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O Último Padrinho – Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Fabio Grassadonia e Antonio Piazza fecham um ciclo sobre a máfia com o filme «O Último Padrinho». Encerrando a trilogia iniciada com «Salvo» e «Sicilian Ghost Story», a obra representa também um fecho pessoal para os realizadores, que revisitam a Sicília onde cresceram para confrontar um passado marcado pela violência da máfia. Sem esperança redentora, o filme procura desmistificar a figura do criminoso, expondo a sua fragilidade.

Em conversa com a METROPOLIS através de Zoom, a dupla prepara-se agora para novos caminhos, deixando para trás um tema que consideram esgotado, mas reconhecendo que o passado continua inevitavelmente presente.

Naturais de Palermo, na Sicília, e oriundos do mesmo bairro, Fabio Grassadonia e Antonio Piazza só se cruzaram longe de casa, em Turim, durante um mestrado em técnicas de narrativa, em 1996. À época, um era jornalista (Antonio) e o outro era professor de literatura (Fábio), mas ambos partilhavam a sensação de que aquele não era ainda o seu caminho definitivo.

Foi nesse contexto académico que começaram a escrever juntos, inicialmente como exercício, mas o reconhecimento surgiu cedo: um professor incentivou-os a seguir a escrita profissionalmente e a mudarem-se para Roma. Durante anos, trabalharam como argumentistas para terceiros, sobretudo em televisão, numa fase que hoje descrevem como pouco estimulante.

A viragem aconteceu com «Salvo», a primeira longa-metragem que escreveram. O projeto levou-os até Amesterdão, através do envio do argumento para um instituto internacional que permitia desenvolver argumentos com acompanhamento de tutores especializados. Foram viver para Amesterdão e recordam esse tempo como “extraordinário”. Durante esse período, venceram o Prémio Solinas, uma das mais importantes distinções italianas para Argumento.

O reconhecimento trouxe também um desafio: provar que eram capazes de realizar. Daí nasceu a curta-metragem «Rita», passo decisivo que lhes abriu as portas para a realização de «Salvo». Desde então, escrevem e realizam em conjunto.

Um mundo trágico e ridículo

O ponto de partida para o mais recente filme – «O Último Padrinho» – surge da leitura de um conjunto de cartas escritas por um chefe da máfia em fuga durante mais de três décadas. “Estas cartas são realmente interessantes — não pelo conteúdo dos negócios que são referidos, mas porque este homem gostava muito de construir e apresentar a sua personagem às pessoas a quem escrevia”, refere António Piazza. Mais do que o conteúdo prático dessas mensagens, o que interessou aos realizadores foi esta construção da identidade do próprio autor.

Nas cartas, o homem revelava uma necessidade obsessiva de auto-afirmação: “Lemos essa troca de cartas entre ele e um político da terra de onde era natural, uma correspondência que teve lugar no início dos anos 2000, e através dessas cartas reconhecemos uma figura interessante: uma pessoa extremamente inteligente, mas também um narcisista patológico, que gostava muito de se encenar a si próprio ao abordar temas importantes da vida, como a literatura, questões filosóficas ou reflexões sobre Deus e a Bíblia — e isso despertou-nos bastante interesse”, partilha Fabio Grassadonia.

Ao mesmo tempo, esse material permitia observar o universo que o rodeava — um ambiente que os realizadores descrevem como simultaneamente “trágico e ridículo”. Essa dualidade tornou-se central no filme. Muitos dos elementos que podem parecer exagerados ou grotescos são, garante a dupla, fiéis à realidade. As personagens existem, falam assim e vivem mergulhadas na mentira: “As palavras são usadas apenas para mentir”. Por trás da grandiosidade aparente, encontra-se um “vazio absoluto”.

A máfia como espelho

Mais do que retratar uma figura específica – neste caso, a vida de Matteo Messia Denaro, o filme propõe uma leitura mais ampla. A personagem central surge como reflexo de uma sociedade marcada pelo narcisismo e pela ausência de valores. “Quando pensamos em narcisistas patológicos no poder, percebemos que aquilo que mostramos não está assim tão distante do mundo em que vivemos hoje”, afirma Antonio Piazza. A fronteira entre legal e ilegal, acrescenta, tornou-se cada vez mais difusa, ao ponto de já não ser clara. “O tipo de mundo que daí resulta é o reflexo de um patriarcado envenenado. Não há nada de positivo que possa surgir de um homem assim. É também por isso que, neste filme — ao contrário dos dois anteriores da nossa trilogia sobre a máfia —, a abordagem é diferente”, complementa.

Nesse sentido, o protagonista é descrito como “o último de uma espécie” — não porque o sistema tenha desaparecido, mas porque já não precisa de figuras como ele: o modelo de poder disseminou-se.

Ao contrário dos filmes anteriores da dupla, este capítulo é marcado por uma ausência total de esperança. Nos projetos anteriores, apesar da violência, existia a possibilidade de um encontro transformador — uma relação capaz de alterar o destino ou, pelo menos, a alma das personagens. Ainda assim, há um gesto subtil que pode ser lido como esperança: a desmistificação do criminoso. “O criminoso também é um ser humano pequeno”, sublinha Piazza. Ao desmontar o mito, expõe-se a fragilidade que está na base do poder.

Fabio Grassadonia e Antonio Piazza

Um ciclo que se fecha

«O Último Padrinho» integra uma trilogia que explora o universo da máfia através de diferentes géneros cinematográficos. «Salvo» aproxima-se do noir clássico; já «Sicilian Ghost Story» assume-se como um conto de fadas sombrio inspirado em factos reais; este último filme surge como uma farsa negra.

A diversidade de registos foi intencional, permitindo abordar o mesmo universo sob diferentes ângulos. Com este terceiro capítulo, os realizadores consideram encerrada a sua relação criativa com o tema. “Não há mais nada que queiramos dizer sobre a máfia”, afirmam.

Essa decisão tem também uma dimensão pessoal. Cresceram na Sicília das décadas de 80 e 90, marcadas por extrema violência e pelo poder da criminalidade organizada. Esse contexto moldou profundamente o seu olhar. Através do cinema, sentiram necessidade de regressar a esse lugar de dor, confrontá-lo e, de certa forma, encerrá-lo. “Pagámos a nossa dívida”, diz Piazza. “Agora somos livres para explorar outras coisas.”

O filme marca também uma mudança ao nível da produção, com um elenco mais amplo e composto por atores conhecidos. Pela primeira vez, o argumento foi escrito já com intérpretes específicos em mente, o que alterou o processo criativo.

Ao mesmo tempo, obrigou-os também a lidar com outro tipo de desafios: “Agora temos mais experiência com grandes atores e grandes egos”, admitem, com ironia.

O futuro: distância e recomeço

Depois deste projeto, a dupla regressou temporariamente à escrita para terceiros, concluindo um argumento que será realizado por outros. Paralelamente, começaram a desenvolver uma nova história, ainda numa fase embrionária, que marcará a entrada num género diferente.

Apesar da vontade de seguir em frente, deixam uma nota de atenção: “Pode-se tentar fugir ao passado, mas ele nunca nos abandona”.

A visão sobre o futuro da Sicília é tudo menos optimista. Para a dupla, décadas de corrupção e degradação estrutural deixaram marcas profundas.

Relatam ainda que, apesar de uma rodagem de sete semanas na região, com uma equipa numerosa e investimento significativo, não receberam qualquer apoio local — em parte devido ao tema do filme. Pelo contrário, enfrentaram críticas públicas de figuras políticas [o filme não foi estreado sequer na localidade].

Fabio Grassadonia e Antonio Piazzaapontam, ainda, problemas persistentes: serviços públicos deficientes, desemprego jovem elevado, emigração forçada e má gestão de fundos europeus. Em alguns casos, a escassez de água chegou a níveis extremos, obrigando ao abate de animais.

Esse contraste entre a realidade e a imagem idealizada da Sicília — frequentemente promovida por produções internacionais e pelo turismo — é evidente. “À noite, queremos acreditar que vivemos nesse paraíso. Mas de manhã acordamos num lugar onde figuras como Matteo Messina Denaro conseguiram esconder-se durante 30 anos.”

Num episódio revelador, recordam a apresentação do filme em Veneza, onde uma jovem siciliana questionou por que razão continuam a fazer filmes sobre a máfia em vez de mostrar a beleza da ilha. Para os realizadores, esse momento sintetiza um problema cultural profundo.

No final, a conclusão é desarmante pela sua simplicidade: perante uma realidade tão complexa, “somos apenas pequenos seres humanos — e não conseguimos resolver tudo”.

Sara Afonso
Sara Afonso
Entrou para o jornalismo há mais de 20 anos, ainda antes de terminar o curso de Comunicação e Jornalismo. Estagiou no jornal O Jogo, na área de cultura e cinema e, no final do curso, entrou no jornalismo especializado de Tecnologia, nas revistas Connect, Casa Digital e T3. Em 2011, aceitou a direção do seu projeto de sonho: a revista de cinema Empire, o bilhete dourado para conhecer e entrevistar estrelas do cinema e da TV, para comentar eventos de cinema e para ser júri em festivais de cinema nacionais. Por fim, assumiu a coordenação de vários projetos de imprensa, em áreas como surf, fitness, gastronomia, vida selvagem, mindfulness e criatividade, alimentação saudável, entre outros, sempre mantendo a colaboração na área do cinema, com a revista digital METROPOLIS. Já escreveu livros, criou perguntas para um famoso programa de televisão e contribuiu com a sua escrita para um projeto deslumbrante sobre o Oceano, (Oceans and Flow). Recentemente, voltou ao mundo das revistas, mas, como alguém disse um dia: “A partir do momento em que participam na descoberta mágica do cinema, este torna-se o vosso amor para sempre.

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