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Louca-Mente

“Quando a cabeça não tem juízo / E te consomes, mais do que é preciso / O corpo é que paga”: mais de quatro décadas depois da música de António Variações, as palavras do genial artista português continuam a inspirar. «Louca-Mente» fala, justamente, dessa efervescência emocional interior e, neste caso, mergulhamos nas mentes de Piero (Edoardo Leo) e Lara (Pilar Fogliati) durante um encontro amoroso e conhecemos as suas várias emoções que aqui surgem de forma personificada. Temos contacto, assim, com os pensamentos e conflitos internos que vão influenciando cada uma das suas escolhas.

Se a premissa não parece assim tão estranha é porque não o é, de facto. A narrativa acaba por funcionar como uma espécie de adaptação em imagem real, e numa fase adulta da vida, da história de «Divertida-Mente» [«Inside Out»] (2015). Mas a verdade é que o fabuloso filme de animação de Ronnie Del Carmen e Pete Docter se revela superlativo na comparação, sobretudo pelo seu carácter inovador e pelo equilíbrio profícuo entre humor e profundidade dramática.

A comédia italiana consegue atingir alguns desses momentos, mas perde-se noutros tantos, não conseguindo manter uma narrativa coerente, acabando por se despegar do espectador, para o que poderá também contribuir o facto de as “emoções” não estarem claramente identificadas, ao contrário do que acontece, justamente, em «Divertida-Mente» [«Inside Out»]. A questão não passará tanto pela escolha da premissa, que é valorosa na sua essência, mas pela forma como esta é desenvolvida, sobretudo quando temos Paolo Genovese na realização.

Depois de um inspirado «Amigos Amigos, Telemóveis à Parte» (2016), um dos filmes italianos mais carismáticos dos últimos anos  — é, aliás, o filme com mais remakes de sempre, incluindo o francês «Le jeu», 2018) — Genovese tenta recuperar um pouco dessa fórmula, mas fá-lo de forma menos inventiva e cativante. 

Apesar das turbulências narrativas, o elenco é vivaz e demonstra uma envolvente flexibilidade interpretativa na representação das diferentes emoções e de complexidades interiores. Destaque, sobretudo, no lado das emoções, para os sensíveis Vittoria Puccini e Maurizio Lastrico, que voltam a trabalhar em conjunto depois de terem dividido a cena, embora em personagens muito diferentes, na intrigante série «Il processo» [«The Trial»] (2019).

Num filme com as emoções à flor da pele, acaba por parecer que estas nunca chegam, verdadeiramente, a entrar em cena. A falta de conexão sente-se tanto dentro como fora da narrativa: na relação entre as personagens principais e entre a história e o próprio espectador. Ainda assim, esta comédia conceitual poderá ter ajustes mais profícuos num próximo remake (processo que já se encontra, aliás, em andamento). E, quem sabe, resultar numa abordagem mais acentuada e sentida das emoções tão complexas e imprevisíveis da vida adulta.

 Título original: Follemente Realização: Paolo Genovese Elenco: Edoardo Leo, Pilar Fogliati, Vittoria Puccini Duração: 96 min. País: Itália, 2025

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