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Rever Comanche – crítica

“Rever Comanche” é um dos maiores acontecimentos do mundo da 9ª Arte dos últimos anos, é uma multipremiada novela gráfica de Romain Renard que fez parte da seleção oficial do Festival de BD de Angoulême (Festival International de la bande dessinée d’Angoulême), onde venceu o Prémio para Melhor Policial no maior evento mundial dedicado à banda desenhada. O livro é também uma grandiosa homenagem da lendária Comanche de Greg [Michel Regnier] e Hermann [Huppen]. É um livro arrepiante editado pela ASA.

Este lançamento apaixonante abraça um universo muito querido pelos fãs da BD; Comanche é um dos marcos da 9ª Arte, sendo uma série desprovida de lirismo, dura, realista e moderna. Revistar o memorável personagem Red Dust nos anos 1920 é um golpe de génio. Esta história desenrola-se cinquenta anos após os acontecimentos de Comanche. Relembramos que a série clássica está disponível em Portugal através de uma compilação integral a preto e branco em três volumes editados pela Ala dos Livros.

Nesta novela gráfica, a personagem mística de Greg e Hermann, Comanche, a proprietária do famoso rancho Triple 6 e a paixão de Red Dust, está “fora do campo”, mas é espiritualmente encarnada pela protagonista desta história. Vivienne Bosh é uma personagem rija, uma mulher grávida que surge à porta de Cole Hupp, aka Red Dust, um velho casmurro que vive “entre os ursos” na floresta próxima da costa californiana. Os primeiros momentos desta história deslumbrante são desenrolados ao longo da Pacific Coast Highway, também conhecida por Highway 1 da Califórnia, que corre junto do Oceano Pacífico.  

No primeiro capítulo assistimos à colisão de duas personagens que irão iniciar uma longa jornada que será determinante para ambos. É uma história que cruza o presente com o passado, mas também oferece vislumbres de um futuro desolado e de literal abandono, onde a humanidade deixa apenas despojos de sua existência; o estilo único do belga Romain Renard é de cortar a respiração. A novela gráfica transpira cinematografia – e não é acidental – Renard é um artista multifacetado com incursões em várias artes como a música, o cinema e os videojogos. Há um belo toque em cada capítulo com os versos de canções de grandes artistas do universo da música; é poesia que espelha os acontecimentos que se vão seguir em cada capítulo.

Vivienne Bosh afirma a Red Dust que trabalha para a biblioteca do congresso, diz ser historiadora e está a recolher testemunhos das últimas pessoas que viveram a época dourada do Wild West, especialmente os acontecimentos do rancho Triple 6 no Wyoming. Quando Red liga para o rancho Triple 6, ninguém atende. Ele é procurado em quatro Estados, mudou de nome e a Lei esqueceu-se dele; a melhor alternativa não é apanhar o comboio, mas sim fazer uma viagem de carro com Vivienne, que inclui vários desvios e muitas incursões nos fantasmas do passado, especialmente aqueles que deixaram marcas na alma de um pistoleiro. É uma travessia de Red num país que mudou a sua paisagem, mas a natureza humana permanece imutável, é um homem a reboque de um tempo que já não lhe pertence.

O Wyoming só aderiu à União em 1890; os seus habitantes “desenrascavam-se” para fazer cumprir a lei e partilhavam o comércio com os Sioux, os Crows e os Arapahos. Depois veio o comboio e os investidores que se apropriavam das planícies e colocavam o arame farpado nas pradarias. Era o período dos novos proprietários, Red Dust precisava de dinheiro e veio do leste; pessoas como ele vinham acabar com os pequenos produtores, mas ele escolheu o campo dos outsiders e foi assim que foi parar no rancho Triple 6.

Apesar de tentarem não dar nas vistas, após uma rixa num bar, Red e Vivienne ficam com agentes da lei no seu encalço. A história tem como pano de fundo as famosas Dust Bowls – que ganham uma dimensão fantasmagórica no desenho de Romain Renard. Essas tempestades de areia provocaram morte, fome e um êxodo forçado dos agricultores das suas terras prometidas. Assistimos a uma consequência trágica dessa tragédia humana num dos capítulos desta história.

Apesar da desconfiança mútua dos passageiros desta viagem memorável, eles começam a criar empatia através dos seus percursos melancólicos. No caso de Red, ele carrega em si uma memória viva da paixão por Comanche e da vida impiedosa no Oeste face aos chacais que matavam sem pudor. Não podemos revelar mais nada sobre a Vivienne – seria estragar a viagem dos nossos leitores –, mas fica a promessa de um desfecho apoteótico e cheio de grandes revelações. Além disso, surge um personagem do passado de Red, que lhe relembra que já não há nada para eles e que o seu tempo já passou; no entanto, com esta figura icónica da BD, sabemos que tudo é possível e, sobretudo, o imprevisível.

Neste reencontro com o mito (ou, se preferirem, a procura do que sobrou do mito), Romain Renard conseguiu trazer o espírito do western épico de «Unforgiven». É uma história inspirada que por si só entra para o panteão da 9ª Arte com a combinação entre o desenho e o fotorrealismo. Simultaneamente, a obra coloca um enormíssimo ponto final num dos pilares da BD franco-belga. “Rever Comanche” é um clássico instantâneo.

[Crítica originalmente publicada na Revista Metropolis 128, Março 2026]

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