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Uma Mãe e o Seu Filho

Em Portugal, a arte e a coragem do realizador iraniano Saeed Roustayi já ficaram demonstradas com duas grandes estreias comerciais, «Metri Shesh Va Nim» («A Lei de Teerão»), 2019, confronto de polícias e dealers nos diferentes escalões do submundo da droga, e «Baradaran-e Leila» («Os Irmãos de Leila»), 2022, drama cujo eixo principal girava ao redor de uma família e da sua afirmação social num contexto económico desfavorável e submetido a prolongadas sanções externas por parte dos EUA que, aliás, ainda permanecem nos dias de brasa que hoje vivemos.

Entretanto (pela mão da MIDAS Filmes) será estreado no nosso país o seu filme mais recente, «Zan va bache» («Uma Mãe e o Seu Filho»), 2025. Trata-se aqui, apesar da crueza com que expõe algumas das feridas latentes na sociedade iraniana (não muito diferentes das que não saram quando abertas pelos abismos das contradições familiares em qualquer país do mundo), de um regresso a uma matéria que combina melodrama e realismo muito ao gosto local. É uma opção que pode ser vista como uma pacificação estratégica por parte dos produtores e do realizador/argumentista. Uma vez introduzida na narrativa, deu lugar a um posicionamento menos agressivo e a um diluir da crítica de costumes, e não só, que era o prato forte e até a palavra de ordem, mais ou menos explícita ou mais ou menos subliminar, dos melhores argumentos da sua obra anterior. Não significa isto que o filme seja menos eficaz a desmontar os mecanismos que estão por detrás da crise existencial que irá atingir os protagonistas, nomeadamente o mais brutal dos conflitos dramáticos que acaba por condicionar o percurso de uma mulher e mãe (viúva, com dois filhos) a viver nos limites da verdade e da mentira no que diz respeito ao relacionamento com um irrequieto e pouco fiável namorado com quem planeia casar.

Ela, Mahnaz (Parinaz Izadyar), ganha a vida como enfermeira num grande hospital de Teerão. Ele, o noivo, Hamid (Payman Maadi, um dos actores mais conhecidos do novo cinema iraniano e um dos fiéis colaboradores do realizador), conduz uma ambulância pertencente a uma organização que, para além dos serviços legítimos, aluga os ditos veículos a pessoas com necessidades, por vezes famílias inteiras, para nas suas cabines pernoitarem. Negócio escuro e seguramente ilegal.

Dos filhos de Mahnaz, para além da pequena e astuta Neda (Arshida Dorostkar), destaca-se a presença viva, mesmo muito viva, do adolescente Aliyar (excelente interpretação do principiante Sinan Mohebi) Este sabe viver de expedientes e manipular a seu favor (e lucro) as mais diversas situações, incluindo as que surgem no quadro de relações mais próximas com a avó e a irmã.

Todavia, no contexto das actividades exteriores ao seu círculo doméstico, o rapaz dá sinais de não se acanhar perante “aventuras de alto risco”, sobressaindo aqui as investidas que faz pelas oficinas de uma escola profissional onde, num sítio relativamente escondido, se mistura com os que ali se encontram para aprender e agarrar um ofício. Será aí que participa numa série de jogatanas em que, com a ajuda de um pião que gira, gira enquanto se fazem apostas, consegue recolher importantes somas de dinheiro. Enfim, sejamos francos, riqueza fátua e numa escala modesta, mas que lhe permite assumir no dia-a-dia, incluindo o das rotinas da vida académica, uma atitude de autoconfiança (mesclada com uma pitada de arrogância juvenil) que se irá manifestar num grau resvaladiço de indisciplina e mau comportamento no decurso do ano lectivo. Por essa razão, será suspenso e só não será expulso devido à compreensão de um professor mais condescendente e sobretudo ao visceral desespero das súplicas manifestadas pela progenitora. Entretanto, nada se compara ao que vai suceder a seguir quando entra em jogo algo muito mais sério do que a sorte e o azar subjacente a uma “brincadeira” destinada a conseguir algum dinheiro de bolso.

De facto, aproximam-se os preparativos do casamento da mãe, e ele e a irmã vão ser encaminhados para casa dos avós paternos, porque a quarentona Mahnaz (que não esconde os ecos de uma vida passada) não quer desvendar aos familiares de Hamid que já fora não só casada como mãe de um rapaz e de uma rapariga. Na verdade, há situações que precisam de ser geridas com pinças, mas mesmo assim a vida continua.  Há ainda que juntar a isto o facto de o previsto casamento ser cancelado e de a irmã da protagonista, Mehri (Soha Niasti), contribuir para esta devastadora equação. Tudo o que parecia adquirido, mesmo num quadro de circunstanciais adversidades, passa a não corresponder ao status quo prevalecente no seio mais amplo da sua família.

Entretanto, uma desgraça mortal irá abater-se no até aí incerto e precário equilíbrio que nos fora dado ver. Deste modo, a mulher/viúva/mãe e noiva, vai entrar em colapso emocional e cair numa espiral de desespero e desejo de justiça, a que adiciona um forte sentimento de vingança, que a certa altura concretiza através de procedimentos erráticos e violentos que só a podiam conduzir a um beco sem saída. E aqui chegado, nada mais direi, a não ser que vai ser nesta segunda metade de «Uma Mãe e o Seu Filho» que o realizador demonstra a sua inegável capacidade para gerir uma ficção sem concessões ou rodriguinhos, apesar de nunca abandonar as regras estruturais que definem as linhas mestras do pulsar de uma bem urdida matéria melodramática. Como se costuma dizer, quando a acção e a emoção se encontram, estamos a meio caminho de alcançar a energia necessária, e mais do que suficiente, para sustentar um filme onde a resistência moral rima com os labirintos urdidos no plano familiar e social.          

Título original: Zan va bache
Título internacional: Woman and Child
Realização: Saeed Roustayi
Elenco: Parinaz Izadyar, Payman Maadi, Sinan Mohebi, Arshida Dorostkar
Duração: 131 min.
Irão/França/Alemanha, 2025

©-Amirhossein-Shojaei-Saeed-Roustaee

João Garção Borges
João Garção Borges
Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema Curso Superior de Cinema do Conservatório Nacional de Lisboa. No cinema, iniciou a carreira com a “Ilha dos Amores”, 1976-1977, de Paulo Rocha. Em 1979 ingressou nos quadros da RTP. Entre outras funções, foi programador de cinema na RTP2, Canal 2, TV2, A2 e RTPi. Entre 1996 e 1998, foi membro do Conselho Consultivo do IPACA. Produziu, realizou e programou diversos projetos originais, entre outros, o ONDA CURTA (1996-2013). Fundador e coordenador dos prémios ONDA CURTA. Crítico de cinema na Imprensa, Rádio, Televisão e Internet. Na Imprensa: Sábado (Primeira Série), Expresso, Premiére, European Film Reviews (Revista da FIPRESCI), Moving Pictures (Reino Unido), TV Guia e TV Guia Internacional, TV7 Dias, TV Filmes, Videoguia, F.I.M., Jornal de Letras. Na Rádio: RDP, Antena 1, Antena 3, RDP África e RDP Internacional, Rádio Paris-Lisboa, TSF, Rádio Renascença. Na Televisão: Cinemagazine, Acontece, Bastidores (autor, produtor e realizador), Telejornal, Jornal da Tarde.

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