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Ku Handza

Numa recente entrevista, André Guiomar, realizador e director de fotografia de «Ku Handza», 2025, deu-nos a pista necessária para interpretarmos as histórias de Benjamim, Eulália e Filimone, gente simples com vidas complexas, gente do povo determinada a ultrapassar as adversidades numa cidade, Maputo, e num país, Moçambique: “Ku Handza é uma expressão ouvida na rua, diariamente, entre as pessoas que se perguntam como estás, ou como está a correr o dia. E normalmente respondem, estou a `handzar`, ou `ku handza`. Tem a ver com o esgravatar à procura de comida que a galinha faz e que o moçambicano muito bem adaptou para o seu dia-a-dia.” E acrescentou o cineasta, com a devida lucidez de quem olha para as coisas não apenas na superfície mas vai mais fundo procurando uma resposta que nos mostre o presente, sem esquecer que existe igualmente um futuro: “Sinto que o cinema moçambicano também precisa urgentemente de olhar para a atualidade. Não só para o seu passado histórico, mas olhar para as pessoas agora, o que elas passam agora.”

Tecnicamente apresentado como um documentário (e por isso mesmo participou em diversos festivais nacionais e internacionais dedicados ao género), na minha opinião preferia classificá-lo como um documento da realidade moçambicana que, numa estrutura narrativa pensada como uma ficção, procura encontrar o modelo mais eficaz para nos revelar a verdade, não absoluta mas relativa, de um país que no próximo dia 25 de Junho de 2026 (data de estreia do filme) celebra o seu quinquagésimo primeiro ano de independência.

Não vejo mal nenhum que se desenvolva, a partir de uma realidade concreta e sem filtros, um patamar documental e ficcional que um projecto desta natureza fatalmente implica, quando se deseja atingir alvos concretos na articulação da matéria que define as linhas de força do que se quer dizer, do que se quer mostrar, e do que se quer que perdure na memória cúmplice ou não do espectador. Trabalho redobrado, quando aqueles que representam os seus próprios papéis e (muito provavelmente) nunca foram actores, são os intérpretes de corpo e alma das suas idiossincrasias existenciais.

E, precisamente, o encargo do realizador (ao contrário do que se vê em muitos documentários e não poucas ficções) não deve ser apenas o de assumir um olhar passivo e distanciado na grotesca ilusão de que basta apontar a objectiva para um aterro sanitário (como iremos ver) para lhe sentir o fedor e constatar a miséria de quem por ali anda a “esgravatar” no meio do que foi rejeitado. Não, até mesmo nos caminhos rodeados de montes de lixo, por onde circulam homens e mulheres em busca de um magro sustento, são precisas personagens com coragem, energia e força de vontade para percebermos a razão do seu comportamento quotidiano, a razão de ali estarem, para que essas pessoas com rosto e sentimentos não se resumam a meros figurantes de um “documentário” preguiçoso, ou pior, uma muito básica e demagógica reportagem sensacionalista.

Felizmente, “Ku Handza” recusa ser um mero panfleto sobre o mal-estar social. Prefere pegar em pessoas com diferentes actividades e precárias profissões, mantendo na intersecção das histórias de cada um aquilo que os une, ou seja, o acreditar numa força redentora que os ajude a suportar as circunvoluções inerentes aos esquemas da sobrevivência diária. Neste contexto, alguns encontram conforto na fé e, como em muitos outros lugares, a religião perfila-se, através dos ritos e promessas de uma vida melhor, como um consolo espiritual que seguramente acompanha as populações sem que isso reduza a brutalidade do posterior e gélido mergulho na realidade.

Na verdade, quando Eulália (na minha opinião, a mais forte e multifacetada das personagens protagonistas) descreve o seu parto num hospital, que seguramente não possuía as condições ideais para a maternidade, não sentimos que a fé católica ou as rezas evangélicas pudessem exercer qualquer influência sobre o acto puro e duro de nascer no meio do chão. Diga-se que a descrição que ela faz do parto constitui uma peça de antologia sobre a condição humana. E fá-lo com uma pitada saborosa de humor. Porque, em alguns casos, sorrir constitui o melhor remédio para a desgraça.

De facto, ninguém em «Ku Handza» perde a consciência do seu amargo quotidiano. Todavia, cada um encara o futuro de um modo diferente. Mais uma vez, veremos Eulália (mãe de seis filhos) a pegar nos cornos do destino e regressar ao seu ganha-pão, uma banca de comida (caseira) na já referida lixeira. Entretanto, Benjamim vive de um expediente volúvel devido a variáveis que não controla, como as flutuações da economia. Nas ruas da cidade procura o câmbio paralelo ao das instituições bancárias, de forma a obter rands sul-africanos para um suposto amigo. Trata-se aqui de arranjar dinheiro para custear a festa de aniversário do filho, comprar-lhe um bolo coberto de chocolate, um autêntico artigo de luxo para aquele pai de família. Pungente será o desfecho, prova de que no seio de algum proletariado dos nossos dias se perdeu o espírito solidário de união, prevalecendo o capitalista “cada um por si”. Já Filimone, o mais integrado nas esferas oficiais, devido a ser militar, a cada seis meses vai para o Norte de Moçambique e para a guerra que subsiste em Cabo Delgado (província que faz fronteira com a Tanzânia), lugar assombrado pelos ataques das milícias extremistas associadas ao Estado Islâmico. Nas entrelinhas sente-se a dor pelos acontecimentos que presenciou e pelo facto de estes conflitos impedirem (como certamente impediram durante a luta de libertação contra o colonialismo e a posterior guerra civil) que os pais acompanhem o crescimento dos filhos. E são numerosas as famílias naquele país. De novo dou a palavra a André Guiomar: “Nada daquilo é inventado. Pode haver mais ou menos manipulação a descer ou a subir a montanha, fazer uma curva diferente porque o `shot` é bom. Mas não há uma história de amor inventada. Não há uma história de um pai e filho que não exista. Tudo aquilo é real. São as histórias deles.

Falado na língua Changana (Tsonga) e Português, «Ku Handza» merece um olhar depurado de preconceitos sobre um grupo de histórias que sem se cruzarem constituem uma unidade identitária, conjugadas num filme sobre um país habitado por pessoas cuja voz pode aqui ser ouvida nos sobressaltos da sua já longa luta por um lugar pleno na sociedade a que pertencem. Talvez este filme não vá mudar o rumo das suas vidas, mas ao menos haja esperança de que a luz e os ecos daquilo que vemos e ouvimos seja matéria para lançar uma discussão sobre o que se perfila de mais urgente em Moçambique. E a produção lembra na sinopse uma frase que, pela sua acuidade, aqui cito com o devido destaque: Como diz um antigo provérbio africano, «quando os elefantes lutam, quem sofre é o capim».

 
Título original: Ku Handza
Realização: André Guiomar
Documentário
Duração: 75 min.
Portugal, 2025

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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