«Pressure», 2026, de Anthony Maras, ao contrário do que pode sugerir a opção portuguesa de o “baptizar” como «Dia D: Sob Pressão», não se refere apenas ao desembarque Aliado na Normandia (que aconteceu a 6 de Junho de 1944), mas também aos antecedentes dessa gigantesca operação militar destinada a libertar a Europa do jugo nazi e dos seus cúmplices fascistas. Não foi a única, mas a sua escala, poder e capacidade de combate provou ser essencial para, em conjugação com o decisivo avanço soviético sobre Berlim, se alcançar a vitória há muito desejada sobre um inimigo que resistiu até ao último momento e que ainda havia de reservar forças para uma derradeira, ampla e mortal ofensiva na Batalha das Ardenas (16 de Dezembro de 1944 a 25 de Janeiro de 1945).
Dos referidos antecedentes, os argumentistas ganharam coragem para nos darem conta de um desastre, ocorrido a 28 de Abril de 1944, durante um ensaio das forças anglo-americanas para o desembarque e invasão no Dia D. Tratou-se do Exercise Tiger ou Operation Tiger (ocorrido em Slapton Sands, Inglaterra), durante o qual foram usadas munições reais que provocaram a morte por “friendly fire” a um grande número de soldados (fala-se de 749 mortos, sobretudo por falhas de coordenação e comunicação). Foi um gravíssimo incidente, se considerarmos ainda que a marinha de guerra alemã conseguiu vislumbrar as manobras realizadas e acabou por atacar lanchas de desembarque dos Aliados em pleno mar e antes que essas embarcações alcançassem a praia. Naturalmente, este revés foi mantido em segredo (sempre relativo) e pouco ou nada dele se costuma dizer nos documentários e ficções habitualmente mais vocacionados para a valorização dos feitos vencedores.
Mas «Pressure» fez bem em levantar o véu, porque foram seguramente situações como esta, ou similares, que levaram o supremo comando das forças aliadas a ponderar os mais ínfimos pormenores antes de assumir os riscos inerentes a qualquer decisão, num campo volátil como o de uma guerra de grandes e devastadoras dimensões, numa altura em que qualquer pauzinho encravado na engrenagem bélica podia determinar não o sucesso, mas sim a derrota.
E aqui entramos na matéria primordial do filme, aquela que devido ao seu grau de incerteza irá provocar um bom número de hesitações: a previsão das condições meteorológicas que assegurassem as condições mínimas (não necessariamente as ideais) para uma invasão sem surpresas desagradáveis, ou até mesmo irreversíveis, que pudessem comprometer a progressão naquele campo de batalha do norte de França e provocar um desfecho de pesadelo para a Segunda Guerra Mundial. Neste contexto, não seria expectável que as coisas se perfilassem fáceis, considerando o cuidado e o pormenor depositados na elaboração dos planos de ataque da Operação Overlord. Mas, provavelmente, ninguém esperaria serem desencadeados, digamos assim, uma série de remoinhos e ciclones de alta potência egocêntrica no campo das divergências de análise (onde se misturavam algumas rivalidades nacionalistas) que podiam adiar os planos previstos para o Dia D (inicialmente estipulado para uma segunda-feira, 5 de Junho de 1944). Em causa estavam divergências a propósito dos modelos de previsão climática que serviam de base de sustentação para se poder dar o sinal para o avanço das forças aliadas.

Por outro lado, vivia-se uma situação de contra-relógio, porque uma longa espera ou repetidas hesitações podiam ser insustentáveis: se fosse dada a ordem de suspender, na prática, adiar por muitos dias a invasão, seria quase impossível manter em segredo e em condições extremas de confinamento os militares que iriam para a frente de combate. Não apenas americanos e britânicos, mas de muitas outras nacionalidades que se encontravam retidos nas bases na expectativa de receberem a ordem para o sim ou para o não.
Na verdade, «Dia D: Sob Pressão» denuncia as contradições e a fragilidade das análises e das previsões obtidas com o apoio de mapas meteorológicos de anos anteriores e, sobretudo, a insistência de neles se identificarem padrões de comportamento climático que supostamente se repetiriam. Deste modo, para efeitos de conflito ficcional, no argumento salienta-se o fosso entre a perspectiva europeia e a norte-americana, facto que irá fazer estalar o verniz e destilar algum veneno (recíproco) entre o(s) que defendia(m) esta abordagem analógica e aquele que, numa atitude serena mas firme, a criticava com a firmeza das convicções de quem foi convocado (com recomendação do próprio Winston Churchill) para obter resultados seguros mas, como dizia e bem, não definitivos (porque há sempre um prudente grau de incerteza quando se fala da evolução e das consequências de anti-ciclones ou de superfícies frontais). Em suma, o melhor do muito que podemos ver em «Pressure» serão as sistémicas diferenças de opinião entre dois meteorologistas em rota de colisão: um americano, Irving Krick (Chris Messina), e outro britânico, ou melhor, escocês, James Stagg (Andrew Scott).
De permeio, a receber os golpes da contenda e a dar as ordens que o seu poder lhe conferia, encontramos a figura do Comandante Supremo dos Aliados na Europa, o general Dwight D. Eisenhower (Brendan Fraser). Temos ainda uma rara presença feminina no seio de corredores e gabinetes infestados de machos alfa, a única mulher com alguma margem de manobra, ou seja, a secretária do general, Kay Summersby (Kerry Condon).

Do ponto de vista dos factos históricos, há que dizer que o filme apresenta uma ou outra liberdade narrativa na componente biográfica (diga-se, sem grande importância). Não obstante, o seu maior valor reside no investimento que fez no retrato dos bastidores (os corredores e gabinetes do Supreme Headquarters Allied Expeditionary Force), e no perfil dos protagonistas que prepararam o Dia D nos poucos dias e horas que precederam o desencadear da grande ofensiva. E fê-lo num ângulo que, não sendo negligenciado pelos historiadores, não foi o centro das atenções noutras abordagens cinematográficas, entre as quais destaco «The Longest Day» («O Dia Mais Longo»), 1962, de Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Vicki, «The Big Red One» («O Sargento da Força Um»), 1980, de Samuel Fuller, e o ainda mais realista e espectacular «Saving Private Ryan» («O Resgate do Soldado Ryan»), 1988, de Steven Spielberg.
No capítulo dos valores de produção, «Dia D: Sob Pressão» garante os mínimos para nos manter atentos ao desenlace que finalmente resulta na decisão esperada. No desembarque propriamente dito, a matéria sonora e visual (incluindo material de arquivo impecavelmente restaurado) possui a força e o impacto de uma apurada reconstituição, mantendo o realismo e a extrema violência a que estiveram expostos os soldados naquele dia 6 de Junho de 1944, naquilo que foi na maioria das praias uma brutal e sangrenta carnificina.
Finalmente, a Direcção de Fotografia de Jamie D. Ramsay dá-nos uma visão muito aproximada dos processos de cor da época (nomeadamente o Kodachrome) e o estilo de composição visual conjuga-se com a planificação proposta onde predomina uma escala humana, permitindo aos actores encontrar espaço para respirar e demonstrar as suas aptidões e capacidades dramáticas.
Título original: Pressure
Realização: Anthony Maras
Elenco: Andrew Scott, Brendan Fraser, Kerry Condon, Chris Messina, Damian Lewis
Duração: 100 min.
Reino Unido/França/EUA, 2026



