Última Edição

Novidades

Artigos Relacionados

Inverno Mortal

«Inverno Mortal», realizado por Brian Kirk, é um thriller de sobrevivência com ingredientes poderosos: uma paisagem gelada e implacável, uma protagonista improvável mas resoluta, tensão crescente e isolamento absoluto. O cenário do Minnesota nevado, as estradas secundárias cobertas de neve, a floresta remota, a solidão causada pelo nevão — tudo isso constrói um ambiente de medo quase palpável. E Emma Thompson, no papel de Barb — uma viúva com um passado feliz mas também doloroso — dá ao papel uma densidade humana comovente, que é capaz de carregar o filme sozinha. E, de facto, carrega.

Mas o que poderia ser um thriller quase perfeito acaba por ficar aquém. O problema central está nos flashbacks para o passado de Barb e o marido. Não nos flashbacks em si — estes podem dar contexto, criar empatia — mas na forma como e quando são usados, interrompendo momentos de tensão, puxando-nos para trás em vez de manter o pulso da acção, quebrando o ritmo e diluindo a urgência. E, pior, não acrescentam sempre algo decisivo à narrativa presente; muitas vezes repetem aspectos que já percebemos: o luto, as promessas feitas. Algo que poderia emergir de pequenas pistas visuais ou diálogos, em vez de cenas completas que nos afastam da perseguição, da necessidade de agir.

O filme, sem estas interrupções, ganharia muito mais impacto, mantendo o espectador agarrado ao presente, sem regressos que mitigam a adrenalina. Ainda assim, Emma Thompson, com a sua presença firme e sensível, consegue emergir como uma heroína pura: alguém que reage, que improvisa, que se impõe não só pela destreza e força física, mas também pela coragem moral.

Em resumo: «Inverno Mortal» conta com momentos de excelência — sobretudo pela interpretação de Emma Thompson e a paisagem física e emocional que constrói. Mas podia ter sido excelente, ou quase perfeito, se os flashbacks fossem usados com mais parcimónia ou de forma mais integrada, sem interromper demasiado o fluxo narrativo. Se se tivesse mantido mais no presente — no frio, no medo, na urgência — teríamos um thriller verdadeiramente memorável.

Título Original: Dead of Winter Realização: Brian Kirk Actores: Emma Thompson, Judy Greer, Marc Menchaca Duração: 98’ Ano: 2025 Origem: EUA

Artigo anterior
Próximo artigo
Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

Também Poderá Gostar de