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Um Poeta

No filme «Un Poeta» («Um Poeta»), 2025, do colombiano Simón Mesa Soto, cedo damos de caras com o dito poeta, Oscar Restrepo (um surpreendente Ubeimar Rios), um vencido da vida que se concorresse ao concurso de mais mal parido da cidade de Medellín podia perfeitamente vencer o prémio com visível mérito e distinção. Já do ponto de vista intelectual, e sobretudo da sensibilidade para as coisas humanas, a coisa mudava logo de figura, e ao longo das mil e uma peripécias da narrativa ele demonstra bem, como se costuma dizer, que quem vê caras não vê corações.

Na verdade, este homem precocemente envelhecido, alcoolizado, sem emprego certo ou sustentável, que continua a olhar de frente a arte poética, melhor, a respirar poesia como outrora o fizera na procura de fama e sucesso. Arrasta hoje a sua carcaça desengonçada num quadro existencial em que essa actividade literária constitui uma espécie de areia fina e dourada que se lhe vai escapando por entre os dedos.

Na primeira oportunidade de reencontrar um rumo e algum rendimento para as suas parcas despesas iremos vê-lo professor numa escola de alunos oriundos de bairros difíceis (leia-se, social e economicamente deprimidos) onde a certa altura encontra, quase por acaso, uma aluna mestiça (um estigma, mesmo num país sul-americano de larga miscigenação) com quem vai estabelecer uma crescente relação de cumplicidade. Na prática, ela representa a outra face de uma moeda numa relação de que ambos são protagonistas e almas gémeas, mesmo quando esse protagonismo parece improvável. No caderno em que a jovem Yurlady (Rebeca Andrade) escreve os seus poemas e desenha ilustrações de visível qualidade e impacto visual. O igualmente improvável professor descobre uma força vital e uma sensibilidade que vai querer partilhar com amigos e menos amigos, gente mais ou menos influente de um círculo de escritores, poetas e livreiros que entre outras iniciativas organizava regulares sessões de leitura e mantinha uma Escola de Poesia destinada a acolher e promover os poetas locais.

O nosso herói possui o dom, não direi raro, mas sistemático, de se meter em alhadas monumentais. Ao querer ajudar os outros, acaba quase sempre por fazer mal a si próprio, comprometendo a sua já de si frágil situação face aos que lhe são mais próximos e queridos. Iremos ver isso mesmo na intimidade do seu quadro familiar, e nesse contexto a relação com a mãe será decisiva para ditar o desconforto existencial em que cai com voraz frequência, a que se junta a desesperada busca de uma caução de amizade e compreensão por parte da filha, que não vive com ele, mas sim com a mãe. Este remoinho diário que augura o pior constitui uma espinha cravada na sua garganta e atinge uma dimensão que se perpetua ao longo da narrativa como um dos afloramentos dramáticos mais duros de roer.

Não admira que ele seja, na Direcção de Fotografia de Juan Sarmiento G., alvo de grandes planos que fixam o seu rosto, olhar melancólico, boca entreaberta (como a de quem precisa ganhar novo fôlego para seguir em frente). Farrapo de homem que, aqui e além, não hesita em gritar e vociferar as suas convicções como se não houvesse amanhã. E fá-lo com laivos de vernacular prosa urbana, nada poética. Nomeadamente quando bebe, e muito.

Por outro lado, sobre Yurlady, o mínimo que se pode dizer é que, numa perspectiva realista, ela aproveita as portas abertas por Oscar Restrepo e pelos que nos meandros da cultura local a vão acolher, ao início relutantes e depois com surpresa (mais uma vez o estigma da menina pobre, a quem poucos dariam uma oportunidade, não fosse a insistência do poeta maldito). Mas, na verdade, há nela um querer que colide com igual resistência em enfrentar as luzes da ribalta, que de algum modo possui raízes no facto de o seu quotidiano estar cercado e condicionado pela marginalidade financeira da sua povoada célula familiar.

No retrato que faz da família de Yurlady, onde impera a miséria remediada e a fome latente, o realizador não poupa na sua visão crítica os diversos membros que a compõem. Todavia, mesmo quando isso até se justificava, não exagera ao ponto de os considerar um bando de rufias subdesenvolvidos ou um grupo de oportunistas sempre a querer faturar com a caridade alheia. De certo modo, os chamados “feios, porcos e maus”. Mas isso só ajuda a fazer-lhes a folha quando salta para cima da mesa o espectro da corrupção pura e dura das suas almas face a uma série de negociações canalhas onde sobrevive o encobrimento para obter dúbios benefícios, ao invés da defesa dos princípios que sibilinamente invocavam, quer fossem fundamentadas ou não as suas razões de queixa. E, na sequência da embrulhada, a “virginal” poetisa será vítima das boas e más-consciências, destacando-se pela diferença de comportamento e pelo modo como vai ultrapassar uma situação comprometedora, para ela e para o seu pobre amigo poeta, após um acontecimento inesperado com algo de caricato e sobretudo de involuntário, que desgraçadamente ocorrera na noite da sua suposta e precoce consagração.

Também ela ficará pelo caminho? No filme não se dá uma resposta conclusiva, o que não é um defeito, mas uma virtude.

Por muito que pareça, nas sequências finais não estamos, felizmente, no domínio do melodrama redentor. “Um Poeta” apresenta-se como uma contundente comédia satírica, mordaz, espalha-brasas q.b., que vale a pena ver de fio a pavio. Não posso senão recomendar aquele que foi o Prémio do Júri atribuído no Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2025.

Para rematar a história de um poeta feio em busca de um poema lindo ou, como se diz no filme, de um poema feliz, aqui ficam as motivações do realizador: “É o projecto mais pessoal que já fiz. Começou com uma pergunta íntima: e se eu falhasse na arte? Fazer filmes na Colômbia é incrivelmente difícil e depois da minha primeira longa-metragem considerei seriamente desistir. Imaginei-me aos cinquenta anos, a ganhar a vida como professor — que, aliás, ainda é como pago as contas— e a sobreviver de memórias idealizadas de uma vida passada na arte. Queria também explorar a arte a partir de dentro: o que significa criar, as limitações que impõe, os compromissos que exige. O filme surgiu de uma espécie de exaustão relativamente à maquinaria da arte e de um anseio por fazer algo livre, sem forma, com um espírito quase punk. Foi uma forma de me reencontrar com o que o cinema já significou para mim. Em vez de me retratar como cineasta, escolhi a figura de um poeta, porque ser poeta é, no mínimo, ainda mais utópico”.

Título original: Un Poeta
Título internacional: A Poet
Realização: Simón Mesa Soto
Elenco: Ubeimar Rios, Rebeca Andrade, Guillermo Cardona
Duração: 123 min.
Colômbia/Alemanha/Suécia, 2025

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João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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