«Dossier 137» («Caso 137»), 2025, de Dominik Moll, integrou a Selecção Oficial da Competição do Festival de Cannes de 2025 e na mais recente cerimónia dos prémios da Académie des Arts et Techniques du Cinéma recebeu o César para Melhor Actriz, atribuído a Léa Drucker. Distinção merecida, mas o que importa destacar será antes de mais a coerência deste filme na abordagem estrutural de um caso exemplar (na verdade, num certo sentido da palavra, nada exemplar) de brutalidade policial infligida a um manifestante, entre muitos manifestantes, que a partir de 2018 saíram para as ruas de França, com especial incidência e expressão na capital, Paris, palco de confrontos que em alguns momentos apresentaram contornos de carácter insurrecional.
Estes acontecimentos ficaram marcados por uma imensa mobilização de massas, mas, apesar da sua exuberância, por uma relativa falta de estratégia ou coordenação centralizada. Seja como for, o poder viu nestas vagas de contestação um perigo para a República, falou mesmo de guerra num exercício verbal de puro delírio, e pelo facto de a maioria esmagadora dos que nelas participaram vestirem um colete amarelo, as sucessivas manifestações passaram a ser designadas por esse adereço identificador, ou seja, nasceu então o movimento dos gilets jaunes.
Disse atrás que este sobressalto cívico na sua dimensão e consequências apanhou o poder político numa curva e com alguma incapacidade de promover uma resposta rápida e adequada. Dada a sua natureza inorgânica (muito dependente da sucessão de convocatórias através das redes sociais), uma vez no “campo de batalha” e, de um modo geral, por manifesta falta de medidas de segurança própria e organizada permitiu a infiltração de provocadores, e não será de descartar a hipótese de alguns pertencerem ao lado contrário da barricada, por vezes a meros núcleos de delinquência que aproveitaram a deixa dos protestos, na sua origem legítimos, para causar distúrbios e proceder a uma série de pilhagens no meio da confusão generalizada.
Dito isto, precisamente um dos aspectos mais salientes e que se deve valorizar no filme «Dossier 137» será o facto de a produção no quadro ficcional, baseado em acontecimentos reais, recusar expedientes demagógicos do género “de um lado estão os bons, do outro lado os maus”. Pelo contrário, desde cedo que o argumento (escrito por Dominik Moll e Gilles Marchand) demonstra grande seriedade na interpretação de fenómenos contestatários como os desencadeados pelos “coletes amarelos”, capazes de porem em causa o status quo vigente, e de forma clara mostra que a maioria dos manifestantes são no fundo pessoas comuns que se sentem excluídas pelas elites e pelos privilegiados do capitalismo que muito gostam de beijar a mão aos que circulam nos corredores e no círculo íntimo do poder político, económico e financeiro. Pessoas cujos privilégios, não raras vezes, são ostentados contra os que constituem o proletariado e a pequena burguesia, como por lá se diz, nem sempre pelas melhores razões, “la France qui se lève tôt” (a França que se levanta cedo), frase popularizada pelo ex-presidente Nicolas Sarkozy.

Mas no seio dos que dão mesmo e a qualquer hora o corpo ao manifesto para ganharem o pão nosso de cada dia por um salário cada vez mais escasso, os que no fundo põem a economia em marcha e geram a riqueza, não existem só anjinhos papudos dignos de pertenceram a um qualquer altar socialmente deprimido ou radiante de luz que ilumine a esperança de um futuro melhor. Há muita gente (regra geral pouco politizada e sobretudo mais zangada do que consciente da sua força de classe) que, por falta de enquadramento ideológico, quando se dispõe a protestar gera simplesmente o caos e nada mais. De igual modo, o filme não faz a apologia no abstracto das chamadas forças da ordem, porque, como veremos, existem grupos de operacionais (cuja identificação no contexto policial pode não ser imediata, mais parecem milícias para-militares) que nestas ocasiões de confrontação social usam e por vezes abusam da força que lhes foi atribuída pelo Estado.
No filme, a abertura do Dossier 137 será precisamente o momento fundador que irá desencadear a investigação sobre uma dessas situações de abuso e violência, neste caso por parte de membros da BRI (Brigade de Reserche et d’Intervention). E o que se passou, afinal? Um manifestante (o jovem Guillaume Girard, que a realização nos introduz ao início e logo pela manhã, junto com a família, na estrada rumo a Paris para ali participar nos protestos) ao princípio da noite será apanhado no “fogo cruzado” dos insultos e provocações que outros gilets jaunes, sem qualquer relação com ele ou o seu companheiro de ocasião, haviam de algum modo iniciado. Os polícias da força especial de repressão que, entretanto, passavam no local, uma rua mais ou menos deserta não muito longe do epicentro das convulsões, os Campos Elísios, irão usar as chamadas LBD (Lanceur de Balles de Défense), igualmente conhecidas por“flash ball”. Trata-se de uma arma com um projéctil concebido para se deformar quando do impacto, supostamente para limitar o risco de penetração num corpo vivo. Só que, disparada a curta distância, a bala pode ser letal ou provocar danos graves, mesmo irreversíveis, como sucedeu na realidade a vários manifestantes e, nesta ficção, ao rapaz que a má-sorte e alguma ingenuidade arrastaram para o sítio errado, no minuto errado.

Do incidente iremos saber mais pormenores durante o inquérito realizado pela IGPN (Inspection Générale de la Police Nationale), a polícia que investiga a polícia. E aqui entra em cena a agente Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), cuja missão vai ser a de investigar e escrutinar os passos dados pelos seus colegas (não deixam de o ser perante a lei) e revelar não só os rostos como a identidade dos membros do BRI envolvidos. De igual modo, procurará saber as suas motivações e ouvir as explicações que a custo vão dando para justificar um desenlace daquela gravidade. De forma serena e meticulosa iremos assistir aos inquéritos, sem gorduras ficcionais adicionais, que a partir de certa altura incidirão sobretudo sobre dois agentes que dispararam em simultâneo sobre Guillaume Girard, e sem razão aparente para invocarem legítima defesa. Tudo indica que os polícias do BRI ultrapassaram as normas, as mais básicas linhas vermelhas, inerentes ao contexto não só da sua missão como da sua profissão, no fatídico dia 8 de Dezembro de 2018. Para os devidos efeitos, Stéphanie Bertrand reúne uma série de pistas e provas gravadas pelas câmaras de vigilância urbana instaladas no local onde se deu o confronto, para além de materiais obtidos por jornalistas e, por fim, irá interpelar de forma mais musculada, após saber com segurança quem se ocultava por detrás das máscaras usadas pelos membros do BRI, a dupla de agentes que para dissimularem a verdadeira autoria do sucedido respondiam com evasivas destinadas a silenciar os ecos do incidente, sacudindo as responsabilidades para cima da vítima. Precioso será um vídeo gravado de uma janela por uma empregada de hotel, sequência completa do que se passou e que na prática demonstra, preto no branco, aquilo que se começava a adivinhar ser falso nas declarações recolhidas, sobretudo pelos autores dos disparos. Na realização de Dominik Moll e na montagem de Laurent Rouan encontramos motivos de sobra para, enquanto espectadores, nos sentirmos por dentro das investigações que decorrem num ritmo seguro e articulado entre o exterior dos gabinetes policiais e os exteriores de Paris e da sua banlieue, e ainda numa área mais pacífica mas não socialmente pacificada da França profunda, a comuna de Saint-Dizier. Todos os locais correspondem de uma maneira ou de outra ao perímetro de diligências que Stéphanie Bertrand irá definir para concentrar e sistematizar a atenção de modo a conseguir apurar a verdade. Nesta última localização, a agente possui relações familiares que de forma surpreendente irão revelar-se motivo de preocupação e não de consolação. E, uma vez aqui chegados, proponho deixar aos espectadores do “Caso 137” a descoberta de um cruel desenlace final. De facto, a pergunta que então se levanta não anda longe da compreensão do que vale o esforço de querer fazer justiça usando apenas e só os mecanismos legais que podem e devem ser activados para suster ou impedir as más práticas dos que supostamente deveriam ser os primeiros a defender o Estado de Direito. Digo-vos apenas que a hierarquia policial irá esgrimir argumentos que fazem pensar duas vezes sobre a fragilidade de uma condenação ou de uma absolvição, perante a natureza “administrativa” de certos abusos de poder.
Título original: Dossier 137
Título internacional: Case 137
Realização: Dominik Moll
Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich
Duração: 115 min.
2025, França




