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Banzo – Margarida Cardoso

Depois de vários trabalhos sobre África e as questões coloniais, Margarida Cardoso regressa, com «Banzo» (2024), ao cenário da dominação colonial portuguesa e ao tema da escravatura. Numa ilha onde as roças de cacau são alimentadas pela mão de obra escrava, uma estranha doença afeta os escravizados: é o “banzo”, provocado pela melancolia da terra natal, de onde foram arrastados para servir à exploração económica da ilha. Filmado em São Tomé e Príncipe, o filme teve origem num registo anterior da cineasta, «Understory» (2019), como nos revelou: “Comecei a ligar-me mais a esta questão das plantações por causa de um filme que fiz antes — «Understory» (2019) — que era um trabalho que gostaria que fosse uma série, em que cada episódio seria dedicado a uma planta, para cada território. Fiz um episódio piloto que era sobre a planta de cacau; foi aí que passei mais tempo em São Tomé e Príncipe e tive mais possibilidade de investigar, também, os arquivos das roças da época. A partir daí, comecei a interessar-me sobre o que se passava no sistema das plantações, em Portugal, nesse início do século XX e, sobretudo no final do século XIX, pois o país, à época, era considerado o pioneiro científico e tecnológico na exploração do cacau.”

Foi, a partir daí, que a autora de «Costa dos Murmúrios» (2004) começou a ler muitas histórias, também particulares, e os boletins que estavam guardados nos arquivos das roças. Foi a porta de entrada nesse mundo e a vontade de querer falar dele. A escrita do argumento foi um processo ligeiro, pois essa é a sua forma habitual de trabalhar, como nos revela: “Sou muito rápida a escrever. Tenho a ideia, não escrevo muitas coisas, mas, quando começo a escrever, já com essa investigação toda e com um apoio que tivemos para a preparação, fui para São Tomé e ainda estive mais tempo a ver os locais e também a estudar mais no arquivo de São Tomé. Foram dois meses e meio. Escrevi tudo seguido – até porque também dou aulas e não tenho muito tempo livre – e reservo sempre cerca de dois meses para a escrita e não posso ter outras coisas.  Com as férias escolares e outras coisas, consigo arranjar tempo.”

O trabalho de escrita do argumento foi muito fluido e um processo solitário, como destaca a realizadora. É a sua forma de trabalhar: sabia como é que o filme acabava, e foi por aí que começou. Inicialmente, a realizadora interessou-se muito pela doença — o banzo —, pois os hospitais desempenham um papel crucial em São Tomé, onde as maiores ruínas são de hospitais. Esses hospitais tiveram cada vez mais importância no sistema das plantações, criando a impressão de que, em termos civilizacionais, os donos das roças estavam preocupados em manter a boa saúde dos serviçais, embora, na verdade, suas motivações fossem mais complexas.   A realizadora, em discurso direto, remata, sobre o processo de construção do argumento: “Comecei a interessar-me por isto e também porque existem muitos relatórios dos médicos e eram uma fonte muito boa! Portanto, comecei a saber muito sobre os médicos que representavam um papel muito importante: mais do que serem médicos, eram agentes sociais. Para além disso, sabia que o personagem principal era um médico e tinha a ideia da doença da nostalgia, porque li nos relatórios clínicos que havia pessoas que morriam de nostalgia — a expressão banzo é uma coisa muito mais antiga. A partir daí, comecei a criar esse personagem branco que chegava a esse local e a essa roça, o tal médico. Os outros personagens foram aparecendo, pouco a pouco, com a escrita.”

 Na construção da narrativa, as fotografias são um elemento importante e, no caso de Margarida, com formação inicial em fotografia, adquirem especial relevo, nas suas próprias palavras: “as fotografias permitem ler o que se passou, embora um documento fotográfico não seja a verdade! São instrumentos poderosos para criarem narrativas, e essas narrativas podem ser de todo tipo. No filme, vemos o fotógrafo a captar as imagens das roças, tudo muito arrumado, em que todos os trabalhadores aparecem bem, que são encenações! Porém, há um aspecto curioso: o próprio fotógrafo tenta captar o mal e depara-se com a ideia de que ele não se deixa fotografar. Acho que a fotografia tem esse papel.” Margarida Cardoso situa a ação do filme em 1907, pois tem a ver com o momento em que apareceram os primeiros registos das atrocidades cometidas no Congo Belga — as mãos cortadas dos escravos. Foram captadas e trazidas pelos missionários ingleses e projetadas em sociedades, através da “lanterna mágica” (processo de exibição de imagens). Ora, essas projeções permitem que a fotografia possa ser utilizada como prova do que se passava e, por isso, a data escolhida é um marco muito importante para se começar a compreender o grau de atrocidades da colonização europeia. Sobre este aspecto, a realizadora não podia ser mais concludente: “A fotografia não é um registo da realidade. É o registo de uma atitude, de uma vontade, e conseguem-se ler muitas coisas nas fotografias. Este aspecto é muito importante e já em «Costa dos Murmúrios» (2004) eles queimavam as fotografias; no «Yvone Kane» (2014) há um momento em que temos as fotografias da guerrilheira e o museu onde as fotografias estão fechadas. A questão com a imagem é, sempre, importante. Comecei como fotógrafa, tirei o curso de fotografia, gosto sempre de foto e imagem, e também gosto que os meus trabalhos tenham um certo ambiente conceptual, e dou muita importância a nível da imagem.”

«Banzo» (2024) passa-se numa ilha ficcional, num microcosmo colonial, onde a produção de cacau é assegurada pelo trabalho escravo. No processo de construção dramatúrgica do local, a realizadora baseou-se no ambiente que encontrou em São Tomé, nos arquivos, na sua própria experiência pessoal e a partir de um outro aspecto importante ligado à ilha, como nos conta: “Em São Tomé, essas coisas continuam muito vivas, o passado que parece muito distante está bastante presente, não só nos restos arquitetónicos que ali estão, nas ruínas do que foi, mas também muito presente na memória das pessoas e nas histórias. A verdade é que o sistema não mudou muito, da escravatura para os contratados e dos contratados até o fim da época colonial. O sistema não mudou muito! Portanto, as histórias e o imaginário são muitíssimo semelhantes; mesmo a forma como as pessoas se relacionam com o trabalho, com o poder, com isso tudo, é ainda muito presente. Portanto, imaginei o meu ambiente dessa forma. Por exemplo, há uma altura em que eles chegam e há uma banda da roça; também me inspirei em situações que vi em filmes. É bastante comum, mas são coisas que chamam a atenção; são os serviçais que aprendem aqueles instrumentos musicais, e provavelmente são instrumentos que não fazem parte da sua cultura.”

Embora haja um rigor histórico, no filme, o qual contribui para a contextualização da ação, notamos uma certa irrealidade do espaço e do tempo, e a criadora nunca quis que aquele local se chamasse São Tomé; não era essa a sua ideia. A este propósito, Margarida Cardoso justifica-se: “Era uma ilha, a ilha, e eu queria dar esse ar irreal. Mesmo a roça para onde eles vão era uma roça que estava abandonada. Não é porque eu goste da palavra fantasmagórico — pois às vezes tem outras leituras. Porém, gostava que fosse uma coisa fora do tempo, muitíssimas vezes fora de uma realidade concreta. Passa um pouco para o outro lado, e era isso que queria com os nevoeiros, com as neblinas, com as pessoas que não se veem bem, não se percebe bem quem é quem. Foi isso que tentei construir com o filme.”

A composição dos planos nos filmes da realizadora de «Natal 71» (1998) é, tal como na escrita do argumento, um processo solitário e organizado, embora com espaço para surpresas, como nos revelou de forma detalhada: “Normalmente, no meu processo um pouco solitário (embora não seja única nesse pormenor) escolho os sítios, os locais onde quero filmar, já num momento posterior à escrita, portanto vou procurando coisas que se acomodem um pouco aquilo que imaginei na minha cabeça, embora, outras coisas já imaginei porque já as vi. Depois, faço uma espécie de planificação, desenho e tudo isso, mas apenas para mim. Quando analisamos os aspectos técnicos, eu partilho os planos e o que pretendo realizar, pois, apesar de o filme ter um ar épico, foi filmado com um orçamento limitado, sendo tudo muito contido e o nosso tempo de trabalho bastante reduzido. Tudo isso requer uma certa organização! Depois, na rodagem, acontecem muitas situações inesperadas. Tenho um certo propósito de ir para os locais mais recônditos, para as florestas, para sítios que às vezes são difíceis, pois também gosto que essa realidade “despenteie” um pouco o que está programado. Há sempre uma emoção, um elemento surpresa! Acho que isso é indispensável.”

A rodagem esteve seis semanas na ilha de São Tomé e outras duas semanas de cenas de interiores em Portugal, onde esse lado inesperado esteve afastado, em contraste com o ambiente e a atmosfera que a equipa tinha em São Tomé, onde era tudo mais fluido. A realizadora dá muita importância a esse aspecto, pois vai para os locais para trabalhar e, neste filme, aconteceram muitas surpresas na produção: as estradas e muitos décors que desapareceram, e tudo o que se pode imaginar. Sintetiza, de forma lacônica: “O filme é uma adaptação daquilo que idealizara com aquilo que atingiu”, e acentua: “Foi uma rodagem fantástica no sentido em que consegui ter uma equipa muito empenhada para um filme que era muito difícil. Cada dia que se completava a rodagem era um milagre, por várias razões. A equipa teve sempre muito empenhada, o que me ajudou bastante, e até foi bastante descontraída para a quantidade de coisas estranhas que aconteceram. Estávamos sempre com lama até o pescoço; foi muito difícil! Como é um filme de época, tivemos de levar todo o material para a ilha, em contentores, e os barcos demoravam a chegar. O tempo de rodagem em São Tomé foi de seis semanas, mas a preparação, na ilha, durou cerca de três meses.”

Dos dias intensos vividos em São Tomé, Margarida destaca um dia de rodagem inscrito nas memórias de toda a equipa: “Acho que ficou na memória de toda a gente: é quando os personagens vão fazer um picnic, numa cascata, num cenário um pouco longe, na ilha. Começou uma tempestade, a cascata começou a engrossar e, quando estávamos a preparar para filmar, a água começou a subir a uma velocidade intensa. Então, o que seria um dia de trabalho teve de ser encurtado e filmado em uma hora. O resultado foi um plano mais aberto e outros planos mais fechados, nos quais os atores já têm água quase pelos tornozelos. Acabamos por sair todos desse sítio, puxados por cordas, com uma corrente de água gigantesca. Tínhamos programado seis horas de rodagem e, no final, tudo se resumiu a uma hora, com o material, com os adereços – as mesas de picnic, os restantes adereços – os figurantes. Foi assim muito emocionante passarmos todos e foi um dia louco!”

Relativamente à escolha do elenco, incluindo os figurantes, houve um casting, como nos revela a realizadora: “sobretudo para os dois personagens principais, a personagem do médico que chega à ilha, interpretada pelo Carlotto Cotta, e a do fotógrafo, escolha que, após um processo longo, recaiu em Hoji Fortuna. Destaco, igualmente, a escolha para a personagem da empregada degredada, de uma atriz fantástica num papel pequeno, a Maria do Céu Ribeiro, uma atriz do Porto que foi escolhida para o papel da Adélia. No caso do Dr. Figueira — o médico que trabalhava na ilha — já pensava que podia ser o ator João Pedro Vaz; também já tinha pensado no Gonçalo Waddington para o papel de Raimundo e, no caso da personagem do jovem Ismael, escolhi o Rúben Simões e não fiz casting nenhum, pois já o conhecia de umas filmagens.”

No trabalho com o elenco, Margarida Cardoso possui um estilo próprio na direção dos atores, como nos confidenciou: “Tenho uma particularidade que é: não faço ensaios e não falo com os atores sobre o background das personagens. Quando estou a escrever, a pessoa tem de incorporar ela própria os vários personagens e, quando estou a escrever sobre a personagem do Carlotto ou sobre a personagem do Hoji, sei o que está por detrás dos papéis, mas acho que não devo compartilhar isso com os atores. Um filme é, e sempre será, aquilo que está lá escrito!” Aquilo que a realizadora faz é, como nos revela: “deixar os atores lerem o guião e depois esperar as sugestões de coisas sobre as personagens. Isso sucedeu com a personagem de Afonso, composta pelo Carlotto Cotta, para a qual imaginei algo que tivesse acontecido antes de ele chegar à ilha. Deixei o ator tirar as suas conclusões, lendo o guião, e discutimos sobre isso. Além disso, durante a rodagem do filme, não foram realizados grandes ensaios, embora eu prefira ensaiar no próprio local; no entanto, no caso de «Banzo», fiz alguns ensaios prévios, especialmente para ajudar o Ruben Simões, um ator mais novo e sem experiência, a se integrar melhor com os outros. São trocas de impressões. Depois, gosto de ensaiar quando eles já estão vestidos, no local da rodagem da cena, quando já há o ambiente. Nos primeiros dias, anda-se assim um pouco à procura, por isso tenho de ter sempre cuidado, e estou muito atenta àquilo que os atores me estão a trazer. São dois ou três dias e já estamos todos alinhados. Não sou pessoa de dizer: “Tu vieste daqui e sofreste isto!”. Acho que isso é o trabalho do ator. O meu trabalho é escrever e assegurar que esteja no filme aquilo que eu quero. Durante as filmagens, não dou muito espaço; os atores acabam por dizer aquilo que está escrito, com ligeiras alterações. Há um grande rigor no trabalho com os atores! Os atores fazem sempre o que eu quero e o que está escrito.”

É a sua forma de trabalhar que se refletiu, também, na fotografia do filme, em que existiu uma sintonia com o diretor de fotografia, Leandro Ferrão, antigo aluno da realizadora e considerado um dos talentos atuais na direção de fotografia, como nos revela: “Ele é muito experiente, apesar de ser novo. Também é uma pessoa muito prática e, insisto, tem muita experiência. Precisava de alguém que me ajudasse muito a fazer um filme daqueles, no espaço de tempo que tínhamos e com o material que tínhamos, que era pouquíssimo! Não tínhamos grande maquinaria porque não se podem mover coisas na lama. Exigiu uma adaptação às condições da rodagem, àquilo que existia no terreno.”

No contexto particular do filme e da colonização portuguesa, uma das personagens solta uma frase imperativa que nos deixou a pensar: “Não é a terra que é maldita, são os homens de cima até abaixo!”. Margarida explica: “É um pouco aquilo que tento explorar, que é a História. Quando falamos da história, é um pouco complexo porque nós não estamos a discutir o passado, e o passado também não quer dizer nada senão a existência de uma série de mecanismos que muitas vezes se repetem. Estou muito interessada nesses mecanismos e na forma como nós os analisamos, como conseguimos viver com eles. Para mim, reviver ou construir, porque o filme permite-nos isto — transpormo-nos para um determinado tempo e para um determinado espaço —, acho que é uma ótima oportunidade para se refletir sobre isso, sobre o nosso presente e passado. Fomos nós, como humanidade, que fizemos e criamos a própria tecnologia. Não podemos culpar os outros; nós fazemos parte de um todo, e nós temos uma certa responsabilidade sobre essa terra. A forma como a moldamos, como a queremos domesticar, como achamos sempre que os elementos estão contra nós, em vez de estarmos só a trabalhar com todos os elementos naturais. É algo que tem se tornado muito importante, como essa questão da ganância e da exploração interminável dos recursos, que se expressa no capitalismo e no colonialismo. Hoje, continuamos na mesma linha de ação. É muito importante perceber isso: “Não separem as coisas, somos todos nós muito mais malditos do que é a terra!”

Margarida Cardoso promete continuar a focar a sua atenção no colonialismo português, depois de encerrar o ciclo de «Banzo» com a estreia nas salas nacionais e internacionais – como em França, onde estreou no dia de Natal. Porém, mais importante do que a estreia imediata e sempre contingente nas salas, atendendo à situação de divórcio dos espetadores com o cinema português, a realizadora acredita que este é apenas o início de uma longa vida do filme, tal como outras produções mais antigas que continuam a ser exibidas em festivais, mostras e plataformas de streaming. Conclui com otimismo: “Espero uma longa vida ao filme. O que conta é essa durabilidade e os debates que pode suscitar. Alguns que não vão ser muito fáceis, serão momentos um pouco mais difíceis, mas vai correr tudo bem.”

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