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Crime em Direto

«Crime em Direto» retoma um episódio real ocorrido nos Estados Unidos dos anos 70 para construir um retrato tenso de um homem encurralado por um sistema que o empurrou para a margem. Gus Van Sant, cineasta atento às zonas de fractura da sociedade americana, regressa aqui a um território que atravessa parte da sua filmografia: histórias inspiradas em factos reais e marcadas por figuras solitárias em confronto com estruturas de poder e exclusão. O gesto desesperado que desencadeia a acção — simultaneamente denúncia, espetáculo e pedido de atenção — não nasce de um impulso irracional, mas de um longo processo de humilhação e invisibilidade social.

Com um olhar quase claustrofóbico, o filme acompanha Tony (Bill Skarsgård) nessa espiral de revolta, revelando como a injustiça estrutural se infiltra na vida quotidiana até tornar o desespero uma forma de linguagem. O protagonista procura dirigir a sua raiva contra os responsáveis directos: os donos da empresa que o enganaram, as instituições que o ignoraram, a lógica económica que o tornou descartável. Há aqui uma clareza moral desconfortável. Não se trata de um homem “fora de controlo”, mas de alguém que recusa desaparecer em silêncio.

Visto a partir do presente, o filme ganha uma ressonância inquietante. As desigualdades que já então produziam vidas precárias tornaram-se ainda mais profundas no mundo ocidental contemporâneo. No entanto, enquanto Tony tenta responsabilizar quem detém poder real, hoje assistimos frequentemente a um desvio perigoso: a frustração social é redirecionada contra os mais vulneráveis — migrantes, minorias, trabalhadores precarizados — transformados em bodes expiatórios de um mal-estar sistémico.

«Crime em Direto» não romantiza a violência nem oferece soluções fáceis. O que expõe é a fragilidade do pacto social quando a dignidade deixa de ser garantida. O momento explosivo que vemos no ecrã não é apenas um clímax narrativo; é o sintoma de uma sociedade que falhou, que não quis ouvir. Ao recuperar esta história, Van Sant recorda-nos que o verdadeiro perigo não reside apenas nos actos extremos, mas nas estruturas que os tornam pensáveis e, por vezes, inevitáveis.

Título Original: Dead Man’s Wire Realização: Gus Van Sant Actores: Bill Skarsgård, Dacre Montgomery, Al Pacino Duração: 105’ Ano: 2025 Origem: EUA

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Catarina Maia
Catarina Maia
Catarina Maia é crítica de cinema, editora de conteúdos e investigadora independente. Escreve regularmente para a revista METROPOLIS desde 2013, entre críticas, entrevistas e ensaios sobre cinema contemporâneo, cultura visual e cinema de autor. Licenciada em Estudos Artísticos e pós-graduada em Estudos Fílmicos e da Imagem pela Universidade de Coimbra, cruza frequentemente o pensamento cinematográfico com questões sociais, éticas, ecológicas e urbanas. Paralelamente, desenvolve trabalho na área da comunicação cultural e coordena o projeto cívico de cariz ambiental Jardim Monte Formoso, ligado à biodiversidade e ao espaço público. Interessa-se particularmente pelas relações entre cinema, ética, memória e justiça social. A frase “Não gastes tudo em freiras”, do filme As Bodas de Deus (1998), de João César Monteiro, permanece como mote pessoal, entre a ironia, a ternura e a desobediência.

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