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O Monte dos Vendavais

Depois de «Uma Miúda com Potencial» (2020) – que lhe valeu o Óscar de Argumento Original – e «Saltburn» (2023), Emerald Fennell chega a «O Monte dos Vendavais» (2026) com uma lógica reconhecível. A violência emocional, o erotismo latente e a utilização estratégica de música pop como comentário contemporâneo já eram traços evidentes nos seus filmes anteriores; aqui, esses elementos não desaparecem – reconfiguram um clássico. A escolha de adaptar o romance O Monte dos Vendavais pode parecer, à partida, um desvio literário, mas revela-se coerente com um percurso interessado em explorar obsessão, desejo e desigualdade sob uma superfície visual sedutora.

No centro dessa reconfiguração estão Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi), cuja relação continua a ser o motor da narrativa. Fennell privilegia a intensidade romântica do vínculo, enfatizando a atração e a fusão emocional em detrimento da violência estrutural que o sustenta. A obsessão permanece, mas é enquadrada por uma sensibilidade que procura empatia e identificação imediata. Ao recentrar o olhar na química e no desejo, o filme aproxima-se de uma leitura mais sentimental da história, preparando o terreno para a sua transformação em objeto concetual.

Promovido como “o maior romance de todos os tempos”, «O Monte dos Vendavais» (2026) carrega um peso simbólico que dificilmente se dissocia da sua receção. A obra nunca foi apenas uma história de amor trágico, mas um retrato áspero de exclusão, ressentimento e violência estrutural. Fennell opta por recentrar a narrativa na dimensão romântica, aproximando-a de um registo mais sensorial e acessível. A tragédia mantém-se, mas surge revestida de uma estética calculada e de uma lógica autoral que privilegia o conceito sobre a densidade dramática, suavizando parte da sua brutalidade original.

A estilização é, talvez, o traço mais dominante desta adaptação. A encenação privilegia composições rigorosas, corpos enquadrados como objetos de contemplação e uma paisagem filmada mais como superfície estética do que como extensão psicológica. As charnecas deixam de ser espaço agreste e indomável para se tornarem cenário coreografado, quase pictórico. A violência emocional permanece, mas é filtrada por uma câmara que parece sempre consciente da sua própria beleza. O resultado não é ausência de intensidade, mas a sua reformulação: o desconforto surge envolto em sedução visual.

É nesse excesso de estilo que o filme ganha identidade e, simultaneamente, perde camadas. A crueza social e a brutalidade estrutural que atravessam O Monte dos Vendavais diluem-se numa abordagem que privilegia atmosfera e conceito. A tragédia continua presente, mas menos como ferida aberta e mais como gesto calculado – uma experiência sensorial antes de ser um confronto moral.

É, contudo, na figura de Heathcliff que essa simplificação se torna mais evidente. No romance O Monte dos Vendavais, a sua origem ambígua e a sua condição de outsider não são meros traços biográficos, mas forças estruturais que alimentam o ressentimento e a violência que atravessam a narrativa. Nesta versão, essa dimensão estrutural é deslocada para segundo plano, favorecendo uma leitura mais imediata e menos conflituosa da personagem. A escolha de Jacob Elordi contribui para essa deslocação: Heathcliff surge menos como corpo estranho e mais como objeto de desejo, o que facilita a empatia, mas reduz a dimensão social e política da personagem. O conflito não desaparece, mas perde densidade – torna-se sobretudo emocional, menos estrutural.

Essa reformulação não esvazia o impacto do filme, mas altera a sua natureza. «O Monte dos Vendavais» (2026) continua perturbador, embora a perturbação surja envolta num romantismo pop que tanto seduz como desorienta. Para espectadores familiarizados com a obra, essa ambiguidade pode gerar uma sensação de desajuste tonal; para outros, funcionará como porta de entrada para uma tragédia estilizada e contemporânea. Fennell não elimina o conflito – reinscreve-o numa lógica estética que privilegia identidade autoral e coerência concetual.

Talvez o problema desta adaptação resida precisamente aí. Ao libertar-se parcialmente do peso estrutural da obra, o filme afirma-se menos como leitura definitiva de Emily Brontë e mais como objeto autónomo dentro da filmografia de Fennell. Ganha consistência enquanto gesto autoral, mas perde parte da complexidade que tornou O Monte dos Vendavais tão inquietante. Entre a fidelidade e a reinvenção, o filme opta claramente pela segunda – e essa escolha diz tanto sobre o presente quanto sobre o clássico que decide revisitar.

Título original: Wuthering Heights Realizador: Emerald Fennell Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau Origem: Reino Unido Duração: 136 minutos Ano: 2026

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