso de Cinema onde, quem sabe, se podem alinhar os astros para que os felizes contemplados com a visão da sua matéria primordial se decidam a estudar com mais intensidade uma aventura que continua, sim senhor, porque o Cinema enquanto linguagem universal não será derrotado pela estratégia plutocrática daqueles que só olham para ele como um mero negócio. Por último, dir-lhes-ei que na banda sonora musical ouvimos composições de Gabriel Fauré, contemporâneo destas pequenas produções, soberbamente interligadas com o processo sequencial que nos vai revelando a obra filmada dos Irmãos Lumière. Trunfo maior a que junto um outro, a suprema e inconfundível luz que se observa numa grande percentagem das restauradas curtas-metragens, graças ao esplendor da película de nitrato usado na época que, por razões de segurança (era altamente inflamável), veio a ser abandonado a favor do acetato. Mas era, sem dúvida, um suporte que nas mãos de cineastas competentes proporcionava magníficos e cristalinos resultados!
Título original: Lumière, l’aventure continue Realização: Thierry Frémaux Documentário Duração: 104 min. França, 2024




