«Blue Moon» de Richard Linklater, com Ethan Hawke e uma lição de arte de como transformar um bar num palco da alma, sem explosões, multidões, drones e três continentes para contar uma história. De facto, Richard Linklater, precisou apenas de um bar, meia dúzia de actores, bons diálogos e uma noite mal resolvida para fazer cinema a sério. “Blue Moon” é isso mesmo: um filme passado quase todo num balcão da Broadway, em 1943, durante a noite da estreia do famoso musical “Oklahoma!”, que se transforma, lentamente, num retrato comovente, irónico e cruel sobre talento, decadência, ego, solidão e tempo perdido.
Aqui não há fogos-de-artifício narrativos. Há copos a encher, copos a esvaziar, silêncios desconfortáveis, piadas defensivas, ressentimentos antigos e uma ferida aberta chamada Lorenz Hart. Ethan Hawke entra em cena como um pequeno furacão alcoólico, frágil, insolente, brilhante e auto-destrutivo. E nunca mais sai. É um daqueles papéis em que o actor parece ter decidido: “vou dar tudo, nem que me parta ao meio”.

E parte-se. Fisicamente, emocionalmente, artisticamente. Hawke encolhe-se, deforma-se, tropeça, fala demais, fala de menos, seduz, afasta, humilha-se e comove. Constrói um Lorenz Hart que é ao mesmo tempo génio, criança perdida, palhaço triste e fantasma em pré-aviso de morte. É, sem exagero, uma das melhores interpretações da sua carreira e isso, vindo dele, não é coisa pouca. A nomeação aos Óscares 2026 não é um favor. É justiça poética. Porém, a concorrência é muito forte.
Andrew Scott, como Richard Rodgers, funciona como contraponto perfeito: contido, educado, bem-sucedido, desconfortável com o passado que ainda respira ao seu lado. Já Margaret Qualley traz leveza e empatia a um universo masculino carregado de ressentimentos. E Bobby Cannavale, como barman-filósofo de balcão, é o fio discreto que mantém tudo em equilíbrio.
Linklater filma tudo com a sua habitual elegância invisível. A câmara não impõe, não grita, não sublinha. Observa. Escuta. Confia nos actores. Confia no texto. Confia no tempo. E, sobretudo, confia no espectador, coisa cada vez mais rara no cinema contemporâneo.

Como em «Before Sunrise» ou «Boyhood», o tempo é aqui matéria-prima. A narrativa desenrola-se quase em tempo real, como se estivéssemos sentados numa mesa ao lado, a beber o mesmo uísque e a assistir, constrangidos, ao naufrágio emocional de um homem que sabe que já perdeu.
Mas «Blue Moon» não é um filme deprimente. Pelo contrário. É triste, sim, mas também é engraçado, espirituoso, mordaz, cheio de humor ácido e pequenas crueldades deliciosas. Linklater percebe que os grandes dramas humanos raramente acontecem com música épica em fundo. Acontecem entre piadas mal encaixadas e silêncios embaraçados.
No fundo, este é um filme sobre o que acontece quando o talento já não chega para salvar ninguém. Quando a história avança sem controlo. Quando o sucesso dos outros se transforma no nosso próprio epitáfio. Hart vê Rodgers triunfar. E vê-se a si próprio desaparecer. E tenta, desesperadamente, fingir que não dói. Dói. Muito. Visualmente elegante, musicalmente melancólico, dramaturgicamente preciso, «Blue Moon» é um daqueles filmes “pequenos” que afinal são enormes. Uma peça de câmara sobre vaidades feridas, amores impossíveis e sonhos fora de prazo. É cinema para gente que gosta de actores, de palavras, de personagens, de emoções sem filtro. Mas, mais do que prémios, «Blue Moon» confirma uma coisa simples: quando Linklater e Hawke se juntam, ainda acontece magia. Sem efeitos especiais. Sem histerias. Sem truques. Só cinema. Do bom.
Título Original: Blue Moon Realização: Richard Linklater Com: Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley, Bobby Cannavale Origem: EUA/Irlanda Duração: 100 minutos Ano: 2025 Género: Drama

