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Dois Procuradores – Sergei Loznitsa

O ucraniano Sergei Loznitsa aponta à Rússia, através de uma história passada na então União Soviética, em 1937, em pleno estalinismo. Um novo procurador descobre uma carta de um prisioneiro, que sobreviveu à destruição, denunciando a corrupção no seio da polícia política. O realizador, que filmou em 2012 «O Milagre de Santo António», uma curta produzida para o Curtas Vila do Conde, fala à Metrópolis de «Dois Procuradores», estreado mundialmente na edição de 2025 do Festival de Cannes.

O que viu neste período histórico, os anos 30 na União Soviética, que ainda pode dialogar connosco hoje?

Sergei Loznitsa: Acho que este é um filme sobre aquilo que está a acontecer agora e sobre aquilo que pode acontecer em países onde ainda não aconteceu, mas onde pode vir a acontecer. Porque todos os países têm burocracia e, por vezes, surgem líderes autoritários que querem ter mais poder do que aquele que têm agora. E esta história mostra-nos, numa escala mais ampla, o conceito desse sistema. E também a ingenuidade das pessoas que acabam por se tornar vítimas desse sistema.

É o caso do protagonista da sua história?

Sergei Loznitsa: Ele quer apenas cumprir o seu dever, aquilo que deve fazer caso algo de errado aconteça nesse sistema. Mas este conceito do herói romântico não funciona de todo. Vivemos numa civilização diferente, mas continuamos a seguir este conceito. Estou apenas a falar da Rússia, mas é possível reconhecer alguns elementos em diferentes países. Kafka não falava da Rússia, mas o filme faz-nos lembrar os romances dele.

A impotência da personagem, também a sente, como pessoa e como cineasta?

Sergei Loznitsa: Podemos fazer filmes sobre este tipo de temas. Podemos apresentar filmes nos melhores festivais do mundo. As pessoas podem ver esses filmes e depois discuti-los. Os jornalistas podem escrever artigos. Estamos sem esperança? Ainda não. Mas não sei se na Rússia alguém poderá escrever sequer uma linha sobre este filme. Em certos territórios existe um sistema assim.

Depois de vários anos a fazer documentários, decidiu regressar à ficção…

Sergei Loznitsa: O último filme de ficção que fiz foi em 2018, «Donbass». Depois disso preparámos um grande filme épico sobre o Holocausto na Ucrânia. Estávamos prontos para começar em 2020. E veio a pandemia. Depois, em 2022, estávamos outra vez prontos para começar. A guerra na Ucrânia destruiu os nossos planos. Íamos filmar no verão, na Ucrânia. E encontrei agora uma maneira de fazer outro filme, também sobre coisas muito importantes.

Mas, entretanto, fez vários documentários.

Sergei Loznitsa: Acho que no total são umas 15 horas. É difícil despedirmo-nos de um projeto com o qual vivemos durante dez anos. Continuo a ter esperança porque gostaria de filmar na Ucrânia.

Já o expulsaram da Academia Ucraniana de Cinema apenas porque disse que existem bons realizadores russos.

Sergei Loznitsa: Isso já é uma história antiga. Nem sequer é interessante voltar a lembrá-la ou falar dela. Não teve qualquer papel na minha vida. Talvez essas pessoas venham a sentir vergonha mais tarde. Veremos.

Também fez um filme sobre o funeral de Estaline…

Sergei Loznitsa: Gostaria de continuar a descrever este regime totalitário porque essa é a nossa dor recente. E não é apenas a dor da Ucrânia, porque a Rússia nos invadiu e continua esta guerra agressiva. É também um problema europeu, porque a Rússia destruiu todos os acordos existentes na Europa desde 1945, ou desde 1943, na Conferência de Ialta. Vivemos num mundo muito instável, como sobre um vulcão. E eles olham agressivamente para o Ocidente.

Nos seus filmes sente-se sempre atraído por temas muito sombrios e destinos trágicos.

Sergei Loznitsa: Sim, gostava de fazer uma comédia. Mas acho que este tema é tão importante. E se puder ajudar as pessoas, levá-las a refletir e a não serem ingénuas como o nosso herói, ficarei mais feliz.

A Ucrânia continua a defender a ideia de recuperar todos os territórios ocupados. Pensa que é possível?

Sergei Loznitsa: Não tenho a certeza. Como é que os russos irão dizer: “Desculpem, foi um pesadelo, enlouquecemos como um psicopata num filme de Hitchcock, levem-me para Haia, prendam-me e façam um julgamento”? Alguém podia fazer um filme sobre isso. E muita gente iria adorá-lo. Seria uma espécie de «Dr. Strangelove», do Kubrick. Gostava de fazer um filme assim. Escrever um argumento. Toda a gente gostaria de ver isso. Ionesco fez «A Morte de Estaline». Mas na vida real não creio que isso aconteça. Infelizmente. É uma grande dor para mim aquilo que aconteceu ao meu país.

Nasceu onde hoje é a Bielorrússia, certo?

Sergei Loznitsa: Nasci na Bielorrússia, mas apenas porque o meu avô, durante a guerra, se deslocava devido ao serviço militar. Era oficial.

Voltando ao filme, quando e como encontrou o livro de Georgi Demidov?

Sergei Loznitsa: A história desse livro é também uma história à parte. Talvez alguém faça um filme sobre isso. Ele foi preso em 1937 e passou 14 anos no Gulag, nos piores lugares desses campos. Defendeu-se. Lutou contra criminosos e guardas dos campos. E sobreviveu.

O que aconteceu depois?

Sergei Loznitsa: Nos anos 50, quando foi libertado, escreveu todas as suas memórias. Lia-as aos vizinhos e amigos. Então o KGB apareceu. Um agente perguntou-lhe: “Pode dar-me o manuscrito?” Ele entregou-o. Eles leram-no e disseram: “Está muito forte, são romances muito sérios. Pode guardá-los sem os mostrar a ninguém durante vinte anos?” E Georgi Demidov, que era uma pessoa calma, respondeu: “Não. Nunca.” Depois disso prenderam todos os manuscritos. Ele morreu e nenhuma linha dos seus textos foi publicada.

Quando é que foram finalmente publicados?

Sergei Loznitsa: A filha lutou para recuperar os manuscritos. Finalmente conseguiu, com a ajuda de Alexander Yakovlev, um colaborador próximo de Gorbatchov. O primeiro livro foi publicado em 2008. Só a memória desta pessoa já me levou a querer fazer este filme.

Não é estranho os soviéticos não terem destruído esses manuscritos?

Sergei Loznitsa: Os regimes totalitários têm arquivos muito perfeitos. Estive num arquivo em Espanha e, depois de Franco, eles conservaram não só as imagens usadas nos noticiários cinematográficos dos anos 30 e 40, mas também tudo aquilo que nunca foi utilizado. Normalmente isso seria lixo. Mas eles guardavam tudo. Porque quem possui estas memórias controla o mundo. Isso é conhecimento.

Em Portugal tivemos censura, cortavam partes dos filmes e hoje temos todos esses fragmentos nos arquivos cinematográficos. Centenas de pedaços. Não os destruíram.

Sergei Loznitsa: É uma espécie de paranoia. Primeiro porque ninguém quer assumir responsabilidades. Em segundo lugar, simplesmente porque querem guardar tudo. Como existe censura sabem que ninguém verá aquilo. Mas, a certas pessoas, mostram.

Onde é que filmaram as sequências da prisão?

Sergei Loznitsa: Em Riga. É uma prisão antiga, construída em 1905. Cem por cento usada para matar pessoas e torturá-las. Cem por cento. E esse espírito ainda permanece naquele lugar.

O Sergei licenciou-se em Matemática e fez pesquisa em Inteligência Artificial. Como vê a situação hoje, aplicada ao cinema e às artes?

Sergei Loznitsa: Hoje um computador joga xadrez contra Kasparov, campeão mundial, e ganha. Mas o xadrez continua a existir. Porque o xadrez é um jogo que pode ser descrito: tem passos ilimitados, mas regras limitadas. O nosso cérebro vive em circunstâncias com regras ilimitadas. O computador não consegue criar programas nem predicados para si próprio. Temos de acreditar em alguma coisa. E a questão da crença não pode ser descrita matematicamente.

Não vê o futuro com alguma preocupação?

Sergei Loznitsa: Penso que não precisamos de nos preocupar com isso. Sim, alguém pode escrever uma carta. Mas um romance como os de Tolstói ou Dostoiévski só pode ser escrito por Tolstói ou Dostoiévski. Filmes como os de Hitchcock são impossíveis de reproduzir. Seriam filmes aborrecidos.

Devemos então manter a esperança?

Sergei Loznitsa: Primeiro, devemos compreender o sistema e a forma como ele funciona. Isso é o mais importante. Depois, encontrar uma forma de não ser ingénuo. O conhecimento ajuda-nos.

João Antunes
João Antunes
Jornalista e crítico de cinema, trabalhou durante várias décadas na Cinemateca Portuguesa. É membro da FIPRESCI, tendo feito parte dos seus júris em Cannes, Berlim e outros festivais, e da Academia Europeia de Cinema. Foi professor de História do Cinema e História do Cinema Português na Universidade Moderna. É autor de uma dezena de livros, produziu várias curtas-metragens, difundidas na NETFLIX e no Canal ARTE e encontra-se atualmente a realizar o seu primeiro filme.

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