Realizadora com uma carreira prolífica, à espanhola Isabel Coixet sempre faltou uma marca. Qualquer coisa que a distinguisse no panorama – neste caso, internacional, uma vez que a sua filmografia é maioritariamente falada em inglês (mudou-se para os Estados Unidos nos anos 1990). Entre os temas do amor e da morte e coisas apenas simpáticas como «A Livraria» (2017), que adapta o romance homónimo de Penelope Fitzgerald, estamos perante um cinema sem grande chama, mas porventura amadurecido na sua mais recente expressão italiana. A saber, «Três Vezes Adeus», não sendo a prova suprema de uma cineasta inspirada, é pelo menos um filme que encontra a sua nota justa na conjugação de Roma com Alba Rohrwacher, atriz capaz de fazer florir um drama inicialmente comum.
Baseado num livro de contos de Michela Murgia, escritora que morreu de cancro aos 51 anos, em 2023, «Três Vezes Adeus» centra-se, pois, numa mulher, Marta, que descobre ter cancro não muito tempo após a separação do homem com quem vivia. O filme, de resto, arranca de um modo algo banal: Marta e António estão de mota, param no supermercado para comprar biscoitos e, já em casa, desenvolvem uma discussão tão frouxa que não se imagina a chegada a um ponto de rutura. Este ocorre, quase sem darmos por isso, e, nos dias seguintes, a mulher abandonada debate-se com os termos de um vazio insuportável. Na escola, onde é professora de educação física, tem pouca paciência para um colega chatinho (interpretado pelo espanhol Francesco Carril), e no restaurante do ex-companheiro (Elio Germano), que é chef, os ânimos também não estão em alta, apesar de “a vida continuar”.

Tudo muda, porém, quando as indisposições de Marta a levam ao médico. A partir daí, tomando conhecimento do estado avançado do seu cancro, mas agarrada a uma leve esperança que lhe dão no hospital, a mulher que no princípio tinha o rosto fechado, passa a transmitir uma luz comovente, passeando por Roma de bicicleta como se na mala a tiracolo transportasse um otimismo desconcertante. E mesmo em casa a mudança é bonita de se ver: Marta passa a alimentar-se melhor e estabelece com um homem de cartão, que encontrou no lixo ao pé de casa (a imagem de uma pop star coreana), uma relação mais enternecedora do que insólita; e decide também aprender coreano.
Nesta transformação que se dá na personagem está o ganho de «Três Vezes Adeus», porque permite a Alba Rohrwacher libertar a doçura natural da sua fisionomia, que tão lindamente habita a capital italiana… Não é que, aos muitos filmes que abordam o cancro, Isabel Coixet tenha vindo acrescentar uma obra obrigatória. Mas também não se trata de autoajuda barata. Há aqui um esforço válido, belo, para que a tristeza não seja gratuita; nem demasiado doce a atitude de quem muda as lentes com que olha para a vida. Está ali na fronteira.
TÍTULO NACIONAL: Três Vezes Adeus
TÍTULO ORIGINAL: Tre ciotole
REALIZAÇÃO: Isabel Coixet
ELENCO: Alba Rohrwacher, Elio Germano, Silvia D’Amico
ORIGEM: Itália, Espanha
DURAÇÃO: 122 min.
ANO: 2025




