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Fuori

“Siamo fuori di testa, ma diversi da loro” (“Somos loucos, mas diferentes deles”), canta-nos Måneskin em “Zitti e buoni”, que catapultou a banda para a fama internacional quando venceu o Festival Eurovisão da Canção. A música é de 2021, mas, várias décadas antes, já Goliarda Sapienza poderia também entoá-la.

Em «Fuori», ficamos a conhecer um pouco da sua complexidade intrínseca, mas apenas o suficiente para ficarmos com curiosidade para saber mais sobre uma figura que não se deixava prender por amarras. Considerada hoje um nome relevante na literatura italiana do século XX, mas cujo sucesso da sua obra-prima, “A Arte da Alegria”, só viria a acontecer após a sua morte, Sapienza também foi atriz, participando em filmes de Luchino Visconti, Alessandro Blasetti e Francesco Maselli.

«Fuori» é uma adaptação de um romance autobiográfico da escritora, “A Universidade de Rebibbia”, relatando a sua passagem pela cadeia que lhe deu também um novo fôlego para a escrita. Na obra de Mario Martone, encontramos Goliarda na Roma de 1980, com 55 anos, acabada de sair da prisão, onde se cruzou com Roberta, uma força da natureza que a questiona e inspira. Através de um biopic não linear e, por isso, mais rico e cativante, o cineasta napolitano desenha a relação entre a criadora e a sua criação, encapsulando Roberta como uma das personagens de Goliarda.

É uma relação intensa, desmedida e provocadora, que não dá espaço à monotonia. E, claro, tal apenas seria possível com duas atrizes que conseguissem passar essa química eletrizante. Valeria Golino, reconhecida e multifacetada atriz italiana, interpreta a personagem principal e volta a oferecer um desempenho refletido e profundo, com sensibilidade à flor da pele. Golino conhece bem, aliás, a obra de Sapienza, já que recentemente assinou a realização da minissérie «L’arte della gioia» (2024), a adaptação televisiva da grande obra da escritora. Do outro lado, encontramos a magnetizante Matilda De Angelis, que já tinha impressionado em produções como a série «A Lei de Lidia Poët» [«La legge di Lidia Poët»] (2023-2026), e que, aqui, encarna a ferocidade e a ousadia de uma personagem que dita as suas regras. A sua presença em cena rouba a atenção e dá um choque de adrenalina a uma narrativa que, por vezes, pode ter um encadeamento menos ritmado.

«Fuori» é uma viagem concretizada de forma eficaz por Martone, com uma banda-sonora sedutora e uma fotografia elegante, mas que nem sempre consegue verdadeiramente envolver o espectador, sendo as cenas na prisão aquelas que mais se destacam e que até poderiam ter uma abordagem mais aprofundada. A obra explora, de uma forma simbólica, a dicotomia entre “dentro” e “fora” — tanto de forma literal, no que diz respeito às regras da sociedade, como nas nossas próprias mentes —, sendo que, para Goliarda, a prisão poderá funcionar, na verdade, como um mote de rejuvenescimento e até, de certa forma, de liberdade. Contudo, numa obra que exalta a liberdade nas suas várias formas, parece que acabamos por não sair de um ciclo narrativo algo repetitivo, ficando sempre à espera de alcançar algo que não chega a concretizar-se por completo.

Título original: Fuori
Realização: Mario Martone
Elenco: Valeria Golino, Matilda De Angelis, Elodie
Duração: 117 min.
País: Itália, França, 2025

Fotos: @Mario-Spada

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