Enquanto muitos documentaristas lutam para contornar o tradicional formato das cabeças falantes usando sequências de animação ou outras estratégias formais para desarrumar artisticamente um retrato, Iain Forsyth e Jane Pollard abraçam o “documentário ficcionado”. Assim acontecera com Nick Cave e os «20.000 Dias na Terra» (2014), e no caso do mais recente filme da dupla, «Broken English», a originalidade da abordagem da vida e obra de Marianne Faithfull (1946-2025) salta à vista quando identificamos um jovem arquivista (George MacKay) a preparar materiais para aquilo que virá a ser uma longa conversa – ou melhor, uma aparição generosa de Faithfull, cuja saúde frágil é denunciada por um tubo de oxigénio, apesar de tudo, não demolidor do espírito jovem de uma mulher que, reconhecendo o seu romantismo de outrora, não consegue evitar o brilhozinho nos olhos de quem preservou uma qualquer frescura mental, à sombra da tragédia que muitos anos antes as drogas pareciam anunciar.
Estamos, pois, numa instituição chamada “Ministério do Não Esquecimento”, com Tilda Swinton como supervisora (ela que, por si só, parece transportar a verdade do mundo). Rodeados de objetos analógicos, em jeito de resistência à voragem da nossa experiência digital, Faithfull, o simpático arquivista e Swinton (lá do alto) vão percorrer a memória de um ícone dos sixties, a doçura da jovem inglesa que eternizou As Tears Go By, e que também escreveu a letra de Sister Morphine, como quem investiga as provas de que ela esteve sempre acima da categoria “namorada de Mick Jagger”, o termo que a imprensa da época quis colar à sua imagem como forma de diminuição.

Sexismo? Sem dúvida muitas das entrevistas revisitadas no encontro com a veterana Marianne transparecem a tóxica consciência masculina que dominou a sua narrativa no decorrer dos anos. Mas um documentário ficcionado como «Broken English» também serve para isto, para analisar um passado mediático, enquanto a música de Faithfull, através de vários intervenientes, vai moldando uma homenagem.
«Broken English», que pega no título do disco responsável pelo seu grande regresso depois de um longo período de problemas pessoais, não deixa de ser igualmente um filme que regista a pulsação de uma artista perante recordações da sua improvável sobrevivência. É por isso que vê-la cantar Misunderstanding, do álbum Negative Capability (2018), nos minutos finais, carinhosamente acompanhada por Warren Ellis e Nick Cave, parte-se-nos o coração e regenera-o ao mesmo tempo. Foi a sua última dádiva.
TÍTULO ORIGINAL: Broken English
REALIZAÇÃO: Iain Forsyth, Jane Pollard
ELENCO: Marianne Faithfull, Tilda Swinton, George MacKay
ORIGEM: Reino Unido
DURAÇÃO: 98 min.
ANO: 2025
Foto (ao centro): © Joseph Lynn




