Ao quarto filme, com um suposto universo partilhado semi-abortado e um realizador original, [James Wan], fora do baralho, o que resta à saga The Conjuring? Digamos, um modelo. Um modelo estandardizado! O casal de investigadores do paranormal, os Warrens (Ed e Lorraine), avança para outro caso, prometendo ser o mais arrepiante e perigoso do seu currículo. Mera estratégia de marketing, desde as palavras estampadas “baseado em factos verídicos” até aos próprios sustos, nada de diferenciador para com os demais três filmes. Está tudo lá, no joguete do assombro: o jumpscare adivinhável a léguas, os brinquedos amaldiçoados e outra cangalhice, os demónios com as mesmas vestes e caracterização, e uma banda sonora ensurdecedora a denunciar os mesmos truques. Aliás, só cai quem quer, e esse querer é nomeadamente dos órfãos do terror-passerelle que este ano nos tem reservado, desde «Volta Para Mim» a «A Meia-Irmã Feia», de «Weapons – A Hora do Desaparecimento» a «Together – Juntos», quatro anjos do apocalipse no que diz respeito a trazer bom nome ao cinema de terror industrializado das últimas semanas (uns mais do que outros, claro).

Em«The Conjuring 4: Extrema-Unção», o dever é beatificar o melindroso com base no fácil engenho do terror de estúdio, ser um filme popular para que os espectadores possam acreditar nas capacidades dos Warrens e nas suas cruzadas contra as forças diabólicas. A verdade é que os Warrens eram igualmente vistos como burlões, charlatões, e muitos dos casos em que intervieram foram depressa confessados e descortinados como farsas autênticas (o “poltergeist de Enfield”, por exemplo, inspiração do segundo filme, foi revelado como um embuste pela suposta família assombrada). Os filmes, por outro lado, nunca alcançam esse espaço ambíguo, a dúvida não habita nesta pele, e nem poderia, tal destruiria qualquer potencialidades de comercialização. Portanto, resta “aceitar a carapuça” e a propaganda, e, como santinho, sentar na poltrona e acreditar no dever divino das personagens de Patrick Wilson e Vera Farmiga, mesmo que o filme grite “Factos Verídicos” de forma desalmadamente. Só que aí se encontra o grande problema: aceitá-lo como obra de terror. Desprovido de criatividade nas suas partidas de “borrar-a-cueca”, o quarto The Conjuring (o mais longo da saga) funciona mais como drama familiar do que como episódio de poltergeist e diabretes oriundos do outro lado do espelho. Enquanto os Warrens lidam com as crises existenciais da sua filha, agora adulta e prestes a casar, o filme pontua em ser rotineiro, mas terno. Os fantasmas, quando entram em cena, apenas estorvam, tiram o chão das personagens, da credibilidade, e ruminam nos clichés e, mais uma vez, nessa música que deixa antever tudo e mais alguma coisa. Fracassa naquilo que promete: assustar. Daí acreditar, e nisso devemos acreditar, que a saga não é mais do que uma forma de propaganda e limpeza de imagem, visto que Wan, o realizador tecnicista que ainda dava cor à coisa, já não mora mais na “casa assombrada”.
Título original: The Conjuring: Last Rites Realização: Michael Chaves Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Mia Tomlinson Duração: 136 min. País: EUA, 2025
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