“Três Filmes, Três Países” foi a designação dada ao ciclo de longas-metragens produzidas entre 2023 e 2025 (com a participação da produtora portuguesa Oublaum Filmes) que podem ser vistas em sala numa iniciativa que engloba sobretudo a descoberta de cinematografias com escassa presença no circuito comercial português. São elas: “La Memoria de Las Mariposas” (A Memória das Borboletas), 2025, da peruana Tatiana Fuentes Sadowski, “Ming Tian Bi Zuo Tian Chang Jiu” (Falta Muito Para Amanhã), 2023, do singapurense Jow Zhi Wei, e “Algo Viejo, Algo Nuevo, Algo Prestado” (Algo Novo, Algo Velho, Algo Emprestado), 2024, do argentino Hernán Rosselli.
Desta vez, incidimos a atenção na primeira longa-metragem do realizador Jow Zhi Wei, o interessante mas algo desequilibrado «Falta Muito Para Amanhã», que estreia a 28 de Maio. Nesta obra de ficção situada em Singapura e nas florestas de Taiwan, podemos destacar duas partes: as que correspondem ao período em que um homem e o seu filho convivem, nem sempre de forma harmoniosa ou pacífica, e um outro em que após a morte do pai (viúvo), o filho (órfão) se vê a braços com o serviço militar obrigatório e com alguma deriva existencial. Esta separação das águas ficcionais determina um antes e um depois que será consubstanciado numa ficção relativamente bem urdida.

Temos, por um lado, o referido pai, Chua (interpretado por Leon Dai, actor e realizador, natural de Taiwan), que ganha a vida a fumigar instalações industriais e aterros de resíduos supostamente perigosos (supomos que com pesticidas e contra a eventual propagação de pragas que pusessem em risco a saúde pública) e, por outro, o filho, Meng (Edward Tan), que frequenta uma escola onde se cruza com colegas dos quais, no mínimo, poderíamos dizer não serem flores que se cheirem. Ao contrário do progenitor, o jovem Meng parece fadado para muita coisa menos para dar o corpo ao manifesto no campo laboral. Na empresa onde encontramos Chua, muitos imigrantes birmaneses ganham a vida em condições mais do que precárias. Por serem ilegais, são explorados sem dó nem piedade, inclusivamente, por aqueles colegas que, mesmo considerando as diferenças na hierarquia, com eles deveriam assumir algum grau de solidariedade.
O filme pode ser visto como um retrato impiedoso do proletariado numa Singapura que ostenta o rótulo de grande potência económica (o país mais moderno do mundo, blá, blá, blá) mas onde se esconde uma contínua utilização de mão-de-obra estrangeira, alguma da qual vai e vem diariamente de suas casas, por exemplo, da Malásia (não se diz no filme, mas sabemos nós), demorando horas e horas na deslocação e na burocrática passagem da fronteira. Diz-se que o fazem porque são mais bem pagos, mas o preço desse sacrifício nem sempre vale o correspondente benefício.

«Falta Muito Para Amanhã» não esconde o mal-estar social que se vive na cidade-estado insular, assinalando a certa altura o que na prática devíamos considerar um crime, ou seja, o abandono numa viela de um imigrante que sofrera um acidente. E quem o abandona? Nem mais, Chua. De igual modo, não se escamoteia a necessidade que Chua sente de esticar a corda até ao limite das suas forças para impor um ritmo constante de serviços atrás de serviços, para ganhar dinheiro extra, que acaba por o arrastar para uma situação irreversível. E aqui entra, nesta equação de gente perdida nas margens da sociedade do Sudeste Asiático, o desvio de comportamento do filho Meng que, após um incidente provocado por alguns rufias que o haviam antes molestado, o empurra para uma recruta compulsiva nas florestas de Taiwan. Infelizmente, as armadilhas do desconhecido e um ou outro episódio que fica por esclarecer fragilizam esta segunda parte, assim como o impacto emocional do agora soldado em busca de um qualquer sentido para a vida, algo que se apresente como alternativa.
Dito isto, não posso deixar de salientar o melhor que o filme nos oferece: a excelência da Direcção de Fotografia de Russell Adam Morton, sobretudo a sua inegável e bem visível contribuição na criação de atmosferas precisas com que envolve de sombras e luz filtrada a progressão das personagens nas principais sequências, quer urbanas, quer no seio da Natureza. Neste último contexto, o destaque maior vai para o magnífico movimento de grua que antecede o genérico final. Se o filme se resumisse a um só plano, este recebia as minhas cinco estrelas.
Título original: Míng tian bi zuo tian chang jiu
Título internacional: Tomorrow is a Long Time
Realização: Zhi Wei Jow Elenco: Leon Dai, Edward Tan, Neo Swee Lin
Duração: 106 min.
Singapura/Taipei/ França/Portugal, 2023
Fotos: © Akanga-Film-Asia



