O que fazer com o ‘filme de festival’? Quando «Girls on Wire» estreou na secção competitiva do Festival de Berlim em 2025, era desde logo óbvio quão forçado o gesto do retrato socio-político. Basta pensar na imagem literal, a partir do do título, que o conduz: os corpos de duas primas que vivem presas a fios e procuram o voo. O filme é potenciado pelo reencontro entre Tian Tian (Liu Haocun) e a prima Fang Di (Wen Qi), que já não se viam há cinco anos, nos estúdios Xiangshan onde Fang Di trabalha como uma dupla de cinema, presentemente num filme de artes marciais. Mas mesmo que esse motif visual consiga ser ultrapassado, os defeitos formais do filme são incontornáveis.
Através de uma narrativa entrecortada, que viaja entre a herança do presente e a construção sentimental dela no passado até toda a história de uma família e da sua queda estar reduzida ao acto de a contar, «Girls on Wire» recheia-se de diálogos expectáveis, nutridos na tipificação do trauma no cinema – “Queres dar cabo da tua vida? / Que vida tive eu alguma vez?” -, deixando o filme cair no reino do que é inócuo e só depois se torna irrelevante. Pelo meio, a metáfora do corvo, introduzido no ninho narrativo, como algo premonitório da morte, capaz de voar ainda assim, só piora as hipóteses de o filme ser mais do que a soma visível das suas partes. Resta-lhe, no entanto, um truque de magia que o sustém no ar, mesmo quando desprovido de pulsão emocional: o impacto que a violência provocada no corpo daquelas duas mulheres, que à dor continuam a resistir, acaba por ter no filme.

A terceira longa-metragem de Vivian Qu, produtora de «Carvão Negro, Gelo Fino», de Yi’nan Diao, que em 2014 arrecadou o urso de ouro em Berlim, é essa uma nota amarga e arenosa. Um plano aproximado a encetar uma crítica à indústria cinematográfica chinesa, por um lado, onde uma dupla pode ser mergulhada em água gelada e puxada fora dela, vezes sem conta, por um sistema de arames que controlam os seus movimentos, sem qualquer preocupação ao seu bem-estar. Por outro, o que uma figura paterna parasítica consegue desencadear.
Se não fosse pela falta de equilíbrio e generalizado amadorismo, talvez o que existe de verdadeiro conseguisse sobressair. Assim, as sequências permanecem distantes, ensaiadas. Curioso como num filme que decorre nos bastidores de outro, não se consegue prescrutar a camada de falsidade, nem por intermédio das representações honestas dos seus actores.
Cada vez se vê mais este cinema-símbolo nos festivais, montado inteiramente de frases feitas e superfícies visuais. Há tanto que este, em particular, poderia dizer sobre o poder da sororidade, sobre perseguir o sonho de uma vida que se consegue desprender da herança familiar, sobre o que significa viver refém de identidade, agarrado a um corpo demasiado exausto para encontrar qualquer alento. Mas «Girls on Wire» permanece rascunho utilitário. Não chega a arrancar.
TÍTULO ORIGINAL: 想飞的女孩 ou Xiang fei de nü hai REALIZAÇÃO: Vivian Qu ELENCO: Haocun Liu, Wen-Qi, Youhao Zhang ORIGEM: China DURAÇÃO: 115 min. ANO: 2025




