Babylon

BABYLON

BABYLON

«Babylon» é uma carta de amor à Sétima Arte. A nova obra de Damien Chazelle confirma-o como talento e uma certeza entre os cineastas contemporâneos. Autor de filmes galardoados como o drama ligeiro «La La Land: Melodia de Amor» (2016) e o intenso «Whiplash – Nos Limites» (2014), com «Babylon» (2022) a aposta é uma megaprodução de escala épica, a obra mais ambiciosa da sua carreira. É igualmente grandioso o novelo narrativo deste filme que versa sobre o apogeu do cinema mudo e o advento do cinema sonoro enquanto nos dá a conhecer alguns dos protagonistas que fazem rodar a máquina dos sonhos. «Babylon» é uma viagem fantástica ao universo por detrás da magia do grande ecrã. O filme relata a eloquente história de afirmação de Hollywood no mundo do entretenimento de massas. É um relato absolutamente vibrante e, tal como o cinema, é drama, comédia, acção e romance, tudo mesclado em grande espectacularidade e caos, muito caos. A música de Justin Hurwitz, a coreografia de Mandy Moore (vejam a festa de abertura), o trabalho de direcção de arte e o figurino de Mary Zophres é incrível, é uma recriação de época que enche os nossos olhos.

«Babylon» centra-se num punhado de figuras centrais que se cruzam no louco mundo do cinema em Los Angeles dos anos 1920, quando a cidade era ainda uma bola de poeira e estava a dar os primeiros passos para se tornar na meca do cinema. Nellie LaRoy é uma actriz que procura o seu primeiro furo e o infortúnio de uns será a sorte dela. O talento irreverente está bem presente mas também a insanidade, o vício ao jogo, a bebida e as drogas. Invariavelmente, Margot Robbie está brilhante num fio narrativo sobre o talento consumido pelos demónios da sua personagem que têm de coexistir às portas do céu. Diego Calva interpreta Manny, um moço de recados mexicano, um trabalhador nato e uma espécie de fixer para o seu poderoso patrão, chefe de um estúdio de Los Angeles. É uma interpretação muito interessante de Diego Calva. Por um golpe de sorte, Manny torna-se assistente da maior estrela da cidade e começa a dar os primeiros passos na produção. Jack Conrad (Brad Pitt) é a estrela que tem o mundo aos seus pés, um galã com paixão pelo cinema mas que procura outra ambição: algo vital e estimulante nas obras que protagoniza; Jack abre as portas da Sétima Arte a Manny tornando-o seu assistente. Brad Pitt tem um curioso papel melodramático que se confunde com o seu estatuto de mega-estrela que, também na vida real, ambicionou sempre fazer algo mais significativo do que o puro entretenimento.

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Brad Pitt e Li Jun Li


Outros personagens vão surgir em diferentes sub-tramas e estão bem interpretados, são os casos de Jean Smart, Jovan Adepo e Li Jun Li. Estes vão orbitar junto dos três protagonistas principais e aumentar a perspetiva, diversidade cultural e complexidade desta narrativa

Para os espectadores menos atentos à História dos factos e da memória do cinema, «Babylon» é uma deleitosa cápsula temporal numa súmula de mil e uma histórias reais de Hollywood: a actriz em ascensão que consumida pelo próprio sucesso desaparece da memória; as estrelas do cinema mudo que caíram em desgraça com a chegada do cinema sonoro; o poder lendário dos escribas das revistas de Hollywood que criavam e destruíam as estrelas com os seus textos; o racismo e a discriminação em prol do lucro; e o fascínio do cinema pelo mundo do poder, do dinheiro e do crime.

Pela sua ferocidade, «Babylon» não deve ser visto apenas na óptica de narrativa individual, mas deverá ser percecionado como uma visão global de todas as vinhetas que têm princípio, meio e fim e vão surgindo no ecrã. É uma combinação de narrativa tradicional com objectivos bem ousados e radicais. E quanto mais pensamos neste filme, mais temos a convicção sobre o seu movimento perpétuo.

O filme é uma grande história de amor, como também uma grande tragédia, no sentido pessoal, nos relatos destes personagens, e no sentido metafórico, na engrenagem em loop de Hollywood, onde tudo acontece e se repete, seja qual for o ano, a década ou o século. The show must go on, e «Babylon» é o apogeu desse espectáculo.

Título original: Babylon Realização: Damien Chazelle Elenco: Brad Pitt, Margot Robbie, Jean Smart, Diego Calva, Jovan Adepo, Lukas Haas, Li Jun Li, Eric Roberts, Tobey Maguire Duração: 189 min. EUA, 2022

[Texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº90 Fevereiro 2023]

Fotos: © 2023 PARAMOUNT PICTURES

 

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