«Companion» é um filme que promete trocar as voltas aos espectadores na forma provocadora como abordou o pertinente tema das relações abusivas entre os jovens casais num cenário que confronta a natureza humana com o digital.
O pano de fundo é idílico para um fim de semana perfeito para dois jovens adultos, Josh (Jack Quaid) e a sua namorada Iris (Sophie Thatcher) vão-se encontrar com os seus amigos numa casa de luxo implantada no meio da floresta e isolada do mundo exterior.
«Companion» ganha pontos por ser uma obra que é uma caixinha de surpresas com bombons de vários sabores. E mesmo que tropecem na dinâmica desta narrativa antes de verem o filme, o que vamos encontrar é algo mais profundo num misto de uma história de sobrevivência com a realidade de um palerma abusivo que trata a sua namorada como um autómato (mesmo quando ela demonstra ser mais humana do que qualquer criatura em seu redor)… O argumentista e realizador Drew Hancock pegou nesse conceito e levou-o mais além com uma criação com violência cirúrgica, humor e um desempenho magnetizante de Sophie Tatcher (a estrela de «Yellowjackets») no papel da destemida Iris. É uma daquelas performances que dão vida e expandem os sentimentos de algo que parece vazio e subitamente se torna um ser orgânico, completo e com desejo de viver e libertar-se da sua jaula. Ao mesmo tempo que decorrem os acontecimentos – sempre com uma pulsação elevada – a obra tem tempo para falar da solidão, da tristeza, o amor genuíno (aquele que derruba qualquer fronteira). O filme também aborda aqueles que abusam das pessoas que foram “programadas” para amar e servir o próximo. E nesse aspecto o rosto angelical de Jack Quaid tornou-se perfeito no papel de Josh ao destruir a imagem de perfect boyfriend que o actor cultivou ao longo dos anos e apresentar um lobo com pele de cordeiro.

«Companion» de Drew Hancock é muito interessante ao abordar a tecnologia e a inteligência artificial, mas a obra ganha relevo ao criar uma metáfora assustadoramente próxima do mundo real no domínio das relações humanas. Os vários artifícios, que nos entretém a rodos e enriquecem a história (o “golpe oportunista” ou o mesclar o terror com a comédia negra) acabam ofuscados pela personagem Iris na descoberta da sua relação tóxica com Josh e no seu desejo de ser melhor e querer ser livre. O restante elenco é igualmente interessante e adicionou bons apontamentos à festa. O argumento foi muitíssimo bem escrito e os diálogos são corrosivos e andam de mãos dadas com a criatividade visual de Drew Hancock.
«Companion» é puro entusiasmo, um atestado que ainda é possível fazer bom cinema para as massas com baixo orçamento e ao mesmo tempo abordar questões na ordem do dia nas sociedades contemporâneas.
Título original: Companion Realização: Drew Hancock Elenco: Sophie Thatcher, Jack Quaid, Rupert Friend, Lukas Gage, Marc Menchaca Duração: 97 min. EUA, 2025




