Emerald Fennell pega no clássico de Emily Brontë, despe-o de pudor e transforma o romantismo gótico numa experiência sensorial excessiva, sexy e perigosamente viciante.
O Monte dos Vendavais é um daqueles livros tratados como relíquias religiosas, ainda que muitos lhe tenham tocado, mexido e reinterpretado, com todos os seus fantasmas. Mesmo assim, desde 1847 — quando foi escrito, ou melhor, publicado — o romance de Emily Brontë vive protegido por uma redoma de respeito académico, citado com solenidade, ensinado com reverência e adaptado com aquela prudência típica de quem tem medo de incomodar os puristas. O que Emerald Fennell faz agora no seu novo filme O Monte dos Vendavaisé o oposto disso tudo: acorda o livro, abana-o pelos ombros e pergunta-lhe se ainda sente alguma coisa em relação aos fantasmas do século XIX. E parece que sente. Sente muito, mas livra-se deles.
O Monte dos Vendavais não é, de todo, o filme que muitos leitores fiéis do romance estavam à espera. Fennell não quer mesmo respeitar o texto; quer claramente destacar a pulsão sexual, entre os dois protagonistas. Não quer fidelidade, quer reacção. Não quer contenção, quer excesso. E, sobretudo, não quer distância crítica: quer provocar o corpo do espectador, deixá-lo incomodado, suado, meio excitado, meio culpado. O seu O Monte dos Vendavais não é uma adaptação clássica; é, pelo contrário, uma subversão de uma história que já era, à partida, profundamente subversiva.

A trama de Brontë continua lá: Cathy (Margot Robbie) a jovem de família privilegiada, mas sem fortuna, Heathcliff (Jacob Ellordi), o pária, o forasteiro socialmente excluído, o amor doentio e obsessivo, a luta de classes, o ciclo de humilhação, vingança e autodestruição. Mas tudo passa pelo filtro muito específico de Fennell, como se alguém tivesse pegado naquele gótico rural do século XIX e lhe tivesse aplicado um luxuoso tratamento estético algures entre Saltburn e uma sessão de terapia colectiva moderna com música demasiado alta. O que antes era sofrimento interior agora é espectáculo emocional. O que antes se insinuava agora transpira e excita.
Muito se falou — e continuará a falar-se — do casting. Margot Robbie surge como Cathy não por erro de casting, mas por provocação consciente. A antiga Barbie global entra aqui numa versão gótica, febril e auto-consciente, sabendo perfeitamente que o escândalo precede a personagem. Tem 35 anos a interpretar uma jovem de 19? É demasiado bela para o papel? Mas tudo isso faz parte do jogo. A Cathy de Fennell já não é apenas uma jovem, não muito bonita, uma alma atormentada: é um corpo belo observado, exibido, decorado, transformado em superfície simbólica de beleza, uma espécie de Barbie que oscila entre o presente e os cânones sociais do século XIX. O famoso quarto forrado com papel de parede inspirado na textura da sua pele e das suas sardas não é uma excentricidade gratuita: é a metáfora central do filme. Ser mulher continua a ser habitar um corpo transformado em cenário, em objecto, em peça de design.

Ao seu lado, Jacob Elordi é talvez a maior surpresa como intérprete. Depois de um Frankenstein algo morno e sem rosto próprio, Elordi redime-se aqui com um Heathcliff à imagem do nosso tempo: menos pária racializado, mais ícone de desejo tóxico, um fantasma bonito demais para ser feliz, um macho trágico de catálogo emocional. O seu Heathcliff não implora empatia; impõe presença e medo. A química entre Robbie e Elordi é real, intensa, quase indecorosa, roça frequentemente o sadomasoquismo emocional e físico, e o filme vive muito dessa tensão carnal, mais suor do que literatura, mais pele do que palavra escrita.
Tudo em O Monte dos Vendavais é exagerado, e não por acaso. A música sobe de volume com violinos dramáticos e batidas contemporâneas. Os cenários parecem sonhos febris ou pesadelos de luxo. Os figurinos podiam ter saído de um desfile temático da Semana de Moda de Paris dedicado à depressão romântica. Há uma névoa quase permanente de suor e chuva, como se aqueles corpos quentes se recusassem a aceitar o frio e as neblinas simbólicas das charnecas. Até o melodrama, que já era muito, se torna ainda mais melodramático e emotivo. E sim, algumas das partes mais sombrias do livro ficam de fora — o que pode frustrar leitores devotos do gótico — mas Fennell não está interessada na arqueologia textual e no género. Está mais interessada no impacto visual.

A banda sonora assinada por Charli XCX é decisiva para essa transposição. O sofrimento romântico transforma-se numa espécie de rave emocional, onde a dor precisa de ser sentida no corpo para existir. Pode parecer heresia, mas há coerência: o amor destrutivo de O Monte dos Vendavais sempre foi excessivo, obsessivo, quase violento. Fennell limita-se a traduzi-lo para a linguagem de um século em que o drama vive tanto da intensidade quanto da sua capacidade de circular como imagem, como som, como meme emocional.
É aqui que o filme inevitavelmente pode dividir. Os puristas apontarão o dedo à idade dos actores, às escolhas raciais — no livro Heathcliff, era um tipo de pele escura, provavelmente vindo como escravo ou prisioneiro, em algum navio do Oriente — à sexualização explícita, ao anacronismo, à indulgência estética. E terão razão, mas apenas se o critério for o da fidelidade literária ao original. Fennell não joga esse jogo. Tal como já fizera em Uma Miúda com Potencial ou em Saltburn, interessa-lhe mais desmontar mitologias do que preservá-las, mais provocar desconforto do que consenso. O seu cinema é um pouco pretensioso, narcisista, exagerado e, por vezes, desequilibrado. Mas nunca é morno. Nunca é neutro. Nunca é irrelevante.

Há um momento, a meio do filme, em que tudo parece calmo: o casal está feliz, o sol ilumina a relva, o ritmo abranda perigosamente, com belas cenas de amor e sexo desenfreado, nos quartos ou à chuva. É quase desconcertante. Mas a felicidade, neste universo, dura pouco. Felizmente. Porque o público não veio para isso. Veio para sofrer. Veio para ver personagens a destruir-se com estilo. Veio para sentir aquele prazer meio culpado que só o grande melodrama oferece quando é filmado sem vergonha e sem pudor.
No fim, O Monte dos Vendavais, de Emerald Fennell, não é um filme para quem quer rever, mais uma vez entre as muitas já feitas, o clássico da literatura mundial. É para quem aceita vê-lo colidir com o presente. Não é uma história de amor redentor, mas um ensaio visual sobre desejo, ego, auto-aniquilação e um grande espectáculo operático. Pode ser excessivo, pode ser discutível, pode ser até irritante. Mas é vivo. E num panorama cinematográfico cada vez mais bem-comportado, ver um clássico reanimado com coragem, delírio e algum humor cruel é, no mínimo, refrescante. Saímos do cinema sem saber se assistimos a uma blasfémia ou a um enorme gesto de liberdade artística. Provavelmente assistimos às duas coisas. E isso, convenhamos, Emily Brontë teria certamente apreciado. E creio que todo este dispositivo vai funcionar junto do público: O Monte dos Vendavais tem tudo para ser um sucesso de bilheteira.

